Escândalo de violação da quarentena fere reputação do presidente argentino, dizem analistas

Escândalo de violação da quarentena fere reputação do presidente argentino, dizem analistas

Foto de primeira-dama em jantar de aniversário em julho de 2020, quando um decreto proibia esse tipo de reunião, afeta campanha do governo para as eleições legislativas de novembro

Especialistas em marketing costumam dizer que a reputação de uma empresa é fundamental para vender qualquer produto. O conceito vale também para a política e foi usado por analistas argentinos para explicar o inferno astral em que está mergulhado o presidente do país, Alberto Fernández, faltando três meses para as eleições legislativas de novembro, teste crucial para o governo. O chefe de Estado, afirmaram especialistas ouvidos pelo GLOBO, vive uma crise de reputação de difícil recuperação e que certamente terá impacto nas urnas.

Nos primeiros meses de pandemia, quando a Argentina era mencionada como exemplo no mundo por sua rígida quarentena, o presidente dizia, em cadeia nacional de rádio e TV, que "quem não puder explicar o que está fazendo na rua deverá submeter-se às sanções previstas pelo Código Penal, seremos inflexíveis". Na época, quase 70% dos argentinos aprovavam sua gestão, até mesmo eleitores da oposição.

Hoje, Fernández e seu governo, que segundo pesquisa realizada pela Universidade San Andrés são desaprovados por 72% dos argentinos, tentam explicar por que a primeira dama, Fabiola Yáñez, realizou um jantar de aniversário em meados do ano passado, quando vigoravam rígidas medidas de distanciamento social. O escândalo desencadeado pela foto do evento, que vazou semana passada, foi parar nos tribunais de Buenos Aires, onde a primeira dama e vários de seus convidados foram convocados para prestar depoimento.

Era o que faltava para um presidente que não conseguiu tirar o país da crise econômica em que está mergulhado há anos, já tem quase 110 mil mortos vítimas da Covid-19 e cerca de 50% da população vivendo abaixo da linha da pobreza. A imagem de Fernández não poderia estar mais desgastada e a insatisfação social cresce a passos acelerados, inclusive entre os que o votaram nas presidenciais de 2019.

— Muitos dos eleitores de Fernández não gostam da oposição, mas são muito críticos do presidente. A foto da festa de aniversário da primeira-dama teve enorme impacto negativo no centro, onde o governo precisa captar fotos para as legislativas — explica Diego Reynoso, professor da Universidade de San Andrés e coordenador da pesquisa bimestral sobre satisfação política e opinião publica, realizada pela instituição.

Para ele, "foi afetada a credibilidade de Fernández".

— Uma coisa é dizer que o presidente administrou mal a pandemia ou não resolveu os problemas econômicos. Outra, bem diferente, é chamá-lo de mentiroso. Sua reputação está em crise — frisa o analista.

A oposição — que também enfrenta tensões internas — está tentando capitalizar o escândalo da foto. Na última segunda-feira, foi realizada a "Marcha das Pedras", em frente à Casa Rosada e à residência oficial de Olivos. Manifestantes levaram pedras nas quais escreveram nomes de vítimas da pandemia para expressar seu repúdio às ações do presidente e da primeira-dama. O ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019) assegurou que seu sucessor perdeu credibilidade, e outros dirigentes da oposição chegaram a falar em eventual pedido de impeachment de Fernández.

A resposta do presidente foi enérgica e refletiu seu nervosismo com a crise:

— Se alguém pensa que vão me derrubar por um erro que cometi (num primeiro momento, Fernández disse que a festa tinha sido iniciativa da primeira-dama) saibam que estão fortalecidas minhas convicções e meu compromisso com vocês (argentinos).

Fernández está preocupado e submetido a pressões e críticas internas. Em momentos em que o governo está em campanha para uma eleição na qual serão renovadas 50 cadeiras da aliança governista Frente de Todos e 60 da oposição na Câmara (de um total de 257), escândalos podem custar caro.

Como de costume, a vice-presidente Cristina Kirchner evita aparecer em momentos de tsunami política, mas sabe-se em Buenos Aires que a ex-presidente está furiosa e preocupada. Todo o gabinete de Fernández está tenso, diante da possibilidade de obter um resultado adverso nas legislativas, que complicaria ainda mais a segunda metade do mandato presidencial. A figura do presidente está desgastada dentro e fora da Casa Rosada.

A crise, alerta Andrés Malamud, argentino que trabalha como pesquisador do Instituto de Ciência Sociais da Universidade de Lisboa, "vai além de Fernández e do governo".

— Quando a sociedade se cansa, se cansa de todos. Hoje existe uma crise da política, que está gerando o surgimento, ainda minoritário, de candidatos de fora da política — opina Malamud.

O pesquisador não descarta que, num futuro não muito distante, a Argentina volte a viver uma campanha a favor de que "saiam todos", como aconteceu em dezembro de 2001, após a renúncia antecipada do então presidente Fernando de la Rúa (1999-2001).

— Na última eleição que tivemos local, na província de Salta, 12% dos eleitores votaram em branco. É preciso estar atentos — frisa Malamud.

Desde 1983, com o retorno da democracia, a participação eleitoral tem sofrido leves quedas na Argentina, mas continua acima de 70%. Uma das incógnitas do momento é saber se nas legislativas de novembro o percentual será menor e, em contrapartida, crescerá o voto em branco.

Na visão do analista Carlos Fara, diretor da Fara e Associados, o voto em branco poderia aumentar e a participação ser um pouco mais baixa, mas tudo indica que a aliança entre kirchneristas e peronistas ainda está na frente. A Frente de Todos perdeu votos desde 2019 mas, de acordo com Fara, não sofrerá uma catástrofe nas legislativas.

— Este cenário não tem nada a ver com 2001, hoje vivemos uma crise global e as pessoas entendem isso. Existe cansaço, mas ainda não vejo uma rejeição à política — afirma Fara.

Enquanto discutem o que fazer com o governo — as pressões por uma mudança de gabinete são grandes — Fernández e seus aliados tentam apagar todos os incêndios. As pedras deixadas por familiares de vítimas da pandemia foram recolhidas e foi feita a promessa de construir um memorial em homenagem aos falecidos. Mas os ânimos não foram acalmados e a previsão é de que novas marchas sejam realizadas nas próximas semanas. Até mesmo o sindicato dos caminhoneiros, até agora aliado ao governo peronista, está arregaçando as mangas e anunciando possíveis protestos. O inferno astral de Fernández parece longe de terminar.

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