Cotado para assumir Itamaraty, Serra é visto por colegas como 'bolsonarista linha dura' e suscetível ao clã presidencial

Cotado para assumir Itamaraty, Serra é visto por colegas como 'bolsonarista linha dura' e suscetível ao clã presidencial

18:28 - Diplomatas dizem que ele não deve ser considerado membro da ala ideológica do governo, mas é pessoa próxima da família Bolsonaro. "Vejo uma continuidade mais moderada e menos idelógica", afirma colega.

A trajetória profissional do embaixador Luís Fernando Serra, principal cotado para assumir o Itamaraty no lugar de Ernesto Araújo, ganhou novos rumos há pouco mais de três anos, quando, como embaixador na Coreia do Sul, ciceroneou o então deputado federal Jair Bolsonaro e seus filhos, Eduardo, Carlos e Flávio durante um périplo do clã pela Ásia. Comenta-se no Itamaraty que a sintonia entre o embaixador e a família Bolsonaro foi tão boa que, uma vez eleito, o presidente o teve com favorito para comandar a pasta de Relações Exteriores.

Serra chegou a se reunir duas vezes com Eduardo durante a transição entre os governos Michel Temer e Bolsonaro. Era dado como certo, mas o escolhido foi Araújo, que pediu demissão nesta segunda-feira.

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Serrinha, como é conhecido entre os colegas, foi enviado para a embaixada do Brasil na França —para muitos, um prêmio de consolação. Se voltar a Brasília, não terá que mostrar apenas aos congressistas e a outros críticos da política externa brasileira que foi a melhor escolha neste momento. Um de seus principais desafios seria convencer seus próprios colegas que o presidente não trocou seis por meia dúzia.

O embaixador cotado para ministro das Relações Exteriores não é "olavista" — denominação dada aos discípulos do escritor Olavo de Carvalho, mas é considerado bolsonarista linha dura e chamado, por alguns colegas, de "viúva do regime militar".

Embaixadores já aposentados que o tiveram como subordinado no posto de ministro-conselheiro, entre outros, o definem como um "bom profissional", mas lamentam que ele tenha se tornado, nos últimos dois anos, "um bolsonarista radical, o que não é um bom sinal".

No Itamaraty, espera-se uma continuidade se ele assumir. O embaixador cumpriria à risca as orientações do Palácio do Planalto, só que com um estilo mais moderado e sem presença assídua nas redes sociais.

Antes de chegar a Paris, o embaixador, que ingressou no Itamaraty em 1972, chefiou as embaixadas do Brasil em Gana (seu primeiro posto com embaixador, entre 2006 e 2011), Burkina Faso, Singapura e Coreia do Sul. Faltando pouco para sua aposentadoria, a embaixada na França era, para muitos, uma despedida da carreira com broche de ouro.

Na França, notabilizou-se por atritos com o governo de Emanuel Macron e parte da imprensa francesa. Foi chamado de negacionista nos temas ligados ao meio ambiente, aos direitos humanos e à pandemia de Covid-19. Enviou cartas a jornais como o Le Monde e o Le Figaro para questionar reportagens e editoriais sobre o Brasil.

Telegramas divulgados pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que o embaixador enviou cartas à direção do jornal francês Le Figaro criticando, pessoalmente, o trabalho do seu correspondente no Brasil por artigos sobre o desmatamento e as queimadas na Amazônia e a resposta do governo brasileiro à pandemia. Para criticar o jornalista, Serra o acusou de se informar somente por meio da "esquerda caviar".

"O senhor Leclercq, uma vez mais, persiste em hábito de recolher informações apuradas somente em um lado, de não ter mais que uma fonte: a esquerda caviar do Rio de Janeiro", disse a carta em referência ao jornalista Michel Leclercq.

Em 2019, Bolsonaro trocou farpas publicamente com Macron, quando o mandatário francês criticou a expansão do desmatamento da Amazônia. O presidente brasileiro também causou desconforto ao compartilhar, em uma rede social, um comentário sobre a primeira-dama daquele país, com uma montagem com fotos de Brigitte Macron e Michele Bolsonaro, esposa de Bolsonaro.

No ano passado, Serra também agradou a família presidencial ao se mostrar indignado pela atenção que a França deu e continua dando ao atentado contra a vereadora Marielle Franco. O embaixador chegou a reclamar pelo fato de o assassinato de Marielle ter mais espaço na mídia francesa do que o homicídio do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, ou a facada contra Bolsonaro.

Segundo uma fonte consultada, "essa bagagem não favorece uma retomada de diálogo com a França". A rixa entre os chefes de Estado foi sucedida por uma campanha permanente do governo francês contra o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia (UE).

Serra é considerado um diplomata hábil, pragmático e de perfil conservador. Teria capacidade e conhecimento para recompor relacionamentos estremecidos por seu antecessor, mas tudo dependeria das pressões por parte do Palácio do Planalto.

Reconstruir pontes com a China, por exemplo, não seria difícil para o embaixador, que conhece bem a Ásia. O problema, apontaram alguns diplomatas, seria a orientação política que Serra receberia e à qual seria totalmente fiel. "Ele é alinhado à família Bolsonaro, professa uma ideologia de direita, e está há algum tempo afastado do mundo institucional do Itamaraty. Tem, portanto, pouco contato com os desafios institucionais mais graves", comentou outra fonte diplomática.

Também há dúvidas sobre a melhora das relações entre o governo e o Parlamento. Para alguns, a chegada de Serra não mitigaria o embate entre Presidência e Congresso sobre política externa. Poderia, no máximo, abrir uma trégua.

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