´Ernesto está enganado, Amazônia é problema que afeta todo planeta´

´Ernesto está enganado, Amazônia é problema que afeta todo planeta´

Professor cujo texto foi usado como prova de interesse internacional na floresta contraria leitura de chanceler

No momento em que lideres questionam a atuação de organismos internacionais, a ONU tem limitações, mas ainda dispõe de mecanismos paraenfrentarproblemas globais, diz Stephen Walt, da Universidade Harvard. `Se as Nações Unidas não existissem, os problemas globais seriam ainda mais sérios e algo como a ONU precisaria ser reinventado`, afirma.

O professor ganhou notoriedade no Brasil após escrever um artigo cujo título inicial se referia a uma possível intervenção estrangeira na Amazônia. O texto foi usado pelo chanceler Ernesto Araújo como prova de que há atores internacionais interessados em atacar a soberania brasileira. Walt, porém, diz que Ernesto está enganado. `A preocupação global com o futuro da Amazônia não é uma ´desculpa´, é um problema válido que afeta países vizinhos e possivelmente todo o planeta.`

- Seu artigo `Quem vai invadir o Brasil para salvar a Ama zônia?` publicado em agosto, foi usado por Ernesto como exemplo para a tese do governo brasileiro de que a Amazônia serve como desculpa para outros países limitarem a soberania do Brasil. O sr. concorda?

- O ministro está enganado. A preocupação global com o futuro da Amazônia não é uma ´desculpa´, é um problema válido que afeta países vizinhos e possivelmente todo o planeta.

Idealmente esse desafio será enfrentado sem infringir a soberania de qualquer país. E, como deixei claro no artigo, o Brasil não é o único pais que deveria estar fazendo mais.

- O título do artigo foi modificado para `Quem vai salvar a Amazônia (e como)?`. O sr. solicitou a mudança?

- Sim, porque o título original causava confusão e freqüentemente havia mal entendidos de pessoas que não leram o artigo inteiro. Disse explicitamente que não recomendava ação militar `agora ou no futuro`, mas o título original parecia sugerir o contrário.

- O sr. considera que o aumento em que imadas e desmatamento justifica sanções contra o Brasil num momento de crise do multilateralismo?

- Acredito que as mudanças climáticas representam o problema mais sério para o bem estar da humanidade que enfrentamos no presente.

Se as nações não desenvolverem soluções cooperativas para resolvê-lo, as conseqüências serão mais severas e o risco de um conflito vai subir. É, portanto, de interesse do Brasil e de EUA, China, índia, Rússia e muitos outros buscar soluções efetivas agora, para evitar problemas muito maiores no futuro.

- Jair Bolsonaro e Donald Trump defendem os interesses nacionais acima do multilateralismo. O sr. considera isso uma tendência?

- Sim, mas ela se baseia em um mal entendido fundamental sobre o que é multilateralismo. Os países não necessariamente abandonam interesses nacionais próprios quando cooperam em instituições muitilaterais. Ao contrário, essas instituições são, em alguns casos, uma maneira melhor de se alcançar esses interesses.

- O sr. acredita que o multilateralismo e a ordem internacional liberal estabelecida após a 2da Guerra estão em crise? Qual modelo poderia substitui-la?

- Não acho que haja crise genuína ainda. É verdade que o esforço dos EUA para tentar transformar a ordem liberal parcial criada durante a Guerra Fria numa ordem verdadeiramente global foi um fracasso e causou danos consideráveis em alguns lugares.

Também há tendências preocupantes em alguns países. Mas a maioria das sociedades liberais do mundo ainda quer apoiar as idéias básicas liberais de direitos individuais, democracia, império da lei e economia de mercado, e líderes liberais estão enfrentando um poderoso efeito rebote em muitos lugares.

- O sr. escreveu artigo dizendo que não apoiaria um manifesto intitulado `Por que deveríamos preservar instituições e a ordem internacional?` Por que?

- Se você ler minha resposta com atenção, eu não estava criticando nem o papel das instituições nem o conceito de ordem. Estava questionando os termos específicos do manifesto.

- Por que o sr. escreveu que o bipolarismo e as armas nucleares fizeram mais para prevenir uma guerra do que instituições como a ONU e a Otan?

- Apesar de instituições internacionais serem úteis para muitos propósitos, não são capazes de impedir Estados poderosos de agir por si mesmos se acharem que é necessário, e isso incluiou so da força.

Mas o bipolarismo e as armas nucleares encorajaram tanto os EUA quanto a União Soviética a agirem cuidadosamente um como outro e a manterem os aliados sob controle. Isso contribuiu para a paz durante a Guerra Fria.

- Qual a relevância da Assembléia Geral da ONU em um cenário de rejeição ao multilateralismo?

- As Nações Unidas têm muitas limitações, mas ainda são um foro valioso no qual os países podem levantar questões e buscar soluções cooperativas. Se ela não existisse, os problemas globais seriam ainda mais sérios e algo como a ONU precisaria ser reinventado.

- O sr. acha que alguma resolução significativa sairá em questões como as crises na Amazônia e na Venezuela?

- Não. Os problemas são grandes e complexos demais para serem resolvidos em uma única sessão.

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