Dívida do Brasil passará de 100% do PIB em 2020, segunda maior entre emergentes e países de renda média

Dívida do Brasil passará de 100% do PIB em 2020, segunda maior entre emergentes e países de renda média

17:37 - Endividamento continuará a crescer até 2025. Apenas Angola tem patamar acima do brasileiro

WASHINGTON - O aumento de gastos para combater a pandemia fará a dívida pública brasileira saltar de 89,5% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) em 2019, para 101,4% neste ano, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas nesta quarta-feira. Na terça-feira, o Fundo previu que a recessão será menos severa em 2020, tanto no Brasil como no mundo.

O endividamento brasileiro seguirá trajetória de alta até 2025, quando chegará a 104,4% do PIB. Tanto neste ano como em 2025, a situação das contas públicas brasileiras é a mais frágil entre as principais economias emergentes, como China, Índia, México, Rússia e África do Sul.

Os números representam uma piora na percepção do Fundo quanto à trajetória da dívida pública do Brasil. No Monitor Fiscal divulgado em abril, o FMI estimava que a relação entre dívida bruta e o PIB brasileirochegaria a 98,2% em 2020, caindo nos anos seguintes.

Apenas África do Sul e Índia ultrapassarão o patamar de 80% do PIB nos próximos anos, mas ainda longe da marca de 100% do PIB, segundo projeções que constam no relatório Monitor Fiscal do Fundo.

— O que vemos é um salto único na dívida em 2020, depois uma estabilização depois de 2021 e até uma leve tendência de baixa em 2025 —, disse o diretor de Assuntos Fiscais do FMI, Vítor Gaspar, em entrevista à Reuters.

Considerando a lista das 40 nações ermegentes e de renda média acompanhadas pelo FMI, o país terá o segundo maior nível de endividamento neste ano, perdendo apenas para Angola (120,3% do PIB).

Em 2019, apenas Angola e Venezuela tinham níveis de endividamento acima do brasileiro. Como não há estimativas para a Venezuela neste e nos próximos anos, o Brasil acabou subindo de terceiro para o segundo lugar entre os mais endividados neste grupo.

E passará à primeira posição em 2022, quando o indicador atingirá 103,5% do PIB, ao passo que a de Angola recuará para 93,8% do PIB.

Entre as economias avançadas, Estados Unidos e Japão são os que estão em situação mais delicada. A dívida americana, que estava em 108,7% do PIB no ano passado, passará a 131,2% do PIB neste ano e para 136, 9% do PIB em 2025, segundo as projeções. Já o Japão seguirá acima dos 200% do PIB ao longo de todo o período.

Globalmente, a dívida pública vai avançar mais de dez pontos percetuais, de 83% do PIB para 98,7% em 2020, estabilizando-se em 100% do PIB em 2025.

"Estratégias fiscais foram necessárias em todos os lugares", disse o FMI no relatório. O Fundo classifica o ano de 2020 como "excepcional" e salienta que foram gastos cerca de US$ 12 trilhões em ajuda financeira no mundo todo para combater a pandemia, com objetivo de manter empresas de pé e preservar empregos.

Déficit fiscal vai triplicar em 2020

A combinação entre mais gastos para combate à Covid e a menor arrecadação com impostos, devido à retração da atividade econômica, também fará o déficit fiscal dos países mais que triplicar em 2020, na comparação com o ano anterior, segundo o FMI. O percentual global nas nações acompanhadas pelo Fundo vai passar de 3,9% para 12,7% do PIB.

Entre as principais economias emergentes, o Brasil, novamente, é o que está em pior posição, saindo de um déficit de 6% do PIB em 2019, para 16,8% em 2020. O FMI também chama atenção para a situação da África do Sul, que deve fechar o ano com déficit de 14%.

Investimento público deve continuar

Em outro capítulo do Monitor Fiscal, o FMI defende que os governos continujem a ajudar os mais vulneráveis durante a crise causada pela COVID-19, mas recomenda que, diante de uma maior pressão sobre seus recursos limitados, devem considerar aumentar os impostos sobre as famílias e empresas mais ricas.

Segundo o FMI, um aumento do investimento em infraestrutura pública de 1% do PIB poderia impulsionar a produção em 2,7%, o investimento privado em 10% e o emprego em 1,2%, criando entre 20 milhões e 33 milhões de empregos.

“Embora o endividamento público esteja em níveis recordes, é necessário mais suporte para proteger as pessoas que não podem ganhar a vida sob as atuais circunstâncias e para promover uma forte recuperação”, diz o fundo. “As políticas fiscais devem ser adequadas às diferentes fases da pandemia, adaptando-se à evolução das necessidades e garantindo a sustentabilidade da dívida.”

Uma segunda onda de Covid-19 vem assombrando diversos países, em especial na Europa. Depois da Itália, que anunciou novas medidas de restrição, chegou a vez da Alemanha e França tentarem frear um novo avanço da doença, o que continua sendo um desafio. A Covid-19 já causou a morte de mais de um milhão de pessoas no mundo.

Nesta quarta-feira, a chanceler Angela Merkel anunciou que pretende impor novas restrições na Alemanha, enquanto o governo da Catalunha, na Espanha, determinou o fechamento de bares e restaurantes.

Em entrevista coletiva durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, Vitor Gaspar ressaltou nesta quarta-feira que os programas de ajuda dos governos para minimizar os efeitos da Covid-19 devem persistir pelo menos até 2021.

Investimento em infraestrutura e energia verde

Desde o início da pandemia, os governos injetaram US$ 12 trilhões na economia mundial, mas agora "muitos países terão que fazer mais com menos, devido às crescentes restrições orçamentárias", acrescentou o chefe do Departamento de Finanças Públicas do FMI.

O FMI também pediu que se deixasse de proteger "empregos antigos" e aumentasse o investimento público em infraestrutura e energia verde, aproveitando este momento "para se afastar do modelo de crescimento pré-crise e acelerar a transição para uma economia digital e baixa emissões de carbono".

Os gastos devem ser mais focados nos empregos do futuro, disse o credor global no relatório publicado no âmbito das reuniões anuais dos dois organimos, que acontece esta semana em formato virtual.

As economias de mercado emergentes, com maiores restrições de financiamento, precisarão reordenar as prioridades de gastos e melhorar a eficiência.

“Alguns podem precisar de apoio financeiro oficial e alívio da dívida”, disse Gaspar em um blog que acompanha o relatório, acrescentando que os formuladores de políticas "devem ser mais seletivos", abandonando "gradualmente" o apoio a empregos em setores antigos para alocar fundos para treinamento e permitir que os desempregados tenham acesso aos empregos de amanhã.

Além disso, "os governos devem (...) avaliar a aplicação de impostos mais elevados para os grupos mais ricos e as empresas mais lucrativas", apontou Gaspar, que assinou o texto com seu adjunto Paulo Medas e dois economistas do FMI, John Ralyea e Elif Ture.

De acordo com os economistas, essa renda adicional ajudaria a pagar por serviços essenciais, incluindo redes de saúde e proteção social "durante uma crise que afetou desproporcionalmente os segmentos mais pobres da sociedade".

"Os governosdevem agir de forma decisiva para tornar as economias mais inclusivas e resilientes e conter o aquecimento global com medidas verdes que também impulsionem o crescimento e o emprego", concluíram.

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino