Em cúpula asiática, Rússia e China defendem cooperação regional e cobram ajuda dos EUA ao Afeganistão

Em cúpula asiática, Rússia e China defendem cooperação regional e cobram ajuda dos EUA ao Afeganistão

18:54 - Reunião da Organização para Cooperação de Xangai foi a primeira depois da chegada do Talibã ao poder, e países querem evitar nova crise humanitária e o fortalecimento de grupos terroristas

Países da Organização para Cooperação de Xangai, que reúne nove nações que estão localizadas ou fazem divisa com a Ásia Central, defenderam a cooperação com o novo regime do Talibã, no Afeganistão, para garantir uma transição de poder segura para o país e toda a região. Ele ainda cobraram dos EUA mais engajamento, o que poderia incluir o diálogo direto com os talibãs.

Em uma reunião híbrida, com alguns líderes participando por meio de videoconferência, o grupo reconheceu que o Talibã controla, de fato, todo o território afegão, e se faz necessário manter um contato com as novas autoridades para apoiar no estabelecimento do novo governo. Além disso, como pontuou o presidente russo, Vladimir Putin, essa é uma forma de pressionar o regime a cumprir as promessas feitas desde a tomada de Cabul.

— É importante mobilizar o potencial da organização para facilitar o início de um diálogo inclusivo entre os afegãos e também para bloquear as ameaças de terrorismo, tráfico de drogas e extremismo religioso deste país — declarou Putin, por videoconferência. — Os talibãs controlam praticamente todo o território do Afeganistão e precisamos estimular as novas autoridades afegãs para que mantenham suas promessas.

Durante o encontro, nenhum país defendeu o reconhecimento do governo do Talibã neste momento.

Compromissos
Nas últimas semanas, o Talibã se comprometeu a mudar algumas das práticas que marcaram seu primeiro governo, entre 1996 e 2001, como, no caso das preocupações dos vizinhos da região, a questão do terrorismo: anteriomente, a milícia apoiava a rede terrorista al-Qaeda, que usava seu território para realizar ataques em todo o mundo, incluindo os de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Na assinatura do acordo que pavimentou a retirada das forças estrangeiras do Afeganistão, acertado com os EUA em fevereiro do ano passado, a milícia se comprometeu a não permitir que organizações terroristas usassem o país como base para ataques no futuro — isso não significa necessariamente que não haja a presença de grupos atuando no Afeganistão, como o Estado Islâmico do Khorasan e, embora enfraquecida, a própria al-Qaeda.

Em sua fala, o presidente chinês Xi Jinping defendeu que as “partes relevantes” no Afeganistão (no caso, o Talibã) atuem para erradicar o terrorismo, e que se guiem por políticas internas e externas moderadas e se mostrem abertas a uma sociedade mais aberta e inclusiva. Ele prometeu enviar ajuda humanitária, incluindo insumos usados no combate à Covid-19 — anteriormente, Pequim havia se comprometido com US$ 31 milhões em ajuda, incluindo vacinas e alimentos.

Ao mesmo tempo, o líder chinês, que compartilha uma fronteira de 76 km com o Afeganistão, declarou que certos países que “instigaram a difícil situação” no Afeganistão deveriam assumir responsabilidades pelo futuro do país, uma menção indireta aos Estados Unidos e aliados, que completaram sua retirada militar no final de agosto. Já Vladimir Putin foi mais direto em suas colocações.

— A maior parte das despesas relacionadas à reconstrução do Afeganistão deveria ficar a cargo dos EUA e os países da Otan, que são responsáveis diretos pelas graves consequências de sua presença prolongada no país — apontou Putin.

As nações do grupo temem que, sem um governo funcional em Cabul, o Afeganistão seja palco de mais uma crise humanitária, com milhares de refugiados cruzando as fronteiras em busca de segurança.

Um vácuo no poder também abriria caminho para que grupos extremistas ampliassem sua presença, se tornando uma ameaça aos demais países da região — a China, por exemplo, teme que os jihadistas possam incitar insurgências em províncias como, como Xinjiang, onde organizações de defesa dos direitos humanos afirmam estar em curso uma violenta estratégia de repressão por parte de Pequim contra minorias religiosas.

Liberação de dinheiro
Um primeiro passo para isso, além da cooperação, seria a liberação de fundos do governo afegão em boa parte retidos em instituições financeiras dos EUA, e que foram bloqueadas pelas autoridades americanas depois da tomada de Cabul. Para Vladimir Putin, cujo país ainda considera o Talibã um grupo terrorista, a demora na liberação dos fundos pode empurrar as novas autoridades locais para negócios ilegais, como o tráfico de drogas e o cultivo de papoula, usada na fabricação de opiáceos, como a heroína.

Criada em abril de 1996, a Organização de Cooperação para Xangai se coloca como um fórum focado na cooperação em temas de segurança, economia e cultura, e hoje tenta exercer um maior papel de influência no Afeganistão depois de 20 anos de presença militar das forças da Otan.

O grupo é formado por Rússia, China, Uzbequistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Índia, Paquistão, Quirguistão e Irã, que foi oficializado como novo membro nesta sexta-feira. O país atuava, até então, como observador, e em seu discurso em Dushanbe, capital tadjique, o presidente Ebrahim Raisi defendeu a cooperação regional e declarou o fim do “unilateralismo” americano.

— O mundo entrou em uma nova era. A hegemonia e o unilateralismo estão fracassando. O equilíbrio internacional está caminhando para o multilateralismo e para a redistribuição de poderes para beneficiar os países independentes — afirmou Raisi. Na fala, ele disse que as sanções aplicadas contra o Irã, ligadas às atividades nucleares do país, são uma forma de “terrorismo econômico”.

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