Em live com Lula, Fernández defende Estado forte e integração regional

Em live com Lula, Fernández defende Estado forte e integração regional

21:29 - Em um debate virtual nesta sexta-feira, 26, o presidente argentino, Alberto Fernández, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defenderam o Estado forte e união dos países da América Latina e o restabelecimento de seus organismos multilaterais para lidar com um cenário pós-pandemia. Os dois exaltaram as políticas de governo que, segundo eles, priorizam a vida e não a economia como única alternativa para vencer a pandemia, um lema que Fernández vem repetindo desde que foram registrados os primeiros casos de coronavírus na Argentina.

O debate virtual foi promovido pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA), onde o presidente argentino foi professor, com o objetivo de discutir o futuro da América Latina pós-pandemia. Também participaram dele o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, a jurista da Universidade Federal do Rio de Janeiro Carol Proner e o ministro da Educação da Argentina, Nicolás Trotta, entre outros.

Pouco antes do evento virtual, Fernández anunciou o endurecimento das medidas de confinamento em Buenos Aires e sua periferia, de 1º a 17 de julho, diante do aumento de contágios de covid-19 nos últimos dias. “Vamos voltar a fechar a Área Metropolitana de Buenos Aires para que a circulação diminua drasticamente, para reduzir os contágios e a demanda por leitos (hospitalares)”, disse o presidente, em uma mensagem gravada.

A decisão é tomada em meio a um crescimento exponencial nos contágios, com 1.167 mortes em 52.444 casos confirmados. A ocupação de leitos de terapia intensiva atinge 54% na AMBA, onde vivem 14 milhões de pessoas, quase um terço da população do país, com 44 milhões de habitantes. Em outras províncias o isolamento social já foi relaxado.

Falando de São Paulo, Lula lembrou as relações de seu governo com outras governos de esquerda e as iniciativas para a criação e fortalecimento de organismos regionais - um desses organismos é a Unasul, do qual o Brasil foi retirado pelo governo de Jair Bolsonaro em abril de 2019.

"Quando fui eleito presidente, em 2002, com meu companheiro Celso Amorim (chanceler) e meu governo, tomamos a decisão de priorizar nossa relação com a América Latina", disse Lula, afirmando em seguida que aquele período foi um dos melhores momentos políticos da região, "com Néstor Kirchner, Cristina (Kirchner), (Michelle) Bachelet, (Rafael) Correa, Evo Morales, Tabaré Vazquez e (José) Mujica, e Hugo (Chávez)".

“O que vai salvar a América Latina depois dessa pandemia é uma palavra: democracia. Precisamos recuperar a democracia na América Latina, porque um estado eleito forte cuida do seu povo. O mercado não resolve nada, o mercado só cuida do seu umbigo. Quem cuida do povo é o estado.”

Depois de saudar e elogiar Lula, Fernández lembrou que o visitou na prisão em Curitiba e agora espera recebê-lo na Casa Rosada. Em sua fala, também defendeu o Estado forte para ajudar os países a saírem da crise do coronavírus.

“Nada é mais importante que a vida, que a saúde do povo. Mas há alguns que acreditam que o mais importante são os negócios. É um falso dilema perguntar se queremos escolher entre a vida e a economia.”

Ele defendeu sua política de confinamento mais restrito e disse estar dando certo, já que a Argentina está em uma situação menos pior que outros países da região. "A pandemia destruiu o sistema capitalista como o conhecemos. É imperceptível aos olhos, mas pôs em xeque o funcionamento da economia mundial. Milhares de empresas estão morrendo porque a economia não funciona. E por quê? Porque ela precisa de homens e mulheres consumindo, trabalhando. Se eles morrem, não há capitalismo que funcione."
Lula e Fernández são velhos conhecidos e a amizade entre eles causou rusgas no ano passado entre o então candidato presidencial argentino e o presidente Jair Bolsonaro, que apoiou abertamente o então presidente, Mauricio Macri, que buscava a reeleição. Macri foi derrotado por Fernández, um peronista de centro-esquerda, que defendeu em várias ocasiões o ex-presidente Lula.

Em 4 de julho do ano passado, Fernández visitou Lula em Curitiba e disse, na ocasião, que sua prisão era uma "mácula ao Estado de direito". No mês seguinte, após a vitória de Fernández e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, nas eleições primárias, Bolsonaro chegou a afirmar que "bandidos de esquerda" estavam voltando ao poder na Argentina.

Depois disso, Bolsonaro pediu apoio ao setor empresarial que ajudasse Macri a ser reeleito, alegando que Fernández defendia mudanças no acordo entre Mercosul e União Europeia. No dia de sua vitória, em 27 de outubro, Fernández parabenizou Lula pelo Twitter e postou uma foto com o gesto conhecido como "Lula Livre", logo depois criticado por Bolsonaro.

Após anunciar que não compareceria à posse do colega, Bolsonaro anunciou que o vice, Hamilton Mourão, compareceria à solenidade. Desde então, houve gestos de distensão entre os governos. Na visita que fez a Brasília em fevereiro, o chanceler argentino, Felipe Solá, disse que a Argentina adotaria uma relação pragmática com o Brasil e falou em um encontro entre os dois presidentes, que em meio à pandemia, ainda não aconteceu.

A pandemia, aliás, voltou a colocar Fernández e Bolsonaro em lados opostos quando, em maio, o líder argentino disse, em uma entrevista a uma rádio de Buenos Aires, que o Brasil era um "risco para a região". "Eu não entendo como (o Brasil) age com tanta irresponsabilidade”, disse Fernández, destacando que vinha conversando com os presidentes de Uruguai, Luis Lacalle Pou, e Chile, Sebastián Piñera, sobre isso.

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