Cúpula vazia comprova a vocação para irrelevância política do bloco

Cúpula vazia comprova a vocação para irrelevância política do bloco

A reunião de cúpula dos países do Brics foi um retrato â perfeição da irrelevância política do bloco, composto porpaíses díspares com agendas próprias, muitas vezes contraditórias. Esse é um problema de origem do grupo, surgido em 2006 ainda sem o `tijolo` Áfrí ca do Sul, adicionado em 2011.

Sua inspiração foi um golpe publicitário do economista britânico Jim 0´Neill, que em 2001 havia escrito um artigo entusiasmado sobre a ascensão de mercados fora dos eixos tradicionais de comércio, sugerindo a sigla ainda sem a participação de Pretória.

Unindo a potencialidade emergente dos países a características como seus tamanhos (eram conhecidos como `baleias`), era colocada a possibilidade de novas cadeias produtivas e de trocas globais.

Não por causa da formalização do Brics, mas como motivo antecedente, o salto quântico que a China deu na época ajudoua puxara sensação de que a ordem dominada pelos Estados Unidos desde o pósguerra estava questionada. O boom das commodities, que durou até a crise global de 2008, alimentou o crescimento brasileiro na década.

Isso dito, a China é incomparável mesmo com sua mais próxima rival econômica no grupo, a índia. Militarmente, a Rússia de Vladimir Putin ainda é a força mais eficaz, não menos por ter herdado o arsenal atômico soviético da Guerra Fria.

A África do Sul é uma potência regional, assim como o Brasil, ambos na periferia mundial. Durante os anos dourados das commodities, o lulismo no poder fez bom uso da retóricatriunfalista de um mundo pós-EUA no qual seu lugar estaria garantido.

Era tudo retórica, como se sabe. A reunião encerrada nesta quinta {14) demonstrou o limite daquele falatório: é preciso muito boa von tade para achar que um comunicado do Brics tem alguma `envergadura global` como os temas que o Itamaraty viu colocados nele. A percepção atravessa fronteiras. `Sempre foi uma organização muito estranha para nós. Não é tão relevante, embora possibilite um fórumpara encontros bilaterais frutíferos`, diz o analista russo Ruslan Pukhov, do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias de Moscou. Há incongruências básicas.

Moscou e Pequim, países com rivalidades estratégicas seculares, hoje são aliados nocampo bélico e buscam uma voz unificada contra os EUA de Donald Trumpomodelo de país do anfitrião da festa atual, opresidente Jair Bolsonaro. Com efeito, foi um balão de ensaio esvaziado de saída a únicanotícia importante que seinsinuounestepar de dias: a bobagem dita e desdita por Paulo Guedes(Economia) sobre um onírico acordo de livre-comércio com a China, Mesmo o instrumento mais prático do bloco, o banco de desenvolvimento NDB, é subutilizado no Brasil. Talvez isso mude com a abertura de um escritório dele no país.

Avanço s estão em curso justamente nas relações bilaterais apontadas por Pukhov, como abandono da resistência ideológica à ditadura comunista por parte de Bolsonaro e os `cruzados` que dominam o Itamaraty, mas não é o caso de fantasiar demais.

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