Entenda 'corrida do lítio' para movimentar os veículos elétricos

Entenda 'corrida do lítio' para movimentar os veículos elétricos

Custos ambientais de exploração são altos, apesar de marketing da indústria automotiva

NEVADA | THE NEW YORK TIMES
No topo de um vulcão dormente há muito tempo no norte de Nevada, trabalhadores se preparam para explodir e escavar um poço gigante que servirá como a primeira mina de lítio em grande escala nos Estados Unidos em mais de uma década —um novo suprimento de um ingrediente essencial para baterias de carros elétricos e energia renovável.

A mina, construída em terras federais sob leasing, poderá ajudar a enfrentar a dependência quase total dos Estados Unidos de fontes estrangeiras de lítio.

Mas o projeto, conhecido como "Lithium Americas", atraiu protestos de membros de uma comunidade indígena americana, de fazendeiros e de grupos ambientais, porque deverá usar bilhões de litros da água do subsolo, potencialmente contaminando parte dela por 300 anos, enquanto deixará uma montanha de resíduos.

"Explodir uma montanha não é sustentável, não importa quanto marketing as pessoas apliquem nisso", disse Max Wilbert, que vive numa barraca no local proposto para a mina enquanto dois processos legais que tentam bloquear o projeto.

A luta sobre a mina em Nevada (oeste dos EUA) é emblemática de uma tensão que surge no mundo todo: os carros elétricos e a energia renovável talvez não sejam tão verdes quanto parecem. A produção de matérias-primas como lítio, cobalto e níquel, essenciais para essas tecnologias, muitas vezes destrói a terra, a água, a vida silvestre e as populações locais.

Esse preço ambiental é desprezado, em parte por causa da corrida entre Estados Unidos, China, Europa e outras grandes potências. Assim como em disputas por ouro e petróleo, os governos estão lutando pela supremacia sobre minerais que podem ajudar os países a alcançar o predomínio econômico e tecnológico nas próximas décadas.

Desenvolvedores e legisladores veem esse projeto em Nevada, que recebeu a aprovação final nos últimos dias do governo Trump, como parte da oportunidade de os EUA se tornarem o líder na produção de algumas dessas matérias-primas, enquanto o presidente Joe Biden se move agressivamente para combater a mudança climática.

Além de Nevada, empresas propuseram locais de produção de lítio na Califórnia, no Oregon, Tennessee, Arkansas e Carolina do Norte.

Mas a mineração tradicional é um dos negócios mais poluentes que existem e essa realidade não é desconhecida dos fabricantes de automóveis e empresas de energia renovável.

"As novas demandas por energia limpa podem estar criando um mal maior, apesar da intenção de fazer o bem", disse Aimee Boulanger, diretora-executiva da Iniciativa para Garantia de Mineração Responsável, grupo que seleciona minas para empresas como BMW e Ford Motor.

Esse atrito ajuda a explicar o surgimento de uma disputa nos últimos meses nos EUA sobre qual a melhor forma de extrair e produzir grandes quantidades de lítio de maneiras que sejam menos destrutivas do que as aplicadas há décadas.

Só no primeiro trimestre de 2021, mineradoras americanas de lítio como as de Nevada levantaram quase US$ 3,5 bilhões (R$ 18 bilhões) em Wall Street —sete vezes o valor captado nos 36 meses anteriores, segundo dados reunidos pela Bloomberg, e uma amostra do frenesi que se avizinha.

Alguns desses investidores estão apoiando iniciativas que incluem um plano de extrair lítio de água salobra abaixo do maior lago da Califórnia, o Mar de Salton, a cerca de 960 quilômetros ao sul do local da Lithium Americas.

No Mar de Salton, investidores pretendem usar contas especialmente revestidas para extrair lítio do líquido bombeado de um aquífero a mais de 1.200 metros de profundidade.

Empresas também esperam extrair lítio dessa maneiro em Arkansas, Nevada, Dakota do Norte e pelo menos mais um local nos Estados Unidos.

O país precisa encontrar rapidamente novos suprimentos de lítio, conforme a indústria amplia a fabricação de veículos elétricos. O lítio é usado em baterias de carros elétricos porque é leve, pode armazenar muita energia e ser recarregado repetidamente.

Analistas estimam que a demanda por lítio aumentará dez vezes até o fim desta década, conforme a Tesla, Volkswagen, General Motors e outras indústrias lançarem dezenas de modelos elétricos. Outros ingredientes como cobalto são necessários para manter a bateria estável.

Apesar de os EUA terem uma das maiores reservas do mundo, hoje o país possui só uma grande mina de lítio, a Silver Peak, em Nevada, que foi inaugurada nos anos 1960 e produz apenas 5.000 toneladas por ano —menos de 2% da oferta mundial anual.

A maior parte do lítio cru usado no país vem da América Latina ou da Austrália, e é processada e transformada em células de bateria na China e em outros países asiáticos.

"A China acaba de apresentar seu próximo plano quinquenal", disse a secretária de Energia de Biden, Jennifer Granholm, em uma entrevista recente. "Eles querem ser o principal produtor das baterias, mas nós temos esses minérios nos EUA, só não os aproveitamos."

Em março, ela anunciou verbas para aumentar a produção de minerais cruciais. "Esta é uma corrida para o futuro que os EUA vão vencer", disse ela.

Até agora, o governo Biden não se mexeu para ajudar a favorecer opções mais amigas do meio ambiente — como extração de lítio de água salobra em vez de minas a céu aberto.

As mineradoras e empresas relacionadas querem acelerar a produção doméstica e estão pressionando o governo e importantes legisladores para inserir um programa de US$ 10 bilhões (R$ 52,4 bilhões) na lei de infraestrutura de Biden, afirmando que é uma questão de segurança nacional.

Os investidores estão correndo para conseguir autorizações para novas minas e começar a produção para conseguir contratos com fábricas de baterias e montadoras de carros.

Em última instância, autoridades federais e estaduais irão decidir quais dos dois métodos de mineração é aprovado. Muito dependerá de quanto os ambientalistas, povos indígenas e grupos locais conseguirem bloquear os projetos.

POPULAÇÃO LOCAL TEME AVANÇO DA EXPLORAÇÃO DE RECURSOS
Na encosta de um morro, Edward Bartell ou os empregados de sua fazenda saem quase todas as manhãs para garantir que as quase 500 vacas e bezerros que pastam em seus 20 mil hectares no deserto de Nevada tenham o suficiente para comer. É uma rotina há gerações, mas a família nunca enfrentou uma ameaça como a atual.

A alguns quilômetros de sua fazenda, poderá começar em breve o trabalho na mina a céu aberto da Lithium Americas, com helicóptero e heliponto, usina de processamento químico e depósitos de resíduos. A mina alcançará uma profundidade aproximada de 110 metros.

O maior temor de Bartell é que a mina consuma a água que mantém seu gado vivo. A companhia disse que a mina consumirá 12.186 litros por minuto. Isso poderá fazer o lençol de água nas terras de Bartell baixar cerca de 3,6 metros, segundo um consultor da mineradora.

Em sua produção de 66 mil toneladas por ano de carbonato de lítio em grau de bateria, a mina poderá causar contaminação da água no subsolo com metais como antimônio e arsênico, segundo documentos federais.

Uma avaliação do Departamento do Interior em dezembro descobriu que em seus 41 anos de vida a mina degradaria quase 2.000 hectares de campos usados por antílopea e prejudicaria o hábitat da tetraz, ave semelhante à perdiz.

Também destruiria provavelmente uma área de nidificação de águias douradas cujas penas são vitais para as cerimônias religiosas dos indígenas locais.

"É realmente frustrante que esteja sendo anunciado como um projeto amigo do meio ambiente, quando é na verdade um grande local industrial", disse Bartell, que abriu um processo para tentar bloquear a mina.

Na reserva indígena de Fort McDermitt, o projeto já causa brigas entre moradores quando a Lithium Americas ofereceu para contratar membros da comunidade pagando em média US$ 62.675 por ano (R$ 328,4 mil) —o dobro da renda per capita da comunidade.

"Que água vou beber durante 300 anos?", gritou Deland Hinkey, membro da tribo, quando uma autoridade federal chegou à reserva em março para informar os líderes da aldeia sobre o plano de mineração.

A reserva fica a quase 80 quilômetros do local da mina, mas os indígenas temem que a poluição se espalhe.

"É realmente uma situação do tipo Davi contra Golias", disse Maxine Redstar, líder das tribos paiute e shoshone de Fort McDermitt, comentando que houve consultas limitadas à comunidade antes de o Departamento do Interior aprovar o projeto. "As mineradoras são apenas grandes corporações."

Tim Crowley, vice-presidente da Lithium Americas, disse que a companhia vai operar de forma responsável, planejando usar o vapor da queima de enxofre derretido para gerar a eletricidade de que precisa, por exemplo.

A Lithium Americas, que estima que haja US$ 3,9 bilhões (R$ 20,5 bilhões) em lítio recuperável no local, espera começar a minerar no próximo ano. Seu maior acionista é a chinesa Ganfeng Lithium.

As areias do deserto do Mar de Salton já atraíram a atenção internacional antes. Elas serviram como locação para produções de Hollywood como a franquia "Star Wars".

Criado pela enchente do rio Colorado há mais de um século, o lago já foi próspero. Frank Sinatra se apresentava em seus hotéis. Ao longo dos anos, a seca e a má gestão o transformaram em uma fonte de poluentes.

Mas uma nova onda de investidores está promovendo o lago como uma das perspectivas de lítio mais promissoras e amigas do meio ambiente no país.

A extração de lítio é usada há muito tempo no Chile, na Bolívia e na Argentina, onde o sol é usado há quase dois anos para evaporar a água de lagoas extensas. É relativamente barato, mas usa muita água em áreas secas.

A abordagem planejada no Mar de Salton é radicalmente diferente.

Há anos, uma companhia de propriedade da Berkshire Hathaway, chamada CalEnergy, e outra empresa, a Energy Source, usaram o calor geotérmico das mesas para produzir eletricidade. Os sistemas usam o vapor subterrâneo que ocorre naturalmente. A mesma água é carregada de lítio.

Agora a Berkshire Hathaway e outras duas empresas (a Controlled Thermal Resources e a Materials Research) querem instalar equipamento que vai extrair lítio depois que a água passar pelas usinas geotérmicas, em um processo que levará apenas duas horas, aproximadamente.

Rod Colwell, um australiano, passou grande parte da última década vendendo o uso da água salobra para investidores e legisladores. Em fevereiro, uma escavadeira removeu a terra em um local de 2.800 hectares sendo desenvolvido por sua companhia, a Controlled Thermal Resources.

"Este é o melhor lugar", disse Colwell. "Este é o lítio mais sustentável do mundo, feito nos EUA. Quem teria pensado nisso? Temos esta oportunidade enorme."

Os apoiadores dos projetos de lítio também estão trabalhando com grupos locais e esperam oferecer bons empregos na área, que tem um índice de desemprego aproximado de 16%.

"Nossa região é muito rica em recursos naturais e minerais", disse Luis Olmedo, diretor-executivo do Comitê Cívico do Vale, que representa agricultores da área. "No entanto, eles são muito mal distribuídos."

O Estado deu milhões em verbas a empresas de extração de lítio, e o Legislativo está avaliando exigir que as montadoras de carros usem até 2035 fontes da Califórnia para parte do lítio nos veículos que venderem no estado, o maior mercado de carros elétricos do país.

Mas mesmo esses projetos levantaram algumas questões.

As usinas geotérmicas produzem energia sem emissões, mas podem exigir dezenas de bilhões de litros de água anualmente para resfriamento. E a extração de lítio da água salobra draga minérios como ferro e sal que precisam ser removidos antes que seja injetado de volta no solo.

Iniciativas semelhantes anteriores de extração no Mar de Salton falharam. Em 2000, a CalEnergy propôs gastar US$ 200 milhões (R$ 1,05 bilhão) para extrair zinco e ajudar a restaurar o Mar de Salton. A companhia desistiu da ideia em 2004.

Mas várias empresas que trabalham com a técnica de extração direta de lítio, como a Lilac Solutions, da Califórnia, e a Standard Lithium, de Vancouver, no Canadá, estão confiantes que dominaram a tecnologia.

As duas empresas abriram projetos de demonstração usando a tecnologia de água salobra, com a Standard Lithium aproveitando uma fonte de água que já é extraída do solo por uma usina química de Arkansas, o que significa que não vai retirar mais água do solo.

"Esse aspecto verde é incrivelmente importante", disse Robert Mintak, executivo-chefe da Standard Lithium, que espera que a companhia produza 21 mil toneladas por ano de lítio no Arkansas dentro de cinco anos se puder levantar US$ 440 milhões (R$ 2,1 bilhões) em financiamento. "A abordagem Fred Flintstone não é a solução para o desafio do lítio."

Executivos de empresas como a Lithium Americas questionam se essas abordagens mais inovadoras podem produzir todo o lítio de que o mundo precisa.

Mas as montadoras pretendem seguir abordagens que tenham um impacto muito menor no meio ambiente.

"Não queremos contribuir para que tribos indígenas sejam expulsas ou sua água seja envenenada", disse Sue Slaughter, diretora da Ford para sustentabilidade. "Nós queremos garantir que estamos comprando materiais produzidos de maneira responsável."

Ivan Penn - Eric Lipton

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino