Desarmamento nuclear é nobre, mas algo limitado pela política

Desarmamento nuclear é nobre, mas algo limitado pela política

Nos 75 anos de Hiroshima, diretor-geral da AIEA fala sobre riscos de conflito e pede que o Brasil assine os protocolos adicionais ao Tratado de Não Proliferação Nuclear

O desarmamento nuclear, 75 anos depois da explosão da bomba de Hiroshima em 6 de agosto de 1945, ê um objetivo nobre, mas limitado pela realidade política. A afirmação ê do diplomata argentino Rafael Grossi, que há sete meses lidera a AI- EA (Agência Internacional de Energia Atômica).

Em conversa virtual com a Folha, na quinta (30), ele afirmou que sua consideração `não descobre nada de novo, mas era verdadeira`. Grossi, 59, é otimista. Apesar de as grandes potências, EUA e Rússia, manterem seus arsenais e estarem às turras sobre o acordo remanescente sobre controle de armas atômicas, o Novo Start, ele vê no TNP{Tratado de Não Proliferação Nuclear) um instrumento que barrou a bomba pelo mundo.

De fato, hoje há oito potências nucleares oficiais (EUA, Rússia, China, França, Reino Unido, índia, Paquistão e Coréia do Norte) e uma náo-oficial (Israel), ante dezenas projetadasno começo da corrida armamentista.

Nesta entrevista, ele discorre sobre como o veto pacifista àsarmas nuclearesse confundiu co m à ojeriza à energia atômica. `Há muita carga ideológica na discussão` Ele a louva como parte do mix energético do futuro, apesar de acidentes como o de Tchernóbil (na Ucrânia soviética em 1986) e Fukushima (Japão, 2011).

Um dos papéis da AIEAé justamente a promoção do uso pacífico da energia nuclear. Para o embaixador, as criticas sobre a segurança dessa matriz energética não se sustentam ante a importância potencial dela como fon te de eletricidade com emissão quase nula de carbono.

Grossi também fala sobre o Brasil, pedindo empenho do pais e da Argentina para incrementar o importante Abacc (Acordo Brasil-Argentina de Contabilidade e Con trole de Materiais Nucleares), que completa 30 anos em 2021 e evitou a construção da bom ba por ambos os lados.

Procurado, o Itamaraty não informou quanto investiu no acordo este ano. Na previsão do Orçamento, era estimado um aporte de R$ 394 mil para o trabalho de cerca de 50 inspetores do lado brasileiro.

Grossi toca num ponto sensível: cobra a adesão do Brasil a protocolos adicionais do TNÇ que preveem regime mais duro de inspeções, rejeitados pelo Itamaraty como ingerência na soberania energética do país e por expor segredos das centrífugas de enriquecimento de urânio.

Este ano marca o 50° aniver sário do TNP e o 75o dos bombardeios atômicos. Ao mesmo tempo, os desafios 11a área nuclear são crescentes. Como o sr. avalia isso? Eu creio que estamos numa situação muito anômala. Mas o TNP é um tratado que tem um histórico positivo, pois logrou conter o número depaíses possuidores de armasnucleares numa dimensão rela tivamente manejável.

Já é um clichê citar aquela frase do presidente John Fitzgerald Kennedy em 1963, segundo a qual haveria 25 potências nucleares [nos anos 1970]. Não era ilógico pensar as sim naquele momento. Essa ordem permitiu manter uma certa estabilidade.

O seu teor é perfeito? Não. Há limitações sobre a existência de países que podem ou não ter armas. Eu, como diplomata, como meus colegas do Brasil, crescemos numa época em que se dizia que o tratado era discriminatório.

O regime de não prolifera ção, para todos os efeitos, é universal, com as exceções conhecidas O tema pendente ê, claro, o desarmamento. Ele é um objetivo nobre, que todoscompartílham, mas está limitado por situações objetivas que têm a ver com o poder internacional.

Não proliferação, desarmamento e controle de armas andam juntos. Há o Irã, a Coréia do Norte, as conversas fracassadas sobre o Novo Start, as novas armas russas, a nova doutrina nuclear americana. O sr. acha que os riscos de um confronto atômico são maioreshoje? Há essa tentação de colocar um termômetro, como ofamoso Relógio do Juízo Final [do Boletim dos Cientistas Atômicos, do s EUA]. Acho que há coisas mais objetivas: a crise da não proliferação e o controle de armas, que não é desarmamento.

Controle ê a gestão das armas nucleares. Isso vem do começo dos anos 1970, a partir de uma série de acordos de limitação. Como você sabe, num dado momento, no pico da Guerra Fria, se chegara a cifras estratosféricas, absurdas, de mais de 3 o mil ogivaspara cada potência. Houve uma consciência de que seria possível lidar com isso de outra forma, e daí vieram os acordos

O último dosacordosainda vigente é o Novo Start. Creio que o que está acontecendo é uma transição. Não sabemos muito bem de que forma, mas há uma tendência de que é preciso tratar de novos atores.

Como a China. Sim, não apenas a Rússia e os EUA. E no vas tecnologias, como você disse, como as armas hípersônicas. Para alguns, isso merece um novo esquema normativo. Não tanto baseado na apro ximação quantitativa, mas mais flexível. Essa não ê minha área de competência, é uma análise. Minha competência é sobre a outra, a dos desafios recorrentes da proliferação.

Sim, como... No caso da Core ia do Norte, lamentavelmente não falamos mais de proliferação. O arsenal nuclear deles não é reconhecido, mas é um fato. As negociações atualmente são bilaterais [entre EUAe Pyongyang], antes eram seis partesnegociando. Após um avanço bastante p romissor, agora está num platô.

O caso do Irã é mais comple xo.É um caso de evitar o desenvolvimento de armas nucleares. Ê uma saga. Está difícil. A situação do Irá é de não cumprimento. Isso é tolerado pelas partes, pois consideram que a existência do acordo em si é um ativo.

Mas o tema do Irã não se esgota no acordo. Eles têm uma série de compromissos com a agência em termos de salvaguardas tradicionais, e o que há é negativa de acesso por parte do Irã aos inspetores da AIEA.

A questão militar c tragédias como as de Tchernóbil e Fu kushima coíbem o progresso do uso pacífico da energia nu clear? A resposta c Iara é não. O uso da energia nuclear no mundo tem crescido. A média global é de 12%, 13%. Em muitos países, em particular os mais industrializados, estão em´20%üumais. No caso da França, quase a 80%.

A Alemanha é outra questão, eles estão descomissionando, mas ainda está em 14%, 15%. Os Estados Unidos estão em 20%.
E háum crescimento exponencial na China , na índia, na Rússia e há países novos no jogo, como a Turquia e os Emi radosÁrabesUnidos, um país doGolfo [rico em petróleo], algo impensávelháalguns anos.

Vietnã, Bangladesh, os países do Leste Europeu, muito interessados em reduzir sua dependência estratégica de outros países [a Rússia, no caso].
O Brasil continua, Angra vai continuar, Argentina já tem três reatores. Falaram no canto do cisne, mas isso nào se manifestou.
Tchernóbil e Fukushima levaram a um debate. Eu não sou um lobista nuclear, mas daqueles que reconliecemas coisas do ponto de vista científica Na minha modesta opinião, há muitacarga ideológica na discussão nuclear.

Se misturam sentimentos que têm a ver com as armas nucleares. Nos movimentos na Europa, ê indistinguível: são pacifistas contrários às armas que também são con tra a energia nuclear.

Acaba sendo uma grande amálgama. Há um elemento muito interessante que é o da mudança climática. A energia nuclear tem uma baixíssima emissão, quase nula, de carbono. Além disso, ela gera um terço da energia limpa no mundo. Abordar a mudança climática rechaçando a energia nuclear é, francamente, in compreensível.

Os países mais desenvolvidos que acabam sediando os movimentos mais contrários. É uma boa observação, mas eu a matizaria um pouco. O Reino Unido, que ê um caso bem interessante. Lá, o governo é entusiasta da energia nuclear. Certamente, em sociedades abertas e democráticas o dissenso é parte do debate.

A AIEA prevê qual será o mix do futuro? É difícil. Não há um modelo único para todos. A boa matriz para o Brasil é muito diferente daquela da Argentina, porque vocês têm uma hidroeletricidade maravilhosa. Países como Japão e França, precisam muito de nuc lear e renováveis. Aigumas análises falamque será algo entre 15% e 20%. As matrizes limpas são todas importantes, mas no caso da renovável, há uma intrínseca intennitência, sejanaeolica ou na solar. A energia nuclear é constante, um complemento muito interessante.

Falando de Brasil e Argentina, há dúvidas sobre a cooperação entre a Abacc |acordo entre os dois países sobre a área nuclear] e a AIEA. Há sobreposições, menos coordenação como no caso da agência com a Euratom |o órgão europeu do setor].

A Abacc foi um passo histórico que ambas as sociedades não souberam valorizai- Basta olhar as d ificulda de s econô mie as do s nossos países para ver que uma corrida armamentista teria sido uma obscenidade, uma loucura. Mas não era impossível. A Aba cc é um êxito incrível. Isso é uma coisa, mas a cooperação técnica com a AIEA é algo discutido.

A cooperação com a Euratom não foi fácil no começo. Porque se trata de determinar até que p on to os sistem as regionais de contabilidade e controle de materiais nucleares podem substituir a presença da AIEA.

No caso da Euratom, a situaçãoavançou maisporuma questão de alocação derecursos. Posso dizer que é preciso lutar para que, para ter uma Abacc plenamente madura, nossos dois países terão de ter coragem de dar um passo a mais. Ambosospaísespodem dar um salto qualitativo.

Esse salto incluiria a adesão do Brasil aos Protocolos Adicionais? Eu acredito que sim. Eu cresci num meio em que se dizia que, se Argentina assinasse o TNP, isso iria condenar o setor nuclear argentino. O setor se salvou com o TNP. Ambição tecnológica tem de estar acompanhada por uma coerente posição em matéria normativa. Se ê estado da arte na tec nologia, tem de ser na norma. E não ter alta tecnologia e uma normativa abai xo do padrão.

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