Concordâncias e divergências sobre o Itamaraty

Concordâncias e divergências sobre o Itamaraty

O GLOBO ouviu os conselheiros de Bolsonaro e Haddad para política externa. O general da reserva Augusto Heleno e o ex-chanceler Celso Amorim debateram sobre comércio exterior, Venezuela, EUA e China

O GLOBO ouviu os conselheiros de Bolsonaro e Haddad para política externa. O general da reserva Augusto Heleno e o ex-chanceler Celso Amorim debateram sobre comércio exterior, Venezuela, EUA e China

ENTREVISTA

Augusto Heleno / GENERAL DA RESERVA

NAO PODEMOS VENDERO BRASIL À CHINA´

O que tem de muda rna política externa?

Acho que o viés ideológico que foi impresso nos últimos 15 anos foi muito prejudicial ao Brasil. Nós temos de mudar isso e buscar uma posição diferente no contexto internacional.

Recentemente, Jair Bolsonaro disse que o Brasil deveria sair da ONU. Isso não vai contra a tradição diplomática do país?

Isso foi desmentido pelo Bolsonaro. Ele cometeu um ato falho e reconheceu que se expressou mal.

Como um governo Bolsonaro agiria com a Venezuela?

Quero deixar claro que esta é minha opinião, e não a de Bolsonaro, que repudia frontalmente o governo Maduro. O problema da Venezuela, mais do que político, é humanitário. Temos um povo passando fome, vendo seu país ser destroçado e que é incapaz de reagir, porque foram criadas milícias de repressão a qualquer tipo de reação. Os meios democráticos são completamente sufocados por ações do governo. A situação tende a se agravar cada vez mais, com reflexos nefastos para o Brasil, porque estamos recebendo venezuelanos.

Há quem defenda, dentro do partido de Bolsonaro, o fechamento da fronteira.

O fechamento da fronteira, além de ser utopia, está fora dos padrões que o Brasil sempre adotou em relação aos refugiados. Eles (os imigrantes venezuelanos) são os menos culpados. Só que, para nós, é pesado. Roraima é um estado que poderia ser muito rico, mas foi subtraído. E possível deslocar esse pessoal para SP e RJ. A situação do Brasil não nos permite fazer esse gesto humanitário sem que haja alguma conseqüência para nós.

Bolsonaro costuma ter postura crítica em relação à China. Por que, se os chineses são nossos principais parceiros comerciais?

Pretendemos manter essa relação comercial com a China, até pela grandiosidade do país no mercado mundial. O que agente não pode é vender o Brasil para a China. Há interesse em manter esse relacionamento, mas não podemos aceitar, de repente, que eles saiam comprando um pedaço do Brasil e isso chegue a comprometer esse relacionamento.

E os EUA?

Nossas relações são boas, mas podem melhorar. Há, por parte do pessoal da esquerda mais radical, um preconceito, uma prevenção enorme com relação aos EUA. E a maior potência do mundo, está perto do Brasil e temos ligações históricas. Também queremos manter boas relações com outros países, como os da Comunidade Árabe e Europa. Também temos uma forte aproximação e, felizmente, nenhum contencioso, na América do Sul.

ENTREVISTA

Celso Amorim / EX-CHANCELER

NAO QUEREMOS UM VIETNA NA FRONTEIRA´

Bolsonaro e sua equipe dizem que a política externa do PT é muito ideologizada.

Não é verdade. Nunca demos apoio irrestrito ao governo venezuelano. Criamos um grupo de amigos com a participação dos EUA para tentarmos resolver o problema. Não há nada de ideológico. O Brasil sempre trabalhou pelo interesse nacional.

A que o senhor atribui essas críticas?

Dizem que o Brasil vai ser uma Venezuela. Estivemos 12 anos no poder e não viramos. Por que agora, em que o nosso candidato é justamente um professor? São invenções. Somos, sim, a favor de soluções pelo diálogo e não de intervenção. Não queremos um Vietnã na nossa fronteira.

Como resolver a crise ali?

A crise na Venezuela é um problema sério, que não se resolve com intervenção militar ou golpe, pois isso radicalizaria ainda mais. Não dá para isolar a Venezuela. E não podemos nos esquecer que temos interesses, com destaque para Roraima, que depende da energia da Venezuela.

A política externa de Haddad repetirá as de Lula e Dilma?

O mundo mudou. Não havia o Brexit, nem o atual conflito entre EUA e Rússia, a guerra comercial entre americanos e chineses ou o acirramento dos problemas entre Arábia Saudita e Irã. A política externa de um governo Haddad continuará se pautando por uma diretriz de independência, integração sul-americana, aproximação com a África, fortalecimento do Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, China, índia e África do Sul) e boas relações com os Estados Unidos e a União Européia.

O senhor tem conversado com personalidades do exterior sobre a situação política do Brasil. Qual a sua percepção?

O mundo inteiro está assustado com a possibilidade de haver a vitória de um candidato que faz afirmações de machismo, xenofobia, racismo, violência. Estou falando da França, da Alemanha, dos EUA. Os grandes jornais nesses países refletem isso, e não são jornais de esquerda. Os governos ficam quietos, porque não querem perder negócios.

O presidente Donald Trump tem colocado a OMC e a ONU em xeque. O multilateralismo está em crise?

O multilateralismo é algo que o Brasil sempre defendeu, pelo menos desde o governo Fernando Henrique. Então, quando ocorre a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU (a favor de Lula participar da eleição) e a gente ouve afirmações do tipo: o Brasil não vai se curvar à ONU, é assustador. (E. O.)

 

 

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