'Estamos sobrecarregados com o número de deportações dos EUA', diz chefe da Organização para as Migrações no Haiti

'Estamos sobrecarregados com o número de deportações dos EUA', diz chefe da Organização para as Migrações no Haiti

18:02 - Segundo Giuseppe Loprete, México e Bahamas também devem em breve retornar cidadãos haitianos; situação local é tão crítica que a primeira ideia dos deportados é deixar o país o mais rápido possível

Os Estados Unidos deportaram para o Haiti mais de 4,3 mil pessoas nas últimas semanas, entre elas 30 crianças brasileiras, filhas de pais haitianos. Em entrevista ao GLOBO, Giuseppe Loprete, chefe da missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) em Porto Príncipe, relatou que a situação é dramática no país mais pobre do Hemisfério Ocidental: o volume das deportações é tão grande que há dificuldade para atender a todos e compilar os dados necessários.

E a tendência é que o ritmo não diminua. Diante da conduta do governo americano, muitos haitianos cruzaram a fronteira de volta para o México, que agora também planeja voos de deportação. As Bahamas, no trajeto daqueles que tentam chegar em território americano pelo mar, devem seguir passos parecidos, retornando os haitianos para um Estado mergulhado em uma profunda crise política, social e de segurança.

Alguma das famílias com crianças brasileiras manifestou interesse em retornar para o Brasil?

Nós estamos em contato com elas, e fazendo as ligações de acompanhamento relacionadas ao nosso trabalho de assistência e ao auxílio financeiro para quem é deportado (cerca de US$ 50 pagos em dinheiro vivo e outros US$ 50 transferidos posteriormente por telefone). Quando vamos fazer as transferências, fazemos também um pefil para entender melhor o que aconteceu, de qual país vieram, qual foi seu itinerário. Com essas famílias em particular, fazemos exatamente essa pergunta (sobre o interesse de retorno ao Brasil). Estamos, contudo, sobrecarregados com o número de voos por dia e com o volume de informação que precisamos coletar. É um grande desafio.

Os voos continuam a aterrissar no mesmo ritmo?

Ontem chegaram seis voos de deportação, hoje esperamos outros seis. Temos informações de autoridades regionais de que o México também pretende enviar voos e, em algum momento, esperamos também aeronaves vindas das Bahamas porque sabemos que há muitos haitianos que tentam chegar aos EUA de barco, e há muitas chegadas registradas por lá diante da falta de oportunidades no Haiti. A primeira ideia das pessoas é não ficar aqui, mas sair assim que possível. Não apenas quem está sendo deportado, mas também parte da população que permaceneu no país.

O que ocorre a partir do momento em que eles desembarcam?

Quando chegam no aeroporto, eles recebem o auxílio financeiro, kits de higiene e apoio médico e psicológico. Quando esse processo chega ao fim, eles vão embora. Geralmente são acompanhados até uma estação de ônibus nas redondezas ou deixam o aeroporto por conta própria. É também por isso que damos a assistência em dinheiro, para que consigam se virar ao menos por alguns dias. Quando os voos chegam de madrugada ou o processamento vara a noite, nós os acomodamos em hotéis e terminamos no dia seguinte. A região em que o aeroporto está localizada não é segura, e precisamos nos preocupar não apenas com a nossa segurança, mas também com a deles.

E qual é o estado dessas pessoas quando são deportadas?

O que mais chama atenção é a frustração nos primeiros 10, 15 minutos depois do desembarque. É muito tenso, muito dramático. No domingo, em um dos voos que recebi, havia jovens chorando de frustração. Esse é o dano real, eu diria, e é por isso que nós insistimos tanto no apoio psicológico na chegada. Se eles têm alguma necessidade de assistência médica, a Cruz Vermelha também está presente no aeroporto. Há médicos em solo e, se necessário, os encaminhamos para hospitais e cobrimos as despesas, o que já aconteceu algumas vezes.

E estas pessoas, em sua maioria, deixaram o Haiti nos anos após o terremoto de 2010, correto?

De modo geral, estavam há três, quatro, cinco anos fora do país. Alguns há até mais tempo. Passaram muitos anos no Brasil, no Chile, na Colômbia, na Venezuela. Perguntei a vários deles o porquê de irem para Del Río [cidade no Texas que é o ponto de travessia mais comum] agora, porque não antes ou depois. A resposta é geralmente que tem notícias de pessoas que conseguiram fazer a travessia e passam a mensagem de que é possível. As redes de contato que desenvolveram nos países em que estavam anteriormente são muito fortes. Muitas dessas pessoas não sabiam da dificuldade que é a travessia em certas regiões, no Tampão de Darién [no Panamá] em algumas fronteiras. Eles não têm ideia, mas vão mesmo assim.

E há dados sobre quantos deles migraram internamente por países latino-americanos antes de tentar chegar aos EUA?

Essa é uma das informações que nós coletamos na hora do desembarque. Recentemente, vários países alteraram suas políticas de imigração para imigrantes haitianos. A Guiana, por exemplo, antes dava vistos no desembarque, hoje não é mais possível. As pessoas desembarcavam em lugares assim, cruzavam várias cidades e eventualmente chegavam ao Brasil ou ao Chile, onde passaram alguns anos. Por mudanças de legislação, crises econômicas e outros fatores externos, agora tentam chegar aos EUA.

Há neste momento necessidade de maior ajuda humanitária no Haiti?

Há muitas crises ao mesmo tempo, olhando apenas pela perspectiva humanitária. Além da instabilidade política e da pandemia — menos de 1% da população recebeu ao menos uma dose da vacina anti-Covid até agora —, houve o terremoto há seis semanas [que deixou mais de 2,2 mil mortos]. Há pessoas deslocadas internamente pela violência de gangues e, agora, essas deportações de mais de 4,3 mil pessoas. Cada uma dessas crises, por si só, seria desafiadora para qualquer país, mas aqui elas ocorrem simultaneamente. Então sim, claro, precisamos de mais ajuda.

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