COP26: Governo cogita proposta mais ambiciosa de redução de emissões

COP26: Governo cogita proposta mais ambiciosa de redução de emissões

Derrubar desconfianças e alterar a percepção sobretudo de negociadores americanos e europeus são desafios brasileiros para CoP 26

O Brasil espera aproveitar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (CoP 26) para desfazer a imagem de vilão ambiental construída nos dois primeiros anos do governo Jair Bolsonaro perante a comunidade internacional. Derrubar desconfianças e alterar a percepção sobretudo de negociadores americanos e europeus - além de mostrar que o país quer colaborar para um acordo que leve à efetiva redução as emissões de gases de efeito estufa - talvez sejam os maiores desafios do país no evento, que ocorre entre 31 de outubro e 12 de novembro em Glasgow, na Escócia.

Os ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente avaliam, inclusive, aumentar a oferta brasileira de redução de emissões como gesto de boa vontade durante a conferência. O país já se comprometeu a reduzir suas emissões em 37% até 2025 e 43% até 2030, em relação a 2005 - proposta já chamada de “manobra contábil” ambiental por especialistas. Uma ideia, ainda em gestação, é aumentar esse último índice a 45%, segundo apurou o Valor.

A percepção de que a imagem brasileira continua negativa cristalizou-se durante evento préCoP realizado em Milão, na semana passada. Membros do governo notaram que ainda é grande a desconfiança em relação à real disposição do Brasil de construir um acordo climático, em especial em conversas com Frans Timmermans, vice-presidente executivo da Comissão Europeia.

“O que talvez ainda ocorra com a Comissão Europeia é que eles ainda não perceberam que houve uma mudança na postura do Brasil em relação aos temas ambientais, inclusive de mudança do clima", disse ao Valor uma fonte a par do tema. “Há uma percepção equivocada quanto à postura que o Brasil vai ter nessa CoP. Ela será muito construtiva, nós queremos alcançar entendimentos. É do nosso interesse tanto do ponto de vista da nossa imagem no exterior quanto do ponto de vista interno.”

Essa mudança de atitude decorre de transformações no cenário internacional, mas também de pressões internas. Com a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump na eleição americana, a balança começou a pesar desfavoravelmente à postura refratária adotada por Bolsonaro nos dois primeiros anos de mandato. Internamente, pressões advindas dos setores mais modernos do agronegócio e também do Congresso também passaram a influenciar o presidente, que precisará ampliar sua base de apoio com vistas à reeleição no ano que vem.

O símbolo da mudança que o Brasil pretende explicitar na CoP foi a troca dos ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). Fontes afirmam que os sucessores Carlos França e Joaquim Leite, respectivamente, têm “mandato” do presidente para colocar o país em uma posição de contribuir para um acordo, não atrapalhar.

“Eles [europeus e americanos] veem o Brasil ainda com uma certa dúvida em relação à nossa capacidade de cumprir nossos compromissos. Mas isso ainda está muito alimentado por uma visão retrospectiva, que não leva em consideração as mudanças que houve tanto no Itamaraty quanto no Meio Ambiente", diz a mesma fonte.

O Brasil continuará cobrando das nações desenvolvidas os US$ 100 bilhões anuais prometidos há mais de uma década em financiamento climático aos países mais pobres. Entretanto, isso será feito de uma maneira diferente da utilizada por Salles.

Há entre representantes brasileiros na CoP a percepção de que a postura “show me the money” (“cadê o dinheiro”), como muitas vezes foi descrita a atitude do ex-ministro, não foi “a mais apropriada”, enquanto do ponto de vista de políticas públicas de combate ao desmatamento na Amazônia pouco se fazia

Uma metáfora usada por um interlocutor do governo é que “havia uma certa esquizofrenia entre pedir dinheiro para reformar a casa e não cuidar do imóvel, não limpá-lo nem lavar a louça”.

Os negociadores brasileiros vão realçar em Glasgow que Bolsonaro demonstrou disposição à mudança ao anunciar, em abril, o objetivo de eliminar o desmatamento ilegal até 2030, além de antecipar em dez anos a obtenção da neutralidade climática para 2050.

Porém, embora tenha havido substituições nas principais pastas ligadas ao acordo climático, a imagem do presidente brasileiro segue associada à devastação. Além disso, o desmatamento na Amazônia, que vinha crescendo, teve queda em julho e agosto, mas segue em patamar elevado.

Para as fontes ouvidas pelo Valor, não faz muito sentido que a Europa se associe a EUA, Rússia, Índia e China para isolar o Brasil na CoP 26, como vem sendo cogitado por negociadores estrangeiros. Em grande parte porque, na visão do governo brasileiro, os europeus têm interesses menos conflitantes apenas com os EUA, dentro desse grupo citado.

Os europeus avaliam que o acordo UE-Mercosul exacerba o antagonismo local em relação ao Brasil nas discussões climáticas, somado à ascensão dos verdes em diversos países do continente. A Comissão Europeia está elaborando um documento adicional, sem reabrir o acordo, que pode amarrar mais o Mercosul e sobretudo o Brasil com compromissos específicos sobre sustentabilidade, mudança do clima e implementação do Acordo de Paris.

O Itamaraty vem aguardando a conclusão e apresentação desse documento, mas não se espera que o país aceite necessariamente todos os seus termos. Tampouco há disposição para renegociar o que já foi acordado.

Para fontes do governo brasileiro, todos os países e regiões terão que lidar com esse novo enfoque da Europa, mais incisivo nas questões climáticas. Não só Mercosul.

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