Decepção tem sido a regra

Decepção tem sido a regra

A maioria dos participantes de mercado adotava, até recentemente, uma leitura muito otimista sobre as perspectivas de expansão econômica para 2019. Mais uma vez, essa visão mostrou-se exagerada. A mediana das projeções para o crescimento do PIB (Relatório de Mercado do Banco Central) diminuiu da média de 2,5% em dezembro passado para 1% em 7 de junho.

Essa dinâmica reproduz o processo que vem ocorrendo desde 2011, quando as previsões formuladas em dezembro do ano anterior e nesse mesmo mês dois anos antes foram sempre maiores do que o número final.

Essas projeções superestimaram os resultados, na média, em 1,3 ponto percentual e 2,5 pontos percentuais, respectivamente. A perda de convicção dos participantes de mercado também tem sido comum desde 2011 entre os mais otimistas.

A diferença entre a maior previsão de crescimento do PIB formulada em dezembro do ano anterior e o número final foi, na média, de 2,6 pontos percentuais no período entre 2011 e 2018. Isso está ocorrendo mais uma vez em 2019, com o valor máximo das projeções diminuindo dos 4,2% na média de dezembro passado para 2,1% em 7 de junho, um recuo de 2,1 pontos percentuais.

Assumindo como precisa a mais recente mediana das previsões de 1%, o erro dos mais otimistas será de 3,2 pontos percentuais. Apesar de a menor previsão de crescimento para 2019 não contemplar uma recessão, o risco de haver queda do PIB por dois trimestres consecutivos aumentou muito. Apesar da contínua desilusão com a expansão da economia, a leitura do mercado para os próximos anos continua favorável.

A mediana das expectativas para o crescimento anual permanece em 2,5% para os próximos anos, com os mais otimistas mantendo a previsão de 3,5%. Como usual desde 2011, as expectativas de expansão do PIB para o ano seguinte formuladas em dezembro superam as projeções para o ano corrente. Em geral, a expectativa de crescimento para o ano seguinte pouco se altera durante a maior parte do ano, enquanto as projeções para o ano corrente são revisadas recorrentemente para baixo.

No presente contexto, é possível atribuir uma probabilidade significativa dessa dinâmica se repetir em 2020, com o atual consenso de mercado tornando-se muito otimista. A profunda recessão dos últimos anos e a lenta retomada permitem classificar a atual década como perdida, dado que o crescimento médio per capita dos anos 2010 será próximo a zero. A denominação faz mais sentido para esta década do que para os anos 1980, quando as condições globais eram menos favoráveis, com crise do petróleo, inflação elevada e taxas de juros muito altas.

Nunca esperei forte aceleração da atividade durante o governo Temer e tampouco no governo Bolsonaro, apesar das políticas corretas defendidas por seus times econômicos. A história ensina que, com exceção da retomada após a recessão entre 2008 e 2009, a forte recuperação foi sempre capitaneada pelo setor manufatureiro exportador.

Dada a pauta de exportações do Brasil, concentrada em commodities, e uma indústria manufatureira distante das cadeias globais e com uma participação no PIB bem menor do que no passado, era relativamente claro que a atual recuperação seria mais gradual do que as anteriores. Não estou entre aqueles que prevê uma aceleração significativa do crescimento do PIB nos próximos anos. Ao contrário, o risco de o Brasil não conseguir se livrar da armadilha do baixo crescimento é relevante.

A elevação do crescimento potencial nas próximas décadas será um desafio bem maior do que a maioria quer supor, seja no que se refere a questões estruturais, como a pouca evolução da qualidade do capital humano, seja nos aspectos conjunturais, como a forte vulnerabilidade fiscal. Apesar dessa leitura menos construtiva, sempre me surpreende a velocidade com que alguns participantes de mercado saem de um otimismo injustificado para um pessimismo exagerado e vice-versa.

Não partilho da recente onda de enorme pessimismo sobre a situação da atividade e do mercado de trabalho. Nas últimas semanas, analistas de mercado, entre os quais alguns que previam há poucos meses uma rápida recuperação da atividade e uma expansão econômica prolongada superior a 2,5% ao ano, passaram a debater a possibilidade de o país estar atravessando uma depressão.

A terminologia até que faz sentido quando se verifica que a recessão entre 2014 e 2016 foi a mais profunda em várias décadas. Não obstante, as depressões possuem, em geral, características que não estão presentes agora no Brasil. A rede de programas sociais torna os impactos da forte alta do desemprego menos drásticos do que os associados a depressões típicas.

Do mesmo modo, uma parte significativa das depressões é acompanhada por crises financeiras, o que está longe de ser o caso aqui. Do mesmo modo, desde o fim da recessão, espero que a redução da taxa de desemprego seja bastante gradual, compatível com uma retomada lenta. Por ora, é isso que vem ocorrendo. Não há nenhuma indicação de uma alta duradoura da taxa de desemprego.

Da mesma forma, é prematuro prever a elevação permanente do desalento desejo de ter um emprego, mesmo após desistência da busca por essa vaga. Em um ambiente em que o mercado de trabalho é concentrado em postos que exigem baixa especialização, não parece razoável prever que a pouca qualidade da mão de obra incapacitará a empregabilidade de uma parcela significativa de trabalhadores nos próximos anos.

Não houve nenhuma revolução na economia para alterar substancialmente a demanda por trabalho. Os três Poderes têm condições de contribuir de forma determinante para evitar cenários desfavoráveis para a atividade e para o mercado de trabalho. No que se refere ao Executivo, cabe ao presidente abraçar os projetos da sua equipe econômica, defendê-los junto à sociedade e negociá-los com os congressistas para que sejam aprovados na maior extensão e no menor tempo possíveis.

Não é uma tarefa simples, mas é a única esperança no curto prazo.

Nilson Teixeira,Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilvânia, escreve quinzenalmente neste espaço Elevação do crescimento potencial nas próximas décadas será um desafio bem maior do que a maioria quer supor

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