Como Buenos Aires foi da quarentena rigorosa a um quase descaso

Como Buenos Aires foi da quarentena rigorosa a um quase descaso

Capital argentina foi agressiva contra o coronavírus, mas só no início

A pandemia chegou à Argentina em março de 2020 e encontrou um país com sérios problemas econômicos. O presidente Alberto Fernández, empossado menos de três meses antes, os ignorou e levou adiante um plano ambicioso para tentar conter o coronavírus: determinou distanciamento social, fechou escolas e estabelecimentos comerciais não essenciais, impôs multas a quem furasse a quarentena e isolou Buenos Aires, até então o principal foco da doença. A capital de 3 milhões de habitantes contabilizava em torno de 30 casos por dia no começo de abril.

Apesar do número baixo para os padrões atuais, a própria população considerava as restrições necessárias. Àquela altura, quem saía de casa podia inclusive ter de dar explicações. Aconteceu com um casal de amigos, que foi parado pela polícia ao sair para caminhar com seu bebê após meses de confinamento. Nem assim as medidas foram contestadas.

Foi estranho ver as ruas vazias no começo da quarentena, mas as pessoas se mostravam presentes aplaudindo todos os dias das janelas o esforço dos profissionais de saúde. Muitos estavam convencidos de que o governo escolheu o caminho certo naquele começo, quando não havia testes disponíveis ou mesmo informações concretas sobre a transmissibilidade, e Fernández surfou essa onda, chegando a registrar picos de popularidade superiores a 80%.

As três esferas de governo, com políticos de partidos rivais, dividiam a bancada nas coletivas de imprensa, e amigos brasileiros diziam invejar-me por morar num país onde o combate à pandemia era levado a sério.

Apesar da elogiável resposta inicial, a Argentina pecou depois por efetuar poucos testes em sua população de 44 milhões nos meses seguintes. Além disso, o rastreamento pouco eficiente de casos permitiu que o vírus se espalhasse pelas demais províncias. Atualmente, o país ainda perde 150 a 200 pessoas por dia para a doença, após picos de até 500 em outubro. Entre elas, um conhecido que se contaminou no hospital, enquanto se recuperava de um transplante de rim.

Hoje, a circulação de pessoas é praticamente normal, lojas funcionam sem restrições e os cuidados são cada vez menores. A máscara ainda é regra em vias movimentadas e meios de transporte público, mas é comum também ver pessoas com o rosto descoberto.

Diferentemente do que ocorre no Brasil, por aqui não conheço ninguém que já tenha sido vacinado, e há muitas dúvidas sobre como inscrever-se para entrar na tal fila on-line. Questões políticas também influem na campanha. Após o início da imunização de idosos, há rumores de que é mais fácil vacinar-se na província de Buenos Aires, governada por um peronista, do que na capital federal homônima

A cidade de Buenos Aires esteve oficialmente 234 dias em confinamento, de março a novembro, com relaxamento gradual. O desgaste entre os portenhos era evidente na etapa final. Em certo momento, por exemplo, podia-se sair com os filhos para caminhar, mas no máximo por uma hora, no sábado ou no domingo, dependendo do documento de identidade. Muitos ignoravam as regras.

Em certo momento, os espaços públicos foram reabertos e voltaram a ser ocupados por bicicletas, patins e futebol. Até viralizou na internet, na época, o vídeo de alguns amigos jogando uma pelada imitando bonecos do pebolim para manter o distanciamento.

Nos parques e praças, as máscaras costumam ser deixadas de lado e o distanciamento nem sempre é respeitado. O mate ou chimarrão, um hábito diário, está de volta, só que agora cada um leva cuia e bomba próprias para evitar contágio.

As escolas foram reabertas por aqui apenas no fim de novembro para retomar a socialização de crianças e adolescentes, bem depois dos shoppings. As jornadas eram curtas, de apenas 1h30. O mais estranho é que, logo na sequência, começaram a funcionar as chamadas colônias de verão, em muitos casos organizadas pelas próprias instituições de ensino particulares, com protocolos e horários muito mais relaxados.

Na mesma época, o governo organizou velório reunindo uma multidão para Maradona na Casa Rosada, deixando muitos atônitos após tanto esforço e isolamento, inclusive a família daquele transplantado, que havia sido impedida de velá-lo. Depois das férias, o ano letivo recomeçou em 2021, deixando exposta a desigualdade entre escolas públicas, onde falta até sabão para lavar as mãos, e particulares.

Em meio a tudo isso, a segunda maior economia da América do Sul também sentiu o baque, o que se viu refletido, por exemplo, no comércio. Muitas lojas encerraram as atividades, assim como
restaurantes tradicionais como La Parolaccia e Pippo. O dono de uma pizzaria próxima de casa me contou que fechou acordos com funcionários para demiti-los após meses sem movimento. Recentemente, os clientes voltaram a ocupar as mesas internas nos bares tradicionais dos bairros de Palermo e da Recoleta.

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