Escolhido para substituir Ernesto no Itamaraty, Carlos França é tido como conciliador, mas pouco experiente

Escolhido para substituir Ernesto no Itamaraty, Carlos França é tido como conciliador, mas pouco experiente

Diplomata, que nunca chefiou embaixada, não tem perfil 'ideológico', mas possível influência de Eduardo Bolsonaro, 'padrinho' de sua indicação, preocupa

Aos 57 anos, o embaixador Carlos França, ex-chefe do Cerimonial do Planalto, foi o escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para novo ministro das Relações Exteriores. França, que hoje é assessor direto do presidente, foi, assim como Ernesto Araújo –que pediu demissão nesta segunda-feira–, uma indicação de Eduardo Bolsonaro.

Apesar de ter sido promovido a embaixador por merecimento, o diplomata nunca assumiu uma embaixada. A falta de experiência é apontada por colegas como um possível obstáculo – e uma fragilidade, diante da influência do filho do presidente nessa área.

França, no entanto, foi o preferido entre os congressistas, e surgiu como alternativa a Luis Fernando Serra, embaixador do Brasil em Paris, cuja indicação enfrentou resistência interna e externa., por ser um “bolsonarista linha dura” e ser chamado, por alguns colegas, de "viúva do regime militar". Fontes do Itamaraty afirmaram que França foi entre os nomes da casa considerados por Bolsonaro, “a opção menos ruim” e mais afeita à tradição da pasta.

Diplomatas que conhecem o embaixador asseguram que ele é “uma pessoa conciliadora, com bom trânsito no Congresso”. Alguns esperam, portanto, uma recomposição rápida do vínculo entre o Ministério das Relações Exteriores e o Legislativo.

O novo chanceler nasceu em Goiânia e é formado em Direito e Relações Internacionais. Fez carreira nas áreas de administração, cerimonial e chefia de gabinetes no Itamaraty. É visto pelos colegas como muito competente, pragmático e de perfil executivo. Mas precisaria de uma equipe de apoio robusta para temas substantivos de política externa.

O fato de ser relativamente jovem e discreto, e de nunca ter chefiado uma embaixada gera comparações com o perfil de Ernesto, que por não ter "peso" na carreira poderia ser mais facilmente pressionado por Bolsonaro, seus filhos e a "ala ideológica" do governo. França não é do grupo olavista, mas ganhou a confiança do presidente por sua eficiência e lealdade.

— Ele é afável e jeitoso, não gosta de brigas, tem estilo mais "low profile". Certamente não é um formulador, mas deve ter conquistado Bolsonaro lá na Presidência. Não é uma pessoa que tenha arestas e inimigos dentro do MRE, mas é uma incógnita quanto a ideias — afirmou um diplomata da ativa no exterior — que, como os demais ouvidos, falou sob anonimato devido à hierarquia rígida do Itamaraty e ao temor de represálias.

Segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, a indicação de França, assim como de Ernesto, tem forte influência do deputado Eduardo Bolsonaro, a quem conheceu trabalhando para a Presidência. A expectativa é de que o novo chanceler, portanto, continue muito próximo do deputado, que é, para muitos, o chanceler nas sombras do governo de seu pai.

Para outra fonte do meio diplomático, em circunstâncias normais, seria melhor algum político de envergadura ou um diplomata de competência reconhecida, que já tivesse experiência de grandes postos no exterior.

A proximidade de Eduardo Bolsonaro é apontada também por Roberto Abdenur, que foi embaixador do Brasil em Washington entre 2004 e 2006, como um ponto de atenção.

— Ouço de colegas que o conhecem é que é boa pessoa, moderada, equilibrada. Mas claro está que não é nenhum expoente do Itamaraty. O ruim é que é próximo de Eduardo Bolsonaro, que é padrinho de sua nomeação. Ficará, portanto, como Ernesto, sob as asas de Eduardo, que é um dos mais ardorosos militantes da extrema direita brasileira —disse Abdenur.

Para o embaixador aposentado, é preciso observar como o novo chanceler, com essa proximidade a Eduardo, vai se portar com o governo de Joe Biden. — Eduardo atua como elemento de ligação com a extrema direita americana, trumpista, da qual a nossa é uma espécie de subsidiária. Isso é algo a ser acompanhado com atenção, pois pode pegar muito mal junto ao governo Biden e aos democratas em geral.

Um diplomata da ativa, que se identifica ideologicamente mais à esquerda, disse que a “tendência é mudar a forma, suavizar o discurso”.

— Mas o conteúdo não deve mudar tanto assim, porque o governo é o mesmo — afirmou.

Reta final de Ernesto
Os últimos dias foram de extrema pressão política pela saída de Ernesto Araújo do Itamaraty. O chanceler estava na mira dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira, que tinham realizado reuniões recentes com o embaixador da China no Brasil e outros representantes do governo chinês, tentando encontrar maneiras de comprar mais doses de vacinas contra a Covid-19. Eles ouviram dos chineses que, com Ernesto no Itamaraty, não tinha conversa. Começou, então, a pressão sobre Bolsonaro para a mudança no comando da pasta.

Publicamente, Ernesto foi pressionado em audiências na Câmara e no Senado, na última quarta-feira, com pedidos de parlamentares para que ele deixasse o cargo. As críticas se concentraram especialmente sobre sua atuação equivocada na estratégia de conseguir vacinas de outros países. Mas ele também foi cobrado por ter viajado a Israel em busca de um remédio cuja eficácia não é comprovada, pelos problemas que teve com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, e pela demora de Bolsonaro em reconhecer Joe Biden como presidente dos Estados Unidos.

Uma das vozes mais proeminentes contra o ministro foi a da presidente da Comissão de relações Externas do Senado, Kátia Abreu, que há uma semana, havia finalizado uma Moção de Apelo à Comunidade Internacional pedindo 100 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 para o Brasil. Em artigo no domingo no GLOBO, a senadora abordou a necessidade de apoio internacional para conseguir lidar com a pandemia e afirmou que o Itamaraty tinha uma "arrogância subalterna" sob Ernesto.

No domingo, o então chanceler partiu para cima da senadora, sugerindo, em publicação nas suas redes sociais, que a pressão do Congresso para sua demissão não teria ligação com questões diplomáticas em torno da obtenção de vacinas contra a Covid-19, mas sim com o debate sobre o banimento ou não da empresa chinesa Huawei da implantação da tecnologia 5G no Brasil.

"Em 4/3 recebi a Senadora Kátia Abreu para almoçar no MRE. Conversa cortês. Pouco ou nada falou de vacinas. No final, à mesa, disse: “Ministro, se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será o rei do Senado.” Não fiz gesto algum. Desconsiderei a sugestão inclusive porque o tema 5G depende do Ministério das Comunicações e do próprio Presidente da República, a quem compete a decisão última na matéria", publicou Ernesto.

O tuíte gerou forte reação de senadores, e ainda mais pressão pela saída do chanceler, que se deu um dia depois.

Jussara Soares, Eliane Oliveira, Henrique Gomes Batista e Janaína Figueiredo

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