Desemprego e medo da Covid-19 expulsam argentinos residentes no Brasil

Desemprego e medo da Covid-19 expulsam argentinos residentes no Brasil

Muitos já retornaram a seu país, enquanto outros vivem em situação crítica e apavorados com a explosão de casos e colapso da rede pública de hospitais

A pandemia e a explosão de casos da Covid-19 no Brasil provocaram um êxodo de argentinos que residiam no país. O contraste entre a situação sanitária brasileira e a argentina (por lá foram confirmados 13.228 casos e 490 óbitos), somado à perda de empregos, principalmente no setor de turismo, já levou muitos argentinos de volta para sua terra natal, em busca, principalmente, de maior segurança em matéria de saúde. Muitos outros estão ainda no Brasil, em situação crítica e apavorados com a possibilidade de contagiar-se e terminar num hospital da rede pública. Vários desses imigrantes desamparados estão em Búzios, há anos refúgio predileto dos argentinos. Alguns, confirmaram moradores da cidade que estão tentando ajudá-los, já dormem na praia.
O Consulado da Argentina no Rio já repatriou oficialmente 200 pessoas de avião e um ônibus lotado. O cônsul Claudio Gutierrez estima que o total de compatriotas que já retornaram a seu país desde o começo da pandemia é muito maior. Em março, empresas como a Marinho Transporte e Turismo chegaram a retirar 700 argentinos de Búzios em um dia, muitos deles turistas. Em abril, a quantidade de residentes que optaram por retornar à Argentina aumentou de forma expressiva. Em todos os casos, os argentinos foram levados até à cidade de Uruguaiana, na fronteira. Muitos foram transportados até Buenos Aires pelo governo nacional. Atualmente, esse serviço, que durante um tempo foi gratuito, não está funcionando de forma frequente e a repatriação dos residentes tornou-se mais difícil.
— Ajudamos muitas pessoas que estavam passando necessidade. Demos alimentos, medicamentos, fizemos e fazemos o que podemos, trabalhando quase sem dormir. A perspectiva dos argentinos residentes é muito complicada, sem plano de saúde e sem emprego — explicou o cônsul.
A estratégia do governo argentino de combate à pandemia foi radicalmente diferente da implementada pelo Brasil. Desde meados de março, a Casa Rosada mantém uma rigorosa quarentena, atualmente flexibilizada em algumas regiões do país. Na capital, o isolamento obrigatório foi mantido até, pelo menos, o próximo dia 7 de junho. Em pronunciamento nacional domingo passado, o presidente Alberto Fernández questionou os que criticam seus métodos, respaldados, em todo momento, por uma equipe de epidemiologistas de prestígio. Num país em recessão severa, a fome começa a instalar-se como um drama nacional, e milhares de argentinos estão passando um enorme sufoco econômico, sem expectativa de que as coisas possam melhorar.Questionado por uma jornalista sobre a "angústia" provocada pela quarentena, Fernández respondeu de forma veemente:
— Tenho ouvido falar muito da angústia da quarentena. É angustiante salvar-se? Angustiante é ficar doente. Angustiante é que o Estado te abandone e te diga que faça o que quiser — declarou o chefe de Estado, que, segundo fontes de seu governo, acompanha com profunda preocupação o aumento vertiginoso de casos e mortes no Brasil, um de seus principais sócios comerciais. — Estamos numa pandemia que mata gente, entendido? Uma pandemia de um vírus desconhecido que não tem vacina nem remédio, entendido? Fiquem em casa e cuidem-se. Tentem levar isso da melhor maneira possível.
Esse é o maior medo de Lucia López, uma jovem argentina que mora desde 2016 no Brasil. Ela passou o último verão no Rio, onde vendia vestidos na praia. Com a chegada da pandemia, muitos de seus amigos argentinos voltaram rapidamente para o país. Mas Lucia decidiu esperar um pouco, retornar a Búzios para guardar suas coisas na casa de algum conhecido e pensar no que fazer. Decidir abandonar o sonho de morar no Brasil não foi fácil para ela.
— Não quero voltar a morar na Argentina, mas neste momento me sentiria muito mais segura lá. Minha família está aterrorizada, e eu tenho dinheiro para me sustentar aqui até setembro, morando com um amigo — contou a jovem.
Ela conseguiu receber o auxílio emergencial de R$ 600, mas com esse montante não chega a Buenos Aires. Uma passagem até a fronteira custa atualmente R$ 500.
— Estou esperando alguma opção de ônibus que me leve até a capital (da Argentina). O que temo é que fechem totalmente a fronteira do lado argentino, isso seria terrível pra mim — desabafou Lucia.
A empresária Adriana Nogueira está empenhada em ajudar os argentinos desamparados. Ela comentou que alguns foram despejados das casas e apartamentos que alugavam e hoje já foram vistos argentinos dormindo em praias da região.
— Hoje temos cerca de 160 pessoas em estado crítico. Você chega a ver oito pessoas morando numa quitinete, e se revezando para dormir. A prefeitura está ajudando com cestas básicas, e estamos tentando organizar uma repatriação de ônibus, mas não é simples — afirmou.
Especial América Latina:
Adriana tenta acompanhar os argentinos permanentemente, enviando mensagens de alento.
— Eles estão com muito medo. Hoje priorizam a saúde e sabem que na Argentina estarão mais protegidos, mesmo dependendo de hospitais públicos — afirmou a empresária.
Esse é o caso de Hernán Ludueña, que chegou a Búzios em dezembro para trabalhar como instrutor de mergulho. Ficou desempregado em março, hoje se alimenta graças à cesta básica entregue pela prefeitura e espera, como Lucia, um ônibus que o leve de volta à Argentina.
— Me preocupa muito a questão médica, no meu país estaria muito melhor e teria minha família para me ajudar. Aqui estou me alimentando muito mal, vou comendo os alimentos da cesta básica devagar, porque não sei se nos darão outra — disse Hernan.
Entenda:
O cônsul argentino calcula que 20 mil cidadãos do país residem no Rio. Uma grande quantidade aluga quartos em favelas pagando em torno de R$ 400 mensais e vive de trabalhos informais. Para essas pessoas, o sonho acabou.
— Muitos foram embora tristes, eles não queriam ir. Mas estavam assustados e, em muitos casos, esperam, algum dia, poder voltar — concluiu o cônsul.

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