Crise entre militares e governo é inédita no Brasil e remonta a episódio da ditadura militar, diz analista

Crise entre militares e governo é inédita no Brasil e remonta a episódio da ditadura militar, diz analista

20:35 - Segundo Alcides Vaz, é a primeira vez na história que toda a cúpula das Forças Armadas pede demissão; saída de Sylvio Frota gerou crise em 1977.

O ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, Alcidez Vaz, vê a demissão da cúpula das Forças Armadas do governo federal como um episódio sem paralelo na história e que marca um afastamento dos militares do presidente Jair Bolsonaro. Para Vaz, a crise institucional gestada por Bolsonaro remonta ao período da ditadura em 1977, quando o presidente Ernesto Geisel demitiu o ministro Sylvio Frota. Frota, que na ocasião mirava a Presidência da República e era contra a proposta de abertura gradual de Geisel.

— Estamos diante de algo inédito e sem precedentes. A gente poderia de alguma forma evocar a demissão do ministro do exército Sylvio Frota. Mas com as ressalvas de que os paralelos são poucos, já que foi a saída de um ministro e não de toda cúpula militar. Agora, o assunto é de política doméstica e envolve a relação das Forças Armadas com o governo, ao passo que naquela época a discussão era sobre a redemocratização. Era o Geisel querendo empurrar um processo de abertura, ao passo que o Sylvio Frota era francamente contra — afirma Vaz, que também é professor do instituto de Relações Internacionais da UNB.

Para o professor, a postura dos líderes militares é sintomática de que as Forças Armadas não querem se envolver com a política, tampouco estão dispostos a endossar medidas extremas como estado de sítio ou estado de defesa. Ele afirma, ainda, que outros fatores contribuíram também para o desgaste na relação entre a caserna e o presidente, como a gestão da pandemia, o que levaria a preocupação com a credibilidade e a imagem das Forças Armadas.

— A minha opinião é de que as lideranças militares estão fazendo uma reeleitura na relação com o governo Bolsonaro e devem buscar um afastamento. No entanto, não creio numa ruptura institucional. Mas as Forças Armadas não querem estar relacionadas a tudo que implique envolvimento institucional com estratégias políticas do governo, como no confronto com governadores, com o STF e com o Congresso. Esse tipo de tensionamento as Forças Armadas não querem e não devem comprar — afirmou o pesquisador.

O estudioso afasta a possibilidade de uma ruptura institucional pela gestão Bolsonaro nos mesmos moldes do que ocorreu no golpe militar de 1964. No entanto, pondera que os riscos para a democracia existem, embora hoje sejam de outra natureza.

— Não vejo risco de um golpe militar. Mas ameaças a democracia existem. Estão expressas nessa postura de desvalorização da normalidade democrática. A ideia de apropriação de um instituto como estado de defesa, um instrumento de exceção, é uma delas. Só pode ser invocado se tem ameça grave ao Estado. Suspender garantias e liberdades como resposta ao lockdown é uma contradição. Mas ele (Bolsonaro) não faz esse tipo de ponderação e quer usar como um recurso de confrontação. E se o ministro é contra, prefere trocar — afirma o professor.

O pesquisador avalia que é preciso acompanhar os discursos da nova cúpula das forças armadas, já que a tendência é que Bolsonaro busque quadros que estejam em sintonia com as suas posições. Ainda assim, Vaz acredita que os militares se mantenha como fiadores da postura de não se envolverem com política.

— O presidente quer lideranças mais responsivas e afinadas com ele. Não creio que seja tão fácil encontrar um Ernesto Araújo (ex-embaixador) no meio militar. A formação, a socialização e o ethos militar implicam numa valorização à instituição. Mas se houver, é grave. E denotaria uma divisão grave, uma cisão nas cúpulas.

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino