Crise de energia na China eleva expectativas de inflação no mundo

Crise de energia na China eleva expectativas de inflação no mundo

Crise se soma à escassez mundial de energia que pode frear a recuperação pós-pandemia

A China enfrenta dificuldades com a falta generalizada de energia, que já afeta a recuperação da segunda maior economia do mundo, cria novos riscos de paralisação das cadeias de fornecimento internacionais e intensifica a pressão inflacionária em todo o globo.

A crise de energia, em uma escala que não se via há mais de uma década, enfatiza como mudanças nas prioridades das políticas de Pequim, como seu esforço para reduzir as emissões de carbono, podem afetar uma economia mundial remodelada pela pandemia

“Haverá um efeito cascata”, disse Mike Beckham, cofundador e executivo-chefe da Simple Modern, que fabrica produtos como garrafas de água térmicas e mochilas e tem sede em Oklahoma. “À medida que começamos a compreender as ramificações do que acontece, percebemos que é possível que isso seja maior do que qualquer outra coisa que já vimos em nossas carreiras empresariais.”

Na semana passada, um dos principais fornecedores de Beckham, em Quzhou, no leste da China, foi informado pelo governo local de que só poderá operar quatro dias por semana, em vez dos seis dias habituais. Além disso, a fábrica agora precisa respeitar um limite de consumo de energia, o que reduz sua capacidade de produção em cerca de um terço. Beckham prevê que os preços de varejo de muitos produtos nos EUA podem subir até 15% na próxima primavera (fim do primeiro trimestre de 2022), uma vez que a demanda de consumo continua forte.

A falta de energia é reflexo de uma combinação de fatores. Os preços do carvão deram um salto com a escassez de oferta interna, agravada pelos cortes nas importações da Austrália e da Mongólia. Isso obrigou as usinas a reduzir a geração de eletricidade para evitar perdas por causa dos controles impostos sobre os preços de venda.Enquanto isso, Pequim tenta impor metas de eficiência energética, o que levou à aprovação
pelo governo de cortes no uso de energia para alguns setores.

Ao mesmo tempo, a demanda por eletricidade disparou na China desde o fim das quarentenas provocadas pela pandemia, em abril de 2020, à medida que as fábricas aumentaram a produção para atender à demanda de consumo crescente no Ocidente.

A crise na China se soma a uma escassez mundial de energia que pode até comprometer a recuperação pós-pandemia.A disparada da demanda, condições climáticas mais extremas e um déficit na produção fizeram disparar os preços do gás natural. A alta afetou a produção das fábricas europeias e as contas de energia das famílias. Também gera um temor na Europa e nos EUA sobre se a oferta cada vez menor será suficiente para alimentar suas economias durante o inverno.

Recentemente, o governo do Reino Unido interveio com subsídios para reabrir uma fábrica de fertilizantes que fechara por causa dos custos crescentes de energia. Trata-se da principal fornecedora de dióxido de carbono do país, um subproduto essencial no processamento de alimentos. O governo francês informou na semana passara que proibirá qualquer aumento nas contas de gás e eletricidade das famílias até a primavera. A crise energética na China também traz o risco de ampliar ainda mais a pressão sobre as cadeias de fornecimento globais ao elevar os preços de matérias-primas e componentes essenciais.

“Os mercados internacionais sentirão a pressão da escassez de oferta, desde tecidos e brinquedos até peças de máquinas”, escreveu Ting Lu, economista-chefe para a China da Nomura, em nota a clientes na semana passada. Ele acrescentou que o choque de oferta resultante deve aumentar ainda mais a inflação mundial, especialmente em mercados desenvolvidos, como os EUA. Os cortes de energia atingiram partes das bases manufatureiras da China, inclusive as que produzem bens relacionados a semicondutores. A escassez mundial de semicondutores neste ano já prejudicou fabricantes de automóveis e outros setores.

Na semana passada, algumas áreas residenciais no nordeste da China sofreram apagões de várias horas. Até os semáforos foram desligados. As fábricas nas regiões manufatureiras receberam ordens de reduzir seu horário de funcionamento ou até mesmo fechar por uma semana. Segundo a IHS Markit, na terça-feira, 22 das 34 unidades administrativas de nível provincial da China tinham sofrido com medidas de interrupção de energia em diferentes graus.

Na semana passada vários bancos reduziram a previsão de crescimento da China para este ano, de 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para 8%, ou até abaixo disso, e citaram a escassez de energia como outra ameaça ao crescimento.

Muitos economistas preveem que Pequim relaxará sua política monetária para estabilizar a economia, à medida que a China avança para um 2022 politicamente importante, quando se realizará o Congresso do Partido Comunista — evento que ocorre a cada cinco anos —, em que o presidente Xi Jinping pode estender seu mandato como dirigente máximo da China.

No ano passado, Xi prometeu que o país atingiria o pico de emissões de carbono antes de 2030, uma meta que resultou em iniciativas abrangentes para conter o consumo de energia. Ela afetou a produção chinesa de carvão, que já era intermitente por causa de uma onda de acidentes em minas. Quase 60% da energia elétrica da China é gerada pela queima de carvão.

“A indústria do carvão sofrerá restrições continuamente por inspeções ambientais e de segurança”, avaliou a empresa do setor Shougang Fushan Resources Group, que fica na maior província produtora de carvão da China. “A escassez na oferta de carvão, especialmente do carvão metalúrgico, não pode ser mitigada em um curto período de tempo.” Alimentada pelo boom econômico da China, a demanda por carvão no início deste ano cresceu cerca de 20%, na comparação anual, antes de cair para menos de 10% nos meses mais recentes, segundo dados oficiais. Em comparação, a oferta de carvão variou entre contração em alguns meses e aumentos de menos de 10% em outros.

Em algumas províncias, metas de eficiência energética mais estritas também contribuíram para a redução do consumo de energia. O déficit interno de carvão piorou com um veto não oficial da China às importações de carvão da Austrália — um grande fornecedor do país — desde o fim do ano passado, depois que o governo australiano defendeu uma investigação internacional independente sobre as origens da covid-19. Em geral, as importações da Austrália e de outros países respondem por até 10% do consumo de carvão da China.

Além disso, o fornecimento abaixo do normal de energias renováveis agravou o problema da oferta de eletricidade em algumas províncias. As usinas hidrelétrica de Yunnan, no sudoeste, foram afetadas pela seca neste ano. No nordeste da China, a produção dos parques eólicos foi extremamente baixa por alguns dias por causa das condições atmosféricas.

A escassez de energia também se deve em parte à política rígida de preços da eletricidade, segundo Dan Wang, economista do Hang Seng Bank em Xangai. O governo chinês mantém um teto do quanto as concessionárias podem aumentar os preços da eletricidade, que são baixos para os padrões mundiais. Isso reduziu o apetite das usinas geradoras diante da forte alta dos preços do carvão.

Cerca de 70% das usinas termelétricas a carvão no país sofreram perdas em junho por causa da alta dos preços do insumo, estima o Conselho de Eletricidade da China, que representa as geradoras. Várias regiões, como Xangai, Sichuan e Mongólia Interior, relaxaram os limites máximos das tarifas na rede, que são pagas pelas empresas às usinas de energia. Desde sexta-feira, os usuários industriais do centro de manufatura da província de Guangdong precisarão pagar até 25% a mais para usar eletricidade nos horários de pico.

“Este é um momento de choque do sistema, tanto para as autoridades quanto para as empresas”, disse David Fishman, da consultoria de energia Lantau Group, em Shenzhen. Para ele, aumentar a oferta de gás e carvão são soluções de curto prazo, e Pequim precisa pensar em diversificar suas fontes de energia no longo prazo. (Colaboraram Jason Douglas e Paul Ziobro)

Por Stella Yifan Xie, Sha Hua e Chuin-Wei Yap

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