Diplomacia das máscaras da China ganha força na América Latina contra o coronavírus

Diplomacia das máscaras da China ganha força na América Latina contra o coronavírus

Governo, empresas e organizações filantrópicas do país vêm cooperando com mais de 80 nações no envio de material médico

Depois de ter sido a origem do que terminou se transformando numa pandemia da Covid-19 , a China iniciou uma frenética ofensiva para reescrever a narrativa da crise global e limpar sua imagem com a disseminação do
No caso do México, por exemplo, a Fundação Jack Ma e a Fundação Alibaba — uma das maiores empresas de comércio digital do mundo — doaram 100 mil máscaras, 50 mil kits de testes e cinco respiradores, informou o ministro das Relações Exteriores do país, Marcelo Ebrard. Semana passada, o chanceler do Uruguai, Ernesto Talvi, informou que o governo chinês confirmara a doação ao país de 150 mil máscaras, 20 mil kits de testes e cinco respiradores. A Bolívia, por sua vez, recebeu da Alibaba 100 mil máscaras, 20 mil kits para testes e cinco respiradores em uma cerimônia no aeroporto de El Alto.
Análise:
Para especialistas da região ouvidos pelo GLOBO, com a “diplomacia das máscaras”, a China ocupou um vazio deixado há muito tempo pelos Estados Unidos com o claro objetivo, pós-pandemia, de ampliar seus negócios e comércio com o continente. Alguns gestos foram contundentes, entre eles a participação, semana passada, de uma comissão do Ministério da Saúde chinês na reunião virtual de chanceleres da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), bloco do qual o Brasil não forma mais parte.
Uma das grandes diferenças entre chineses e americanos, apontou o argentino Bernabé Malacalza, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) da Argentina, é a escala. Segundo o pesquisador, que vem monitorando o aumento da cooperação chinesa com países latino-americanos, europeus, asiáticos e africanos, a China já está mergulhada num processo de reconversão industrial relacionado à pandemia e no caso das máscaras, por exemplo, aumentou em 12 vezes sua produção nas últimas semanas.
— Empresas chinesas, entre elas a Alibaba, líder no comércio digital, já doaram US$ 432 milhões, contra US$ 329 milhões das americanas como Google. No caso dos governos, os EUA ajudam países vinculados a seus objetivos militares, como o Afeganistão. A China ajuda a todos os que pode e não interfere em sua política interna — disse o pesquisador argentino.
No mundo:
Generosidade desinteressada? De forma alguma, apontou Carlos Milani, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que observa na ação da China uma clara jogada para ”reverter a narrativa histórica de ser a origem do problema e passar a ser a solução”.
— Mesmo tendo sido a origem do vírus e cometido erros típicos de regimes autoritários (como sonegar informação), a China pretende, agora, construir legitimidade internacional — disse Milani, lembrando que uma das prioridades centrais da política externa chinesa é “garantir estabilidade interna, manter o regime forte”. — O calcanhar de Aquiles da China sempre foi a falta de legitimidade, as acusações de violação dos direitos humanos e de autoritarismo.
A necessidade de pisar forte em outras regiões do mundo explica, por exemplo, a cooperação com o Brasil, apesar do incidente diplomático protagonizado pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e pelo embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, recentemente. Em meio ao recrudescimento de casos positivos de coronavírus no país, o Ministério da Saúde negociava com o governo chinês o fornecimento de produtos e equipamentos hospitalares. A crise terminou com um telefonema do presidente da China, Xi Jinping, a Jair Bolsonaro. Ao GLOBO, a Embaixada da China informou ter disponibilizado ao governo brasileiro a versão mais atualizada do protocolo de diagnóstico e tratamento de Covid19, assim como o programa de contenção. Além disso, em resposta aos pedidos de ajuda apresentados por vários governos estaduais, Pequim está viabilizando compras emergenciais de suprimentos.
A empresa China MEHECO, por exemplo, entregou à prefeitura do Rio de Janeiro seis equipamentos de tomografia em caráter de urgência e vai agenciar a aquisição de outros equipamentos e materiais hospitalares para tomografia, monitoramento multiparamétrico, ventilação pulmonar e anestesia. Grupos chineses como a Huawei e as fundações Alibaba e Jack Ma também anunciaram doações de suprimentos médicos ao Brasil. O governo chinês também já se comprometeu a ajudar o governo federal. Mas informou que só viabilizará as doações do Estado e das empresas quando a parte brasileira apresentar as “demandas concretas”.
União:
Na visão da professora Lia Valls, da Uerj , “a China está tentando mostrar sua capacidade de governança mundial”.
— Estão usando seu soft power, que contrasta com o hard power dos americanos. Hoje, a China tem capacidade de produção de atender uma demanda global — enfatizou Lia.
O argentino Javier Vadell, professor de Relações Internacionais da PUC-Minas, acredita que a China saíra fortalecida da pandemia. Ele, que já visitou o país e foi convidado a dar aulas a alunos de graduação chineses, acha que esta crise vai “alterar de maneira significativa as relações da China com diversas regiões do mundo”.
— Nada em relações internacionais é desinteressado. Os chineses querem mais abertura, mais comércio e mais investimentos na região. Acho que a pandemia acelerou processos que já estavam em marcha, não mudou tendências.

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