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Em março, Saúde já projetava até 100 mil mortes por Covid-19

Em março, Saúde já projetava até 100 mil mortes por Covid-19

ENTREVISTA - Wanderson Oliveira: Para o ex-secretário do ministério, o total de óbitos poderia ser menor se as medidas de distanciamento social fossem reforçadas

Em março,as primeiras projeções intemasdo Ministério da Saúde já apontavam a possib ilidade de ia o mil mortes pela Covid-19 até setembro, casonão fossem adotadas medidas de prevenção.

A informação ê do ex-secretário de Vigilância da pasta Wanderson Oliveira, 47, um dos responsáveis por formular a estratégia para en frentar a pandemia. Ele en trou no cargo na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e pediu demissão após a saída de Nelson Teich.

Para ele, o número atual de mortes pela doença, que já chega a 60 mil, poderia ser menor caso houvesse maior adesão a medidas de distanciamento social.

Em entrevista à Folha, Oliveira afirma que a epidemia pode estar perto do pico, mas que a população terá de apre nder a conviver com o novo vírus, já que há risco de uma nova onda.

O sr. ajudou a formular a estratégia para o enfrentamento do novo coronavírus. Hoje o país já soma mais de 1 milhão de casos e 6o mil mortes. Imaginava que poderíamos chegar a esses números?

Quando fizemos um dos primeiros modelos de projeção com o pessoal da Opas [Organização Pan-Americanade Saúde], em março, estimamos 100 mil óbitos. Acredito que, se não tivesse sido feito nada, e os modelos são para essa situação, teríamos um cenário ainda mais complicado do que estamos vendo. As medidas empurraram a curva para frente.

Esses 100 mil óbitos seriam em que período?

Seriam em seis meses [até setembro]. Já imaginávamos uma situação delicada, embora os parâmetros vão mudando ao longo do tempo. O que vemos hoje é um cenário muito preocupante e que ainda não está completamente desenhado. Em abril, pedi à minha equipe que cada um fizesse estimativa dequantos óbitos poderíamos ter em i° de julho, baseado na percepção doqueestávamos vivendo. Lembro que coloquei uma estimativa mais otimista [do que temos hoje], de 42 mil [mortes].

A que atribui essa diferença?

Creio que boa parte foi por essas controvérsias que ocorreram. Perdemos um tempo precioso com um debate improdutivo que acabou resultando numa confu são para a população muito grande. E hoje vejo um desgaste muito grande das medidas de distanciamento, que foi muito errático. A partir de 13 de março, a maioria dos municípios começou um distanciamento básico, que era fechamento de escolas. Estávamos começando a construir um distanciamento pelas informações que dispúnhamos 110 momento, mas ao longo desse tempo houve aqueles emb ates de abre e fecha, que voltou para o STF [que decidiu que estados e municípios poderiam adotar ações próprias].

Vemos hoje vários estados flexibilizando o isolamento so dal, mesmocom aumento de casos. Não é cedo? Qual o me lhormomento paraisso ocorrer?

E asa é a pergunta de ouro. Fechar talvezseja mais fácil do que abrir Fechar exige antecipação. Se puder fechar antes de ter caso confirmado, é o idealpara intensificar ações, eisso nós fizemos. Quando euolho para as estratégias que o Brasiladotou, isso em todas as esferas de gestão, diria que o país nem fechou nem abriu, ficou com a porta entreaberta.

O sr. citou essa projeção que fizeram no início da epidemia de 100 mil mortes. Chegaram a avisar ao Manai to?

Foi avisado, tanto que tivemos reunião com a Economia. Em seis meses [o que seria setembro] era quando teria esse volume de óbitosmais largo, de 100 mil. Se considerar um cenário nesse ritmo, náo vejo muito diferença disso, não. Vai ter até mais. Estamos comsS mil mortes [nesta quarta, foram 60 mil] no primeiro semestre. Se mantiver esse padrão, mesmo olhando a curva caindo ao longo do tempo, perto do fim do ano posso ter 110 mil, 120 mil.

Ao longo dos últimos meses fomos ampliando a previsão de testes, chegando a falar em 46milhões. Por que essa previsão não deu certo?
Não temos um parque produtor de testes no Brasil. Temos a Fiocruz, que, por mais que se esforce, usa insumos importados. Entramos em fevereiro e março tentando conseguir insumos.

Estávamos com um plano para obter mais testes no momento de mais casos, que é junho, julho e agosto. Iríamos receber os testes da Vale e adquirir mais da Fio cruz, masela não conseguiu, trazer e teve que reprogramar as entregas. Não foi de má-fé, mas de falta de insumo.

Ainda é possível am pliar a testagem? É possível e necessário, mas existe a necessidade de ajustar aestratégia, principalmente o rastreamento do número de infecções e de contatos. Nãobastasófazer teste, a mira tem de estar boa, e ela tem de estar na identificação e rastreamento de contatos

Na sua gestão, falava-se que a epidemia chegaria ao pico entre junho e julho. Jã chegamos? O reflexo da circulação de agora só vamos ver umas três semanas para frente. Mas creio que estejamos no pico para gerai´ um plató. A questão é se vai gerai-um platô ou se começará a teruma queda.

Mas não há um risco de segunda onda? O risco existe. Se estamos com um 1 milhão de casos, vamos sup or que estejamos subestimando o número real, e que ele seja de 10 milhões. Estamos falando ainda de -2oa milhões de pessoas sem se infectarem Se não tenho uma vacina, e não tenho medicamento profilático, não tenho como controlar.

O ministério alterou recentemente a divu Ig aç ão d os dados e chegou a retirar o total de casos e mortes. Enquanto estava na pasta, recebeu pressão para mudar a divulgação?
Igual aconteceu. não.

Mas aconteceu em algum momento?
Desde o começo, a Presidência queria destacar mais os casos recuperados, mas não teve grande mudança. O objetivo de olhai´ para o recuperado ê entender um pouco a velocidade de transmissão.

Como viu adecisão de mudar a divulgação dos dados?
Lamentei muito. Não é a tradição da Secretaria de Vigilância e nunca foi em nenhuma gestão.

Até quando devemos conviver com o novo coronavírus?
O coronavírus de 2002 perdurou até 2010 na China com casos esporádicos. Enquanto não tivermos certeza de que a imunidade seja duradoura e de que a vacina seja realmente eficaz, vamos conviver.

Wanderson Kleber de Oliveira, 47 Ex-secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde na gestão de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Formado em enfermagem, é doutor e mestre em epidemiologia pela Faculdade de Medicina da UFRGS {Universidade Federai do Rio Grande do Sul) e foi professor da Fiotruz Brasília. E servidor público federal do Hospi tal das Forças Armadas desde 2009

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