´Copom deu um cavalo de pau no debate sobre Selic´

´Copom deu um cavalo de pau no debate sobre Selic´

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central adotou uma mudança significativa de discurso e surpreendeu quem esperava uma indicação clara sobre o fim do ciclo de corte de juros. De forma mais categórica, o sócio fundador da Novus Capital, Luiz Eduardo Portella, afirma: o Copom deu cavalo de pau na discussão.

`Antes, eleestavaolhando para a assimetria do crescimento e indicava que a recuperação poderia ser mais rápida que a esperada. E, de fato, todo mundo revisou projeções para o PIB de -7% ou -8% para -4% ou -5%. Agora, fica a impressão de que não está olhando tanto a retomada da atividade ou o risco fiscal, mas os dados de inflação. Ficou um comunicado um pouco confuso`, afirma Portella.

Para ele, os riscos de o aumento de gastos realizado no combate à pandemia transbordar para os próximos anos está no radar. Mas essa questão tem pouco impacto sobre os preços dos ativos porque o mercado está sob efeito da `morfina` dos estímulos monetários e fiscais que se vê em todo o mundo.

`Com a quantidade de estímulo monetário que está sendo dado pelo banco central americano, e com o estímulo fiscal que se vê no mundo, o mercado fica mais leniente com essas notícias no curto prazo`, diz Portella.

Valor: O comunicado do Copom surpreendeu ao indicar ainda espaço para corte, mesmo que pequeno?

Luiz Eduardo Portella: Eu achei que o Copom deu um cavalo de pau na discussão. Antes, ele estava olhando para a assimetria do crescimento e indicava que a recuperação poderia ser mais rápida que a esperada. E, de fato, todo mundo revisou projeções para o PIB de -7% ou -8% para -4% ou -5%. Agora, fica a impressão de que não está olhando tanto a retomada da atividade ou o risco fiscal, mas os dados de inflação. Ficou um comunicado um pouco confuso. O Copom elevou a barra para novos cortes, mas ainda manteve essa possibilidade em aberto. Além disso,já começa a falar que é improvável uma alta de juros, meio que em uma tentativa de fazer um `forward guidance`.

Valor: Qual éa leitura sobre a sinalização do Copom de que não antevê redução dogra u de estímulo?

Portella: Normalmente, você faz um `forward guidance` depois que encerrou o ciclo cie corte de juros. Mas não ficou claro que encerrou porque deu margem para expectativa de queda. E, ao mesmo tempo, já começa a falardos cenários futuros para possível alta de juros. A impressão é que o Copom quer encerrar o ciclo e quis passar um `forward guidance` de Selic estável ou pouco abaixo no horizonte relevante, por questões prudenciais de estabilidade financeira. Mas não passou confiança no cenário. Na verdade, passou muita incerteza sobre a retomada da atividade e a trajetória de inflação.

Valor: Ao deixar a porta aberta para novos cortes e sinalizar juro baixo por um bom tempo, o Copom minimiza os riscos fiscais?

Portella: Essa parte é um pouco confusa também. O Copom fala da preocupação com o efeito fiscal dos programas de auxílio emergencial, mas também ressalta a incerteza sobre o ritmo de crescimento após o fim desses programas, Mas não dá para ficar preocupado com fiscal e, ao mesmo tempo, ficar preocupado com efeito do fim do auxílio emergencial. Até o BC parece estar sob efeito da `morfina` da liquidez global, ao relativizar os riscos fiscais e deixar a porta aberta para mais corte.

Valor: Como o mercado está enxergando o risco fiscal neste momento, em quehá umapressãopara aumento dos gastos públicos? Portella: Esse é um tema muito importante. Agente está com juro nas mínimas históricas por causa da âncora fiscal, principalmente do teto dos gastos. Por isso as discussões sobre não deixar transbordar o aumento dos gastos para os próximos anos é muito importante para os mercados. Agora, o mundo todo está fazendo [ aumento de gasto] fiscal, inclusive os Estados Unidos estudam um novo paço te de US$ 1 trilhão. Mas acho que na virada do ano o mercado vai voltara focar nisso. Se os emergentes não vierem com melhora mais rápida da economia no início do ano que vem, o mercado pode começar a questionar o equilíbrio.

Valor: Quando o mercado pode ter esse choque de realidade sobre riscos doaumen to brutal degfistos?

Portella: O orçamento é a primeira discussão importante. Isso vai começar agora. Tem que ver também o que vai ser do Renda Brasil. Mas o mercado trabalha com expectativas e, por enquanto, está tudo dentro da expectativa. O aumento da dívida bruta deve ser de 93%, na nossa projeção. E todo mundo trabalha com a idéia de que o déficit fiscal começa a se reduzir fortemente no ano que vem. Então, a chave para começar a olhar o fiscal deve vir no ano que vem. Será que a gente vai sair de um déficit de 11% do PIB para 2% ou 3% no ano que vem? O orçamento é o primeiro passo para isso, o mercado va i começar a olhar.

Valor: Mas claramente há uma pressão dentro do governo para burlar o teto de gastos. Baseado em quê o mercado dá esse voto de confiança de que o aumento dos gastos ficará restrito a este ano?

Portella: Acho que é a morfina: muito estímulo fiscal, muita liquidez no mundo. Com a quantidade de estímulo monetário que está sendo dado pelo banco central americano, e com o estímulo fiscal que se vê no mundo, o mercado fica mais leniente com essas notícias no curto prazo. Eu acho que quando a gente tiver uma correção externa, todas essas notícias ruins vão fazer preço. Além disso, ainda nâo saiu nada concreto, todo mundo acredita muito que a equipe econômica não vai deixar mexer no teto, que é o grande pilar fiscal, e acha que é tudo ruído. Então, acho que esse assunto vai fazer preço quando deixar de ser ruído para virar algo concreto, ou quando o mercado internacional piorar, passar por uma correção.

Valor: Quaí é o mercado que reflete melhor esses riscos todos?

Portella: Acho que é a curva de juros que melhor reflete esse risco fiscal. A curva está muito inclinada. Enquanto a Selic está caminhando para 2%, o juro longo está perto de 7%, no caso do vencimento para 2031. A bolsa vai olhar mais o crescimento de curto prazo. E tem um fluxo que a gente está vivendo no Brasil, das pessoas saírem da renda fixa e irem para a bolsa por causa do juro baixo. Da mesma forma que tem uma saída de recursos de dólares. Acho que a bolsa é o mercado que vai sofrer menos com essa questão.

Valor: Diante do risco fiscal que não está precificado e outras incertezas, qual é a estratégia de investimento mais adequada?

Portella: Continuamos gostando da bolsa, não só da bolsa local, mas das bolsas globais. A quantidade de estímulo global é algo que nunca vimos antes. Está muito maior do que em 2008, não só o estímulo monetário, mas o fiscal também. E com a reabertura da economia em um cenário de juro zero no mundo, há espaço para valorização. Não temos uma projeção específica, mas acreditamos que, no Brasil, a bolsa volta para as máximas, os 120 mil pontos até o fim do ano, puxada pelas bolsas globais. É a combinação de muito estímulo, juro baixo e migração de investidores para bolsa.

Valor: A renda fixa ainda traz oportunidades?

Portella: Na renda fixa, acreditamos que já acabou o prêmio. O ciclo de redução da Selic segue bem perto do fim. Então, a curva de juros Fica sem prêmio |nos vencimentos de curto prazo]. E ficar `vendido` no Dl j taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro j longo é muito arriscado devido ao risco fiscal. Por isso, preferimos ficar mais exposto na bolsa e até usar o mercado de renda fixa como hedge de ficar `tomado` em juro como hedge para ter posição maiorem bolsa.

Valor: A estratégia de dólar forte como hedge mudou ?

Portella: Todo mundo usava o dólar como hedge, mas o dólar subiu bastante e a avançou junto com o dólar globaL As contas externas estão mais ajustadas, e vamos ter um superávit cm conta corrente. A balança está melhor que o esperado. E o dólar global está virando. O ciclo de dólar forte que dura em média de sete a dez anoso último começou em 2008 e dura até agora está terminando. Pode ver que tem um movimento forte no euro, na moeda da Austrália e nas moedas do G-10.

Sob efeito de morfina da liquidez global, mercado fica mais leniente com notícias negativas da cena fiscal`

Portella, da Novus Capital: BC passou muita incerteza sobre a retomada da atividade e a trajetória de inflação

Lucas Hirata e Lucinda Pinto

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