Fernández enfrenta dilema de como tirar Argentina da quarentena da Covid-19

Fernández enfrenta dilema de como tirar Argentina da quarentena da Covid-19

Pressão por relaxamento põe em risco modelo de sucesso no combate à pandemia

Nas últimas semanas, a Argentina, que até agora teve 4.117 casos de contágios da Covid-19 e 207 óbitos, começou a discutir o dilema de como sair da rigorosa quarentena decretada pelo governo do presidente Alberto Fernández, em meados de março. Uma das primeiras medidas anunciadas, pela municipalidade de Buenos Aires,

Uma das que protestaram publicamente foi a renomada escritora Beatriz Sarlo, que hoje observa com preocupação a situação de um país que é visto como modelo a seguir em matéria de combate à pandemia, mas que, ao mesmo tempo, está diante do difícil desafio de afrouxar sem provocar uma segunda e explosiva onda de infecções. As imagens de praças cheias em cidades da Espanha e Reino Unido, fim de semana passado, assustaram pessoas como Sarlo.
— Temo muito por esse momento, aqui na Argentina. O pior que poderia acontecer é que se optasse pela repressão para exigir o cumprimento de medidas de isolamento. Acho que isso não vai acontecer, mas, sinceramente, não sei como essa saída administrada será implementada — afirmou Sarlo em entrevista ao GLOBO.
Ação chinesa:
Quando o governo de Buenos Aires tentou impor a obrigatoriedade da permissão para sair a pessoas acima de 70 anos, a escritora falou em “estado de sítio seletivo”. Superado o conflito, hoje ela observa com enorme preocupação a confirmação de casos de coronavírus em grandes favelas portenhas, algumas localizadas a curta distância do centro da cidade. O mesmo medo paira sobre a Casa Rosada, onde um presidente que tem entre 50% e 70% de aprovação teme que os casos de coronavírus se espalhem nas regiões mais humildes do país.
Coronavírus:
As pressões para avançar com o afrouxamento são fortes, porque a Argentina parou estando em recessão, que se arrasta há vários anos e em 2020 poderia levar o PIB a despencar mais de 6%. E tudo isso em meio a uma renegociação da dívida pública de final incerto, que poderia desencadear um novo calote.
Em meio à crise:
O Executivo estendeu a quarentena até 10 de maio, mas nada garante que não haja uma nova prorrogação. Até lá, em muitas cidades os argentinos foram autorizados a sair uma hora por dia e afastar-se, no máximo, 500m de suas residências. A pergunta que não quer calar é como controlar isso.
— O que estamos vivendo é como um jogo de futebol no qual um time faz um gol no primeiro tempo, fica com vantagem e precisa manter essa vantagem até o final. Estamos entrando no segundo tempo, e começa aquela tensão pelo risco de perder o que já foi conquistado — afirmou o sociólogo Santiago Canevaro, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas e professor da Universidade de San Martín.
Bloco em crise:
Ele acredita que a Argentina deverá sair gradualmente da quarentena, porque o governo já deixou claro que não permitirá que a curva de contágios dispare. A essência do peronismo original e sua preocupação pelos mais pobres, destacou Canevaro, está mais forte do que nunca.
— O problema é que o tempo passa e as pessoas estão começando a ficar nervosas, embora o governo tenha adotado medidas para evitar uma deterioração da economia — alertou o sociólogo.
Rebelião tributária
Nas redes sociais, principalmente WhatsApp, circulam vídeos que pregam uma rebelião tributária. Pequenos e médios comerciantes defendem a suspensão de todos os pagamentos fiscais, como única alternativa para não falir. Empresas estão suspendendo trabalhadores e cortando salários. Inquilinos estão deixando de pagar ou exigindo reduções drásticas. E, assim, todo o capital político acumulado por Fernández começa a correr o risco de ser derrubado pelo colapso da economia.
— A grande pergunta que todos os analistas nos fazemos é como Fernández será avaliado quando tudo isso terminar. A questão econômica vai aparecer na agenda, a economia precisará começar a ser reativada. Não sabemos se as pessoas entenderão isso como uma consequência lógica da pandemia, ou se culparão o governo — opinou Diego Reynoso, da Universidade de San Andrés.
No país famoso pela tradição psicanalista, o ambiente nos consultórios é de angústia e preocupação, contou a psicóloga Adriana Guraied. Nas primeiras semanas da quarentena, disse ela, os pacientes apoiaram, entenderem e conseguiram se adaptar à situação. Nas últimas, os sintomas de ansiedade e depressão aumentaram de forma expressiva.
Coronavírus:
Seu colega Miguel Espeche avalia que “sair deste tipo de quarentena requer medidas muito rígidas” e que o estresse acumulado é muito grande.
— Começamos a falar em economia, e economia também é saúde. Trata-se de nossa forma de vida, de nossa sobrevivência. Muitas pessoas temem perder a vida que tinham, é importante que esta saída seja bem planejada — frisou.
Ele vê a Argentina como “um animal selvagem que foi enjaulado e agora precisa ser solto”.
— Isso é muito complicado, porque o vírus está entre nós e continuará aqui até que exista uma vacina — acrescentou Espeche.
Libertação de detentos
Uma das últimas medidas do governo que causou polêmica foi a liberação de presos por motivos sanitários, incluindo a concessão de prisão domiciliar para militares condenados por crimes da última ditadura (1976-1983). Foram organizadas campanhas de coleta de assinaturas digitais para exigir a revogação da iniciativa, mas a resposta do presidente, ainda sustentado por um alto índice de popularidade, foi enfática:
— A Argentina, como o mundo todo, enfrenta uma pandemia de enormes proporções. O risco de contágio se potencializa em lugares de muita concentração humana, o que torna as prisões âmbitos propícios para a expansão da doença.
Assim como recusou-se a baixar os salários de funcionários e políticos, Fernández se manteve firme em sua posição, enquanto avalia junto a uma equipe de epidemiologistas como fazer a tão promovida “saída organizada” da quarentena.

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