Em Buenos Aires, Macri e Bolsonaro falam em criação de moeda comum

Respaldo. Em visita à Argentina, brasileiro quebra mais uma vez o protocolo diplomático ao interferir no processo eleitoral e apoiar a reeleição do presidente argentino; líder destaca que Brasil e Argentina têm de ser parceiros na busca ´pela liberdade´

Em Buenos Aires, Macri e Bolsonaro falam em criação de moeda comum

Empresários argentinos e representantes dos governos de Mauricio Macri e Jair Bolsonaro discutiram ontem a criação de uma moeda comum entre Brasil e Argentina, que se chamaria `peso real`. Uma fonte argentina confirmou ontem ao ´Estado´ que a moeda comum seria resultado natural da intensificação do processo de integração de dois países que adotam políticas econômicas semelhantes.

Desde o início do Mercosul, no início dos anos 90, existe a intenção de se criar uma moeda única. No entanto, choques econômicos, como a desvalorização do real, de 1999, impediram a concretização do plano. A discrepância entre as inflações de Brasil e Argentina, porém, seria umgrande desafio. Enquanto a inflação acumulada nos últimos 12 meses no Brasil é de 5%, na Argentina chega a 55%.

A questão da moeda comum foi apresentada ontem pelo ministro da Economia Paulo Guedes durante um encontro empresarial no Hotel Alvear, no qual estiveram presentes Bolsonaro e os ministros argentinos Jorge Faurie, de Relações Exteriores, e Dante Sica, de Produção e Trabalho.

A criação de uma moeda única para o Mercosul ganhou impulso no fim de abril, quando a Argentina atravessava mais uma fase aguda de sua crise financeira. Aideiahavia sido apresentada ao governo de Mauricio Macrimeses antes em Washington. Na ocasião, a equipe argentina pediu para que os brasileiros esperassem até que as eleições presidenciais do país passassem, em outubro.

Com a situação econômica agravada, porém, o ministro da Fazenda da Argentina, Nicolás Dujovne, foi até o Rio de Janeiro em abril e se encontrou com Guedes. Dujovne pediu para anunciar o projeto, o que foi negado por Brasil, apurou o Estado. A divulgação da informação de que Bolsonaro estava disposto a fazer parte de uma união monetária seria uma ferramenta para impulsionar a popularidade de Macri, qu e tenta a reeleição neste ano e teve sua imagem golpeada pela crise.

Em resposta ao comunicado do Banco Central do Brasil de que não há estudos para uma união monetária com a Argentina, Guedes afirmou: `Claro que o Banco Central não tem projeto sobre o assunto, a idéia é minha`. A jornalistas, Guedes afirmou que a criação da moeda é uma conjectura.

Diplomacia. Ontem, em sua primeira visita oficial à Argentina, Bolsonaro quebrou mais uma vez ontem protocolos diplomáticos e anunciou apoio à reeleição de Macri. Apesar de não citar o nome do argentino nem a chapa adversária, composta por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, Bolsonaro afirmou que `pedia a Deus` que iluminasse os argentinos para que `votassem com a razão e não com a emoção`.

Mais de 60 movimentos sociais organizaram ontem um protesto contra Bolsonaro diante da Casa Rosada, sede da presidência argentina. O presidente, porém, já havia deixado o local do encontro.

As eleições presidenciais da Argentina serão em 27 de outubro e, de acordo com as últimas pesquisas, a chapa kirchnerista estáàfrente em um possível segundo turno, mas quase empatada no primeiro.

`Eu conclamo o povo argentino, que Deus abençoe a todos eles, porque terão pela frente agora eleições. E todos têm de ter, assim como grande parte da população no Brasil teve, muita responsabilidade, razão e menos emoção para decidir o futuro desse país maravilhoso que é a Argentina`, disse obrasileiro ontem, em discurso na Casa Rosada, ao lado de Macri.

Bolsonaro destacou que os países têm de ser parceiros não apenas econômicos, mas na busca `por um objetivo maior: a liberdade`. `Toda a América do Sul está preocupada, pois não quer novas Venezuelas na região`, afirmou, em referência à deterioração econômica que ocorreria, segundo ele, caso o kirchnerismo voltasse ao poder na Argentina.

No entanto, o ministro brasileiro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, disse que o governo brasileiro não quer interferir de `nenhuma maneira` no processo eleitoral argentino. `Apoiar Macri é o reconhecimento do muito que pode ser feito hoje entre os dois governos`, disse. `Não é pensando na hipótese de vitória de Cristina que vamos desaproveitar este momento.`

Para o cientista político Marcelo Leiras, da Universidad de San Andrés, apesar de Bolsonaro não ter citado nomes, houve uma interferência do brasileiro na política interna argentina, o que é `muito mal visto em relações exteriores`.

O brasileiro já havia demonstrado seu apoio a Macri em ocasiões anteriores. Em Dallas, quando recebeu o prêmio de personalidade do ano da Câmara de Comércio Brasil-EUA,em maio, Bolsonaro disse que Cristina Kirchner, `amiga do PT`, pretendia roubar a liberdade `de nós`.

Além de seralvo de comparações, a Venezuela também foi assunto das reuniões bilaterais de ontem. Ajornalistas, Bolsonaro afirmou que espera que haja um racha no Exército venezuelano, que hoje apoia Nicolás Maduro, para que o governo se desestabilize. `É difícil acabar com uma ditadura. Esperamos que haja um racha. Caso contrário, fica difícil normalizar a situação.`

Na área econômica, os dois presidentes destacaram que o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Européia nunca esteve tão próximo de ser fechado. As negociações já se estendemhámais de 20 anos e, em até quatro semanas, o documento poderia ser assinado, segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Livre-comércio. Questões sobre a taxação de vinhos e laticínios estão entre as poucas que aindaestão abertas. Háaexpectativa de que as negociações sejamencerradas emumarodada em Bruxelas, nos dias 27 e 28 de junho. `Só não sei se seria anunciado ali ou no encontro do G- 20 (no Japão, em 28 e 29 de junho)`, disse o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

De acordo com o presidente, nas reuniões, foi discutida ainda a possibilidade de se construir duas hidrelétricas entre aArgentina e o Rio Grande do Sul.

Sobre a reforma daPrevidência, Bolsonaro admitiu que a tramitação está desgastada e a posição dos parlamentares em relação à inclusão dos Estados e municípios no texto não é `justa`.

`Tem desgaste sobre a previdência. Mas todo mundo tem de estar no mesmobarco. Acho que eles (os parlamentares) vão ceder e vai ser como gostaríamos que fosse. Uma reforma que pegue todo mundo e com o voto de todos os partidos`, afirmou.

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