Enviado de Biden oferece parcerias ao Brasil no clima e reforça mensagem sobre preservação da democracia

Enviado de Biden oferece parcerias ao Brasil no clima e reforça mensagem sobre preservação da democracia

05/08 Como previsto, conselheiro de Segurança Nacional opta pelo pragramatismo ao lidar com Bolsonaro e promete manter apoio à candidatura do país à OCDE; institucionalidade brasileira preocupa autoridades americanas

A visita a Brasília de uma equipe da Casa Branca chefiada pelo conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, inaugurou uma agenda positiva entre os Estados Unidos e o Brasil nesta quinta-feira, após mais de seis meses de incertezas. Havia um temor de como ficaria a relação bilateral desde a posse do presidente Joe Biden, que derrotou o republicano Donald Trump, que tentava a reeleição e por quem o presidente Jair Bolsonaro torceu abertamente. O aceno a diversas parcerias, inclusive de forma inédita com governadores, foi a tônica dos encontros entre as autoridades. Mas houve espaço também para a defesa da democracia, em um momento em que autoridades americanas demonstram, reservadamente, preocupações com os ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro.

Preocupado com o avanço da China na região, o enviado de Biden trouxe na bagagem o delicado tema do leilão da nova tecnologia 5G de telefonia móvel. Reiterou também o apoio dos EUA à candidatura brasileira à OCDE, o chamado "clube dos ricos", e acenou com parcerias em meio ambiente não apenas com o governo federal, mas também com governadores, o que é uma novidade na relação bilateral.

Num recado sutil, porém enfático, o encarregado de Negócios da Embaixada dos EUA em Brasília, Douglas Koneff, escreveu no Twitter que “tivemos uma ótima conversa com o ministro de Estado chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República @gen_heleno, na qual pudemos reforçar interesses mútuos para fortalecer nossas democracias como duas das maiores das Américas”. A preocupação com a fortaleza da democracia esteve presente, sem cobranças diretas ao governo brasileiro, mas como ponto forte da agenda bilateral.

Já o conselheiro de Segurança Nacional falou sobre a a "profunda amizade" entre o Brasil e os EUA e destacou pontos de interesse comum.

— O Brasil é importante. Como as duas maiores democracias do Hemisfério, o Brasil e os EUA têm interesse no sucesso mútuo. Juntos podemos avançar em metas climáticas ambiciosas, combater com sucesso a pandemia da Covid-19 e reconstruir a economia na região — afirmou Sullivan.

Sullivan e sua equipe mantiveram reuniões com o presidente Jair Bolsonaro, ministros de Estado e os governadores do Pará (Helder Barbalho), de Rondônia (Marcos Rocha), Amapá (Waldez Goes) e Amazonas (Wilson Lima). Com os chefes dos Executivos estaduais, os americanos queriam conferir se as promessas feitas por Bolsonaro durante a cúpula sobre o clima são compromissos reais. Em abril deste ano, o presidente brasileiro anunciou que iria dobrar o Orçamento para os órgãos de defesa do meio ambiente, antecipar em dez anos, para 2050, a neutralização das emissões de gases de efeito estufa e acabar com o desmatamento ilegal até 2030.

O conselheiro de Segurança Nacional dos EUA perguntou aos governadores quais as ações prioritárias na áreas. Disse que levaria ao presidente Joe Biden o retrato da realidade da região para o governo americano traçar um plano de ação.

— Foi uma reunião longa, em que o conselheiro fez questão de ouvir e demonstrar toda intenção de levar ao presidente Biden o retrato da realidade dos estados e, consequentemente, buscar fazer o dever de casa daquilo que o governo americano possa, seja diretamente, seja articulando com empresas americanas, fomentar, financiar, potencializar as ações que estão sendo planejadas por nós — disse o govenador do Pará, Helder Barbalho.

Leilão do 5G
Os EUA querem que a China fique de fora do leilão para a instalação da rede de telefonia 5G. A missão chefiada por Sullivan conversou sobre o tema com autoridades brasileiras, entre as quais os ministros Fábio Faria, das Comunicações, e Augusto Heleno.

Após o encontro com os americanos, Faria confirmou, em uma rede social, que o assunto foi tratado. A previsão é de que o leilão ocorra este ano, segundo informou a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) ao TCU (Tribunal de Contas da União), que se pronunciará sobre o edital no dia 18. O documento não exclui a gigante das telecomunicações Huawei da rede comercial, mas cria uma rede separada para o governo, da qual a empresa não participaria, segundo já disse Faria.

Segundo relatos de diplomatas que participaram de um almoço com Sullivan no Itamaraty, o enviado de Biden disse que os EUA entendem os problemas internos que dificultam o combate ao desmatamento. Além disso, afirmou que seu país está disposto a trabalhar com o Brasil nas negociações que precedem a COP-26, conferência que ocorrerá no Reino Unido, em novembro, para tratar do aquecimento global.

No almoço que teve o chanceler Carlos França como anfitrião, um tema de destaque foi a situação política na América Latina e no Caribe. Os representantes dos dois países falaram não apenas sobre Cuba, Venezuela e Nicarágua, mas de cada um dos vizinhos da região e defenderam a necessidade de preservar e proteger a democracia no Hemisfério. A atual conjuntura na região também foi discutida na reunião, pela manhã, com Augusto Heleno e o ministro da Defesa, Braga Netto, ambos generais do Exército.

A participação do Brasil como membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU, a partir de 2022, e as medidas que vão garantir o suprimento interno na produção de vacinas também entraram em pauta.

— Foi uma conversa muito positiva, em um ambiente de grande cordialidade e convergência —disse Pedro Miguel da Costa e Silva, secretário de Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas do Itamaraty.

Valores democráticos
Embora não tenha contaminado uma agenda predominantemente positiva e pragmática, a missão da Casa Branca chegou ao Brasil com uma preocupação que tem sido comentada informalmente nas últimas semanas em círculos políticos e empresariais americanos sobre a crescente tensão entre Executivo e Judiciário, em consequência dos ataques do presidente Bolsonaro à urna eletrônica.

Com o precedente das denúncias de fraude feitas por Trump — que questionou durante toda a apuração o sistema de voto pelo correio —, o governo americano, confirmaram fontes que participaram de algumas das conversas, "observa com atenção a evolução da situação no Brasil". Existe, frisou uma delas, temor de que a disputa entre Bolsonaro e o Judiciário leve a cenários de risco para a democracia brasileira.

Antes de aposentar-se e deixar Brasília recentemente, o ex-embaixador americano Todd Chapman defendeu, em reiteradas oportunidades, a democracia brasileira. Em sua carta de despedida, Chapman afirma que "se o coração do Brasil é seu povo, a força é sua democracia". Segundo fontes que acompanharam suas últimas semanas no país, o ex-embaixador conversou sobre a tensão causada pelos questionamentos de Bolsonaro à urna eletrônica com alguns interlocutores.

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