Contestação a candidato americano aumenta pressão por adiamento da eleição para o BID

Contestação a candidato americano aumenta pressão por adiamento da eleição para o BID

05/08 - 10:20 - Indicação é vista como afronta à instituição, que sempre foi chefiada por representantes da América Latina; Brasil apoia americano, mas se diz 'comprometido com o diálogo'

RIO — A forte mobilização contra o candidato americano à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Mauricio Claver-Carone, dá força ao adiamento da escolha, marcada para os dias 12 e 13 de setembro. Além de romper a tradição do banco, que em seus 60 anos sempre foi chefiado por latino-americanos, a candidatura americana é vista como afronta à região, pela indicação para um órgão multilateral de cooperação de um cubano-americano considerado linha-dura e intransigente.

Nesta semana, os países europeus representados no banco e senadores democratas pediram oficialmente o adiamento das eleições para março, quando pode estar na Casa Branca Joe Biden, caso ele derrote Donald Trump em novembro.

Ontem, 21 ex-ministros brasileiros de vários governos assinaram um artigo, publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, no qual pedem aos 26 membros latino-americanos do BID e aos 22 países contribuintes — EUA, México, 16 nações europeias, Japão, China, Israel e Coreia do Sul — “que tomem a iniciativa de adiar a escolha do presidente do banco pelo período de seis meses”.

— A indicação de Claver-Carone, um extremista, é uma prova do descaso que o governo Trump tem com a região — afirma o ex-ministro da Fazenda e diplomata aposentado Rubens Ricupero, um dos signatários da carta.

Criado há seis décadas para ser um instrumento de desenvolvimento da região, o acordo negociado em 1959 pelo presidente Juscelino Kubitschek incluiu um compromisso “não escrito”, que deixava a sede do banco na capital americana, mas sempre sendo dirigido por latinos. O colombiano Luis Alberto Moreno está há 15 anos no comando do banco. No ano passado, o BID aprovou 106 projetos que somaram US$ 11,3 bilhões (R$ 59,7 bilhões ao câmbio de ontem).

— O presidente Trump está perdendo apoio eleitoral na Flórida e, para agradar a base de cubano-americanos e dos que têm ligações com a Venezuela, instrumentaliza e politiza a indicação ao BID — completa Hussein Kalout, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos no governo de Michel Temer.

Contando votos

Para o adiamento ocorrer, é necessário que 25% dos votantes não compareçam à votação — na pandemia, isso significa não se logar no sistema. Esta tese já tem o apoio explícito de ao menos 22,167% dos votos: 10,916% dos 16 europeus combinados e 11,354% dos argentinos (mesmo percentual que o Brasil tem no banco), que oficialmente não se comprometem ainda com o adiamento, mas veem o prazo extra com bons olhos.

O Brasil, que ensaiou no começo do ano uma candidatura inédita à presidência do BID, mas foi atropelado pelos americanos — que têm 30% dos votos — , já declarou seu apoio a Claver-Carone, assim como Colômbia, Equador, Paraguai, Uruguai, Honduras e Haiti. Assim, esses países não devem apoiar o adiamento. Em nota ao GLOBO, o Ministério da Economia reiterou o posicionamento recente de apoio ao americano. Porém, nas entrelinhas, deixou um espaço para alguma acomodação:

“Nesse contexto, o Ministério da Economia segue o processo de conformação do cenário eleitoral e mantém-se comprometido com o diálogo com os demais membros a respeito da sucessão presidencial na instituição”, afirma a nota.

– O Brasil não dialoga com seu próprio continente, não possui nenhum política para a América Latina – afirmou Kalout.

Assim, a chave para a prorrogação pode estar com japoneses (5% dos votos), canadenses (4%), ou mexicanos (7,299%). O governo do México havia declarado apoio ao candidato argentino, mas o presidente Andrés Manuel López Obrador tem boas relações com Trump, com quem não quer problemas. Outra opção é uma ausência em massa na votação de países caribenhos e da América Central. Peru (1,521% dos votos) e Chile (3,119%) também são incógnitas. A pressão americana é grande e há um temor de países menores de serem “perseguidos” caso apoiem a tese do adiamento, mas ela perder na apuração.

Além de Claver-Carone, os nomes de Laura Chinchilla (ex-presidente da Costa Rica) e do argentino Gustavo Béliz surgem como candidatos, ainda que não formalizados. O Brasil estava em processo de lançamento da candidatura do banqueiro Rodrigo Xavier — ex-presidente do UBS e do Bank of America no Brasil — e sonhava contar com o apoio dos EUA, mas abandonou a postulação depois de uma conversa entre os presidentes Trump e Jair Bolsonaro.

— O Brasil é um pouco responsável por isso. Primeiro por ter demorado muito em construir uma candidatura, depois por apresentar um nome difícil, desconhecido até mesmo dentro do país, sem relevância. E depois por ter apoiado de forma tão rápida o candidato americano, impedindo uma reorganização da região — afirmou Ricupero.

Procurado, o Itamaraty não se pronunciou.

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