Encontro do Mercosul ocorre sob temor de novas variantes do coronavírus

Encontro do Mercosul ocorre sob temor de novas variantes do coronavírus

Agenda de temas econômicos inclui discussão sobre flexibilização da Tarifa Interna Comum e acordos com países fora do bloco

A reunião do Mercosul nesta sexta-feira (25) será marcada, de diferentes maneiras, pelos efeitos da pandemia, tanto no evento como na economia dos países-membro. O encontro, que comemora os 30 anos do bloco, será virtual, apesar de inicialmente ter sido planejado para ser presencial, e também viabilizar um primeiro encontro bilateral entre os presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, anfitrião do evento.

A Argentina exerce a presidência pro-tempore do bloco.

Qualquer comemoração se tornou inviável, no entanto, com a deterioração do cenário sanitário. A reunião acaba ocorrendo no momento em que os países-membro estão tomando novas medidas de restrição para conter a segunda onda do coronavírus, considerada mais complicada pelo surgimento de novas variantes, especialmente daquelas surgidas no Brasil.

O Paraguai, cujo colapso sanitário e a ocupação total dos leitos de UTI foram anunciados no último sábado (20), divulgará novas medidas relacionadas à mobilidade dos cidadãos, como fechamento de comércios e escolas e maior controle do trânsito na fronteira.

O Uruguai também restringiu atividades, interrompeu as aulas e está priorizando a vacinação na região de fronteira com o Brasil, onde há focos de casos.

A Argentina, por sua vez, prepara um pacote de redução drástica de voos internacionais, com foco nas rotas que ligam o país ao Brasil. A projeção é que o trânsito aéreo seja reduzido ao mínimo possível. O presidente Fernández também planeja enviar tropas para vigiar as fronteiras do país.

Neste ambiente pouco comemorativo, porém, alguns temas devem avançar, como a discussão sobre o estatuto de cidadania do Mercosul, ampliando direitos dos habitantes do bloco nos demais países. Também a situação da Bolívia, que ainda não é membro pleno do bloco, será debatida. O país pleiteia ser um membro integral há sete anos, mas o processo tem sido lento e precisa ser aprovado pelos Congressos dos demais países.

A Argentina deseja acelerar a entrada de seu aliado regional, que também seria uma forma de reforçar o setor mais à esquerda do bloco, uma vez que os demais países são governados pela centro-direita e pela direita.

Além dos presidentes dos países fundadores do bloco, Jair Bolsonaro (Brasil), Alberto Fernández (Argentina), Luis Lacalle Pou (Uruguai) e Mario Abdo Benítez (Paraguai), estarão presentes Luis Arce (Bolívia) e Sebastián Piñera (Chile).

O encontro ocorre a partir das 10h e será transmitido a partir da Casa Rosada.

A questão da Venezuela deve dividir posições entre os países, uma vez que a Argentina, na última quarta-feira (24) decidiu sair do Grupo de Lima, o que sinaliza uma suavização ainda maior de sua relação com o regime de Nicolás Maduro e pode causar algum desgaste em seu vínculo bilateral com os EUA.

Também estarão em discussão a redução das TEC (tarifa externa comum) e a flexibilização das regras do Mercosul para possibilitar acordos comerciais com países por fora do bloco. Essa posição é defendida por Brasil, Paraguai e Uruguai, mas enfrenta resistência da Argentina. Existe a expectativa de que as discussões possam avançar, embora a posição argentina seja um obstáculo.

Ainda que as trocas de farpas sejam uma tônica entre Bolsonaro e Fernández, a relação bilateral de Brasil e Argentina tem tido muitos avanços nos últimos meses. Ministros dos dois países realizaram encontros virtuais e reais nas áreas agrícola, de defesa e de energia. O resultado foi a solução de muitos entraves técnicos que obstruíam parte do intercâmbio comercial de produtos agrícolas e avanços no setor de produção conjunta de equipamento militar.

Embora não tenha havido ainda um encontro presencial entre ambos os mandatários, em outros níveis do governo, o diálogo vem avançando. Em janeiro, o secretário de Assuntos Estratégicos do Brasil, o almirante Flavio Viana Rocha, visitou Buenos Aires e teve encontros com altos funcionários do gabinete argentino, inclusive com o presidente Fernández.

A relação áspera dos presidentes pode ser interpretada como saída para manter aberto o diálogo com o eleitorado interno. Bolsonaro, que várias vezes apontou a Argentina como um país "comunista" que estaria "tomando o rumo da Venezuela", tem pouco interesse em sair numa foto cumprimentando Fernández. Prefere referir-se apenas ao país, chamando-o de "querida Argentina". E, para Fernández, que se apoia nos votos mais à esquerda do kirchnerismo, tampouco deseja parecer estar mais próximo a Bolsonaro —algo que custou a seu antecessor, Mauricio Macri, parte da perda de popularidade que colaborou para a derrota nas eleições de 2019.

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