Crédito e crescimento econômico

Crédito e crescimento econômico

Vamos começar usando os dados agregados de crédito divulgados pelo Banco Central na sua `Nota para Imprensa sobre Crédito`. Segundo esta fonte de informações, o indicador crédito total/PIB atingiu 55,1%, o ponto máximo da série histórica, em setembro de 2015 e caiu para 47,7%, em dezembro de 2018; uma redução, portanto, equivalente a 7,7 pontos percentuais do PIB (grosso modo, um montante equivalente a R$ 530 bilhões deixou de impulsionar a economia).

Sendo assim, não é de estranhar que o PIB tenha apresentado nos últimos anos um desempenho pífio (evidentemente que o crédito não é a única variável explicativavide artigo publicado do Valor, em 29 de julho de 2015, com o título `It´s the leverage, tovarich!`). Deslocando agora a análise para uma abordagem desagregada, isto é, observando a carteira de crédito dos principais bancos podemos constatar o que segue.

Em primeiro lugar, os três grandes bancos públicos Caixa Econômica Federal, BNDES e Banco do Brasil apresentaram forte contração das suas respectivas carteiras de crédito, seja por uma determinação de gestão do governo federal (caso do BNDES que devolveu ao Tesouro Nacional quase R$ 300 bilhões desde 2015), seja por limitações de balanço, caso da Caixa cujo indicador `ativos totais sobre patrimônio líquido` atingiu 40,6 vezes (considerando apenas o capital `Tier 1`).

Note-se que como a Caixa sempre foi um grande financiador do mercado imobiliário o impacto sobre este ramo de atividade foi significativo.

A carteira total de crédito do Banco do Brasil, em dezembro de 2014, era da ordem de R$ 428 bilhões e, em dezembro de 2018, eqüivalia a R$ 41G bilhões, uma redução nominal de 3 % (num período em que a variação do IPCA foi de 25,7%).

Observando evolução da carteira de crédito dos três maiores bancos privados Itaú, Bradesco e Santanderno mesmo período (2015/2018) podemos constatar um comportamento diferente entre o crédito voltado para a pessoa física e aquele voltado para a pessoa jurídica.

Sempre considerando as datas de dezembro de 2014 e dezembro de 2015, e sempre considerando apenas a carteira de crédito pessoa física, vemos que no caso do Itaú o montante cresceu de R$ 18G bilhões para R$ 211 bilhões, uma variação nominal de 13,4%.

No caso do Bradesco, o montante cresceu de R$ 140,3 bilhões para R$ 193,7 bilhões, uma variação nominal de 38,1 %. E, por fim, no caso do Santander, o montante cresceu de R$ 78,3 bilhões para R$ 132,6 bilhões, uma variação nominal de 69,4%.

Ou seja, a somatória das três carteiras cresceu de R$405 bilhões para R$536,3 bilhões, uma variação de 32,8%, concentrada principalmente em crédito consignado e imobiliário. O panorama da evolução da carteira de crédito de pessoa jurídica é completamente diferente (sempre considerando as datas de dezembro de 2014 e dezembro de 2 015).

Vemo s que no caso do Itaú, o montante diminuiu de R$ 286 bilhões para R$ 224 bilhões, uma variação nominal negativa de 21,7%. No caso do Bradesco, o montante cresceu de R$ 206 bilhões para R$ 214 bilhões, uma variação nominal de 3,7% (aqui é preciso recordar que neste período o Bradesco comprou o HSBC).

E no caso do Santander, o montante caiu de R$ 130,4 bilhões para R$ 122,6 bilhões, uma variação nominal negativa de 6,1%. Ou seja, a somatória das três carteiras caiu de R$ 622,7 bilhões para R$ 5 60,7 bilhões, uma variação negativa de 10,0%, concentrada principalmente no crédito para grandes empresas.

Esse comportamento bastante negativo da carteira de pessoas jurídica se explica, em boa parte, pela `onda` de sinistros de crédito em empresas de grande porte, onde o valor médio emprestado alcança a casa de centenas de milhões de reais.

Apenas lembrando alguns nomes, que tiveram destaque na imprensa, como OGX, Sete Brasil, OAS e outras grandes empreiteiras. Tudo isso sem contar as inúmeras renegociações de dívidas que resultaram em expressivas reduções do montante devido como no caso da Oi e da editora Abril (ainda em curso, segundo noticiário recente).

No mesmo período, os bancos tiveram que buscar adequação de capital, visando o enquadramento nas regras da Basiléia 3, o que foi efetivamente alcançado (segundo relatório da Standard & Poor´s datado de 29 de janeiro deste ano).

Observações finais: 1) a contração das carteiras dos três maiores bancos foi parcialmente compensada pelo incremento da emissão de debêntures, mas é preciso lembrar que o acesso a este mercado é reservado a empresas de maior porte; 2) se lã no final de 2015 a preocupação era a necessária redução da alavancagem dos agentes econômicos (famílias, empresas e o próprio governo) agora existe um potencial efeito positivo se os mesmos agentes econômicos resolverem por ampliar suas carteiras, emprestando e tomando emprestado e 3) este movimento é particularmente importante no caso da pessoajurídica já que o efeito `propagação`, digamos assim, é observado via investimento.

O crescimento econômico é fenômeno complexo, mas no horizonte de um ou dois anos creio que esta deverá ser a variável chave para um melhor desempenho da economia brasileira. Jorge Simino é diretor de investimentos e patrimônio da Fundação Cesp E-mail: jorge.simino@funcesp.com.br Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico.

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