Conflito embaça documento final

Conflito embaça documento final

Guerra entre China e EUA embaça o documento final do encontro

Se houver documento final no G20, será necessariamente fraco. A única perspectiva de entendimento entre chineses e americanos seria no encontro entre Xi Jinping e Trump. O problema é que eles se reunirão horas após o texto ser divulgado.

G20 vai do consenso para o dissenso

O governo argentino recebe as delegações que desembarcam no aeroporto de Ezeizapara a cúpula do G20 (sexta-feira, 30) com uma sedutora proposta: `a construção de consenso para um desenvolvimento equitativo e sustentável` Proposta sedutora mas dez anos atrasada: na primeira cúpula desse grupo das 20 maiores economias do planeta, de fato se construiu um consenso para enfrentar a crise que galopava velozmente. Funcionou: a ação do G20 foi essencialpara evitar que a recessão se transformasse em depressão, com as devastadoras conseqüências desse tipo de fenômeno. Dez anos depois, o máximo que os líderes do G20 podem alcançar no encontro em Buenos Aires é evitar que os dissemos se tornem ainda mais alarmantes.

Há discordâncias para diferentes paladares, a principal delas entre Estados Unidos e China, envolvidos em uma guerra comercial. Mas há também um encontro potencialmente desagradável entre o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que não hesitou em divulgar relatos sobre o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi que apontavam o dedo diretamente para o príncipe. Como se fosse pouco, o presidente russo, VíadimirPutin, resolveu tomar navios ucranianos, para irritação dos Estados Unidos e da Europa, atores centrais no G20.

Mas o foco do G20 que é a colaboração para discutir e, de preferência, resolver problemas econômicos está na guerra China x Estados Unidos. Até a tarde desta quartafeira (28), os negociadores, reunidos em Buenos Aires desde segunda (26), nem sequer tinham certeza de que haveria um documento final. E, se houver, será necessariamente fraco, vazio, pela simples e boa razão de que a única perspectiva de entendimento entre chineses e americanos seria no encontro entre o chinês Xi Jinping e o americano Donald Trump.

O problema é que os dois presidentes se reunirão em jantar no sábado (i°), horas depois de o documento final ter sido divulgado. Logo, qualquerquesejaoresultado do jantar a paz, uma simples trégua ou uma escalada no conflito não poderá influir no texto de Buenos Aires. Roberto Azevedo, diretorgeral da OMC (Organização Mundial do Comércio) e dono de vastíssima quilometragem em negociações comerciais internacionais, resume o impasse à Folha em uma frase: `Como escalar uma guerra, todo o mundo sabe; o que ninguém sabe é como reduzir a tensão`.

É por isso que se torna real a perspectiva de não haver documento final, o que consagraria o dissenso em um grupo nascido para buscar o consenso. Uma perspectiva tão mais real quando se sabe que, na mais recente reunião em que estiveram presentes representantes de China e Estados Unidos, não houve, pela primeira vez, declaração final. Foi na cúpula da Apec (sigla em inglês para Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico) há dez dias. É claro que o G20 é muito mais importante e, por isso, uma fratura desse tamanho em um clube que representa 85% da economia mundial teria repercussões bem mais terríveis.

A OCDE (Organizaçãopara a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento) acaba de divulgar relatório prevendo que se a guerra entre China e Estados Unidos escalar, a economia mundial passaria de um pouso suave (do crescimento), como hoje previsto, para algo mais forte. Há dez anos, o G20 conseguiu administrar o pouso. Agora, os pilotos estão em guerra na cabine de comando.

Clóvis Rossi / Repórter especial, membro do Conselho editorial da Folha e vencedor do prêmio maria moors Cabot

 

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