Crise desidrata ainda mais a indústria da Argentina

Crise desidrata ainda mais a indústria da Argentina

Recessão - Em quatro anos, 5 mil fábricas fecharam, sendo metade em 2019

A mais recente crise na balança de pagamentos da Argentina derrubou a economia numa acentuada recessão que está desidratando ainda mais o setor produtivo do país, em especial as indústrias automobilística, de maquinário e têxtil. A combinação de inflação de dois dígitos com forte desvalorização do peso trouxe incerteza para as empresas, com algumas optando por transferir parte da produção para fora cio país, enquanto outras estão paradas à espera de detalhes sobre o plano econômico do próximo governo.

O presidente Maurício Macri tomou posse no fim de 2015 prometendo investimentos para revitalizar o setor produtivo do país. Contudo, o saldo até agora de seus quatro anos de governo é o fechamento de ao menos 5 mil fábricas. A Argentina deve chegar ao Fim de 2019 com 50 mil fábricas, segundo a União Industrial Argentina (UIA). Neste período, entre 140 mil e 150 mil postos de trabalho na indústria desapareceram.

`Somente 2019 representa a perda de 40% do total cie empregos e cerca de 50% do fechamento de indústrias`, disse o diretor do Centro de Estudos Econômicos da UIA, Pablo Dragún.

Com o agravamento da crise a partir de agosto, a Argentina deve encerrar o ano com uma contração d o PIB cie até 3% este ano, após uma queda de 2,5% no ano passado. O colapso na atividade industrial pode ser ainda maior, de 5%, depois de uma queda de 4,3% no ano passado, segundo a UIA.

De janeiro a julho, a produção industrial argentina caiu 8,4% em comparação com igual período de 2018, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos. Entre os setores mais atingidos pela crise estão o automobilísitico, com queda acumulada de 26,3% no período, o de maquinaria (-14,3%), e a têxtil e de calçados (-13%).

Dois fatores principais estão por trás disso, diz Livio Ribeiro, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV). `O primeiro é um megachoque de preços relativos na Argentina, onde houve depreciação importante da taxa de câmbio e aceleração da inflação. Segundo, o país está em um momento de desorganização da estnitura social, com aumento da pobreza e indigência`, diz. `Paia um produtor, que pensa em produzir por um tempo razoável, este é um momento particularmente ruim porque o nível de incerteza é grande.`

A tendência, afirma Ribeiro, é a Argentina se voltar cada vez mais para setores nos quais tem vantagem competitiva, como petróleo, alimentos processados e carne. O automotivo, que está integrado a cadeias produtivas do Mercosul, deve continuar, apesar da queda da atividade e a transferência de linhas para países como Brasil.

A Honda, por exemplo, anunciou em agosto encerramento da produção de automóveis na Argentina, deixando no país apenas a fabricação de motos.

A MWM Engines também fechou a fábrica de motores em Córdoba e transferiu suas operações para do Brasil. No comunicado ao mercado, a companhia afirmou que, `apesar de várias iniciativas paia impulsionar a produção de motores e componentes, (...) a continuidade das operações da companhia se tornou inviável devido aos baixos volumes para satisfazer a demanda do mercado local`.

Mas a indústria automotiva argentina ainda vê alguma perspectiva no futuro, diz o diretor da Associação de Fabricantes de Automotores (Adefa), Fernando Canedo. `Acabamos de prorrogar um acordo com o Brasil até 2029 e muitas empresas estão em processo de desenvolvimento cie investimentos em segmentos complementares à indústria brasileira.`

Na Argentina são fabricadas as pick up Nissan Frontier e a nova da Renault na fábrica de Córcloba. A Volkswagen monta a SUV Tarok na planta de Pacheco, e a General Motors produzirá SUV em Rosário. `Estamos em plena execução de investimentos de USS 5 bilhões até o próximo ano para exibirão mercado em 2021d isse Canedo.

Empresas fornecedoras de material para a construção civil também sentem a crise que começou em 2018 como a gota d´ãgua de- |x>is de anos de um contexto macroeconôm ico co m mais baixos do que altos. A situação piorou desde setembro do ano passado. O índice cie atividade do setor de construção chegou a apontar uma contração de 20,6% em dezembro sobre igual mês do ano anterior. O dado mais recente, de agosto, mostra uma queda anual de 5,9%.

A empresa Loma Negra, filial da Camargo Corrêa, anunciou em agosto o fechamento de uma de suas fábricas, de Sierras Bayas, na província de Buenos Aires. A companhia informou que a unidade estava operando com ociosidade e requeria investimentos. O consumo de cimento na Argentina caiu 6,5% em agosto, comparado com igual período de 2018, segundo Instituto de Estatística e Registro da Indústria da Construção.

O cenário para as pequenas e médias empresas tampouco é favorável. Segundo Vicente Donato, diretor excecutivo da Fundação Observatório Pyme (Pequenas e Médias Empresas), 1 mil indústrias deste porte fecharam neste ano e outras seis mil estão ameaçadas por condições como falta de crédito e alta pressão tributária.

Uma das dificuldades que as empresas enfrentam na Argentina é a falta de financiamento, um problema que sucessivos governos não têm conseguido resolver. Sem crédito, as empresas não têm como investir.Também pesa sobre a atividade produtiva a elevada carga tributária, taxas de juros proibitivas e uma moeda fraca que encarece a importação de insumos. Soma-se a isso a inflação anual de quase 60%, que reduziu ainda mais o poder de compra do argentino.

Apesar do ambiente desafiador, Miguel Acevedo, presidente da UI A, d iz que é u m e n o pen sar que a Argentina ficará com meia dúzia de setores produzindo. `Nossa indústria é produtiva. Uma vez estabilizado o problema de macroeconomia do país, ela va i melhora r.`

Embora a crise atual seja profunda, a indústria local já passou por outros momentos difíceis e tende a se recuperar quan do o pior ficar para trás, afirma Bemard KosacofT, economista das universidades de Buenos Aires e Torcuato Di Telia. `Já estamos calejados`, brincou. `Fato é que há uma enorme lista de projetos de investimentos, liderado por Vaca Muerta, mas também no setor automotivo, esperando o fim da transição política para ser retomada.

Marina Guimarães e Marsílea

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