Entrevista: 'O governo perdeu o timing nas indicações para a CPI', afirma Flávio Bolsonaro

Entrevista: 'O governo perdeu o timing nas indicações para a CPI', afirma Flávio Bolsonaro

Senador também confirmou ao GLOBO que as tratativas para um retorno do pai ao PSL foram praticamente inviabilizadas e citou conversas com três partidos

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) avalia que o governo “perdeu o timing” para indicar membros da CPI da Covid no Senado. Em entrevista ao GLOBO, o parlamentar afirmou que faltou articulação para que fossem escolhidos nomes “mais isentos”, mas disse que o Palácio do Planalto ainda tem esperança de “virar o jogo”, seja por decisão judicial ou pela desistência de nomes já indicados. A comissão deverá ser instalada na terça-feira.

Na avaliação de Flávio, nem Renan Calheiros (MDB-AL) nem Jader Barbalho (MDB-PA), críticos do governo, poderiam integrar a CPI, pelo fato de seus filhos governarem respectivamente Alagoas e Pará. Para defender sua tese, argumenta que estados também poderão ser investigados pela comissão e que faltaria isenção por parte dos dois emedebistas. O senador confirmou, ainda, que esfriou a tratativa para a volta de Bolsonaro ao PSL e revelou conversas com outros três partidos para a filiação do núcleo do presidente.

Uma das principais críticas à gestão do governo federal na pandemia é o fato de, no início, ter recusado a oferta para comprar vacinas. Como avalia?

Somos hoje o quinto país que mais vacina, atrás apenas dos que produzem vacina e que, por isso, destinam primeiro suas doses à própria população. Em setembro do ano passado, o governo fez um contrato de R$ 100 milhões de encomenda tecnológica com a AstraZeneca, que tem os direitos de produção e comercialização da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford. Não dá para culpar o governo. A vacina não chega na prateleira e vai para casa. Está o planeta inteiro disputando o produto.

Justamente por isso, o presidente não deveria ter comprado vacinas assim que elas foram oferecidas?

Na ocasião, era um dilema. Tinha que botar dinheiro na frente e não havia sequer comprovação da Anvisa e nem responsabilização pela vacina. O presidente Bolsonaro foi até onde pôde, mas a verdade é que, até hoje, não sabemos os efeitos colaterais. Só vamos saber com o tempo. Essa decisão lá atrás não foi tomada com dolo ou por incapacidade, mas com preocupação com a saúde das pessoas.

Essa questão deverá ser abordada na CPI da Covid. A composição não se mostra favorável ao governo. Prevê muitas dificuldades?

Acredito que o governo perdeu o timing para fazer as indicações de membros para a CPI. Faltou presença nossa na articulação para que fossem escolhidos nomes mais isentos. Tem muita gente contra o governo. A própria entrevista que Renan (Calheiros) deu, antes mesmo de assumir a relatoria, reforça isso. Mas ainda podemos tentar virar o jogo.

De que forma?

Eu mesmo não batalhei para integrar a CPI, porque sou filho do presidente e, óbvio, não teria posição isenta na comissão. É claro que eu iria querer defender o governo. Da mesma forma, Renan e Jader (Barbalho) vão olhar para os estados deles e, caso haja suspeita de irregularidades, como atuariam? Tanto o filho do Renan quanto o do Jader são governadores (de Alagoas e Pará). Isso levanta suspeição, já que a CPI investigará repasse de verba federal a estados e municípios. Avalio que não seria de bom tom a CPI ter a minha presença nem a do Jader e a do Renan.

Na prática, quais são as cartas para tentar mudar a composição da CPI?

A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) entrou com uma ação pedindo a suspeição, e acho que pode haver uma decisão judicial favorável. Outra possibilidade é algum membro desistir voluntariamente de compor a CPI.

O governo está trabalhando para que algum membro desista e seja substituído por um nome mais alinhado com o Planalto?

Não. Isso teria que partir voluntariamente da pessoa. Não dá para contarmos com isso. A possibilidade na qual mais acredito é a via judicial.

A filiação ao PSL era a principal aposta para 2022, mas praticamente foi sepultada essa semana pelo presidente do partido, Luciano Bivar. Como fica agora a questão partidária do presidente Jair Bolsonaro?

A tendência é ir para um partido menor. Temos conversado com o Patriota, por meio do Adilson Barroso; com o PMB, por meio do filho da Sued Haidar (presidente do partido); e com o DC, do Eymael. Mas, independentemente de o presidente não se filiar ao PP nem ao PSL, selamos na terça-feira um compromisso de que tanto PP quanto PSL estarão na coligação do Bolsonaro em 2022.

A ida para um partido menor ocorre por conta da resistência de siglas maiores em ceder o controle diretórios regionais?

Queremos um partido no qual Bolsonaro possa ter minimamente o poder nos diretórios estaduais. Nos grandes, isso é mais difícil. Mas mais importante do que o partido a se filiar é já partirmos de um apoio formal gigante. O apoio do PSL, que tem o maior tempo de propaganda na TV, e o do PP, que tem grande capilaridade, é bem importante. Então mesmo que Bolsonaro se filie ao PMB, que não tem deputado, por exemplo, já começaríamos com uma chapa bem forte. Só com PSL e PP na coligação, já iniciamos com 5 minutos de TV. Fiquei bem feliz com o resultado da reunião de terça. Além disso, temos conversas bem encaminhadas com o PL e com o Republicanos.

Luciano Bivar afirmou ao GLOBO que o partido lançará candidatura própria em 2022 e disse não acreditar que esse nome seja o de Bolsonaro. Falou até em Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), desafetos do presidente. Já dá como certo o acordo com Rueda?

Não fará sentido Bivar trabalhar por candidatura própria à Presidência com tudo o que estamos construindo de alianças. Tanto PP quanto PSL participarão juntos da indicação de nomes para disputar governos estaduais e vagas ao Senado. Se Bivar tiver pretensão de candidatura em Pernambuco (reduto eleitoral do dirigente), por exemplo, vai estar atendido. Minha conversa foi com Rueda, mas Rueda tem carta branca do Bivar para tratar dessas articulações. Bivar sabe que não há mágoa de nada do passado. Em relação ao PP, foi acordado com o próprio Ciro Nogueira, e ele vai confirmar se você perguntar. No Rio, a tendência é Bolsonaro lançar um nome ao Senado e apoiar o governador Cláudio Castro (PSC).

Bivar também condenou a gestão do governo federal no combate à pandemia, afirmando que a crise sanitária foi "muito mal administrada" e que "a ciência não foi seguida à risca, traduzindo-se na quantidade de mortes”...

Bivar tem as percepções dele. Se conhecer mais a fundo as dificuldades da pandemia, os dilemas que tivemos que decidir... quem tiver bom senso, vai saber que é uma situação nova, que ninguém nunca teve que enfrentar antes. É inédito para todo mundo. Erros estão no pacote, mas tenho convicção de que acertamos bem mais do que erramos.

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