Commodities “salvam” a economia do Brasil. Mas essa “mágica” pode acabar em dois anos

Commodities “salvam” a economia do Brasil. Mas essa “mágica” pode acabar em dois anos

Preços em alta, câmbio e comércio global favorecem o Brasil

A combinação de alta dos preços de commodities, de taxa de câmbio desvalorizada e de expansão do comércio mundial vai dar uma sustentação mínima à atividade econômica no Brasil neste ano, contrabalançando uma parte dos efeitos negativos da pandemia e das incertezas políticas e fiscais.

“Estamos assistindo a um aumento das exportações líquidas, que induz uma recuperação econômica do Brasil um pouco mais forte”, afirma o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore. “Veremos a revisão nas previsões de crescimento dos economistas do mercado financeiro, da faixa de 3% a 3,2% para percentuais como 3,4%, 3,6%, 3,8%.”

A própria consultoria de Pastore, a A. C. Pastore & Associados, divulgou relatório nesta segunda-feira aumentando a sua estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2021 de 3,2% para 4%. Outras casas estão também migrando para percentuais de 4% ou mais. “Por ora, não vemos superciclo, mas as commodities podem ficar fortes por 12 ou 18 meses, não vários anos”, afirma do ex-diretor do BC e economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita. “Dito isso, o contexto global é positivo para o real. E, por aqui, a atividade tem viés de alta. Recentemente puxamos a projeção do o PIB para 4%, e talvez tenhamos que rever para cima de novo.”

A queda menos intensa da economia durante a segunda onda e a reabertura mais rápida também tem ajudado a aumentar as projeções para a economia. A XP Investimentos passou a projetar alta de 4,1%; a Bradesco Asset Management (BRAM), de 4,3%; e a ASA Investimentos, de 4,5%.

Ninguém está sugerindo um crescimento exuberante. Esses números, aparentemente altos, estão inflados por fatores estatísticos, tecnicamente conhecidos como carregamento. Um crescimento de 3,6% significa que a atividade está apenas parada. O Brasil deve se expandir mais devagar que o mundo, cujo crescimento o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima em 6%. Ainda assim, o motor externo está ajudando mais o Brasil.

O cenário para o balanço de pagamentos também está se tornando mais positivo. O fluxo de moeda estrangeira para o Brasil começa a se recuperar, favorecendo, pela primeira vez desde fins de 2020, uma tendência de queda da cotação do dólar ante o real. O câmbio mais forte não resolve todas as pressões inflacionárias, parte delas causada pela alta das commodities - mas ajuda em vez de atrapalhar, num momento em que o Banco Central sobe os juros.

Os bons preços dos produtos básicos podem ajudar ainda a recuperar pelo menos parte dos investimentos no setor, que ficaram baixos nos últimos anos e restringiram a capacidade de oferta desses produtos. O “boom” de commodities também aumenta a renda em algumas regiões do país, como a fronteira agrícola, e criam um efeito riqueza com a alta de ações na bolsa.

Salvo algumas vozes discordantes, o atual ciclo das commodities é considerado pelos analistas econômicos como temporário - e que pode se desfazer em um ano ou dois, quando a recuperação cíclica de China e Estados Unidos se esgotar ou quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começar a retirar estímulos monetários. Ou antes disso, já que a tarefa de projetar a evolução dos preços das commodities é tão difícil quando antecipar a taxa de câmbio.

“Temos um equilíbrio tênue”, afirma o ex-diretor de política econômica do Banco Central Carlos Viana de Carvalho, hoje head de research da Asset 1. “Poderemos passar por um período mais perigoso, com o temores nos mercados com a inflação, com receios de que o Fed está tomando riscos demais.”

Desde o começo deste ano, o índice CRB, que engloba as principais commodities, apresentou uma alta de 24%, dos quais perto da metade ocorreu de meados de abril para cá. O minério de ferro subiu 44%, e o preço da soja praticamente dobrou em um ano.

Os pacotes de estimulo fiscal, de infraestrutura e da área social do presidente americano, Joe Biden, estão por trás da alta dos preços de commodities, assim como a forte expansão monetária patrocinada pelo Fed. Essas políticas levam a perda de valor do dólar, que tradicionalmente ocorre em paralelo com a alta das cotações de commodities, e incentivam a busca dos investidores por ativos de risco.

Esse é o cenário que os economistas chamam de “reflação”, ou seja, uma convergência dos níveis de inflação muito baixa dos últimos anos nos Estados Unidos para mais próximos do percentual desejado, na casa dos 2%.

Carlos Viana, da Asset 1, lembra que a tese da reflação ganhou mais visibilidade no começo do ano, com a posse do presidente Biden. O medo de que os estímulos passassem do ponto, no entanto, provocou uma alta real dos juros de títulos americanos, e o dólar ganhou um pouco de força, em vez de se devalorizar.

Ao longo do tempo, o Fed reforçou o seu discurso de que não pretende reagir antes de ver uma convergência concreta da inflação e emprego aos níveis desejados. A pressão sobre os juros dos títulos americanos refluiu um pouco, e o dólar começou a perder valor, ainda que o movimento não tenha sido muito grande. “Passamos a ter um quadro de ‘reflação’ mais completo, que é esta festa para os ativos de maior risco.” Mas, segundo ele, o quadro está sujeito a mudanças.

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, lembra que as commodities são também uma ativo financeiro e, por isso, respondem a outros fatores além de fundamentos econômicos. “As commodities são uma forma de proteção contra a inflação”, afirma. “Há investidores desconfortáveis com os bancos centrais, que vinham sinalizando de que não chegou o ponto de retirar estímulos, mesmo com as surpresas inflacionárias.”

No caso das commodities agrícolas, há restrições na oferta, devido a eventos climáticos que limitaram a produção de grãos nos Estados Unidos e no Brasil. Além disso, a demanda aumentou durante a pandemia, quando as famílias trocaram o consumo de serviços por alimentação.

Tem mais fatores, além dos preços, que estão puxando as exportações líquidas. Pastore destaca que o FMI reviu para 8,4% a sua projeção para o comércio mundial neste ano, e as exportações brasileiras costuma responder numa proporção de um para um a esses movimentos globais. O real fraco é outra peça na engrenagem. A taxa de câmbio efetiva real ajustada pela inflação ao consumidor, calculada pelo Banco Central, equipara-se ao menor nível da história, de 2002.

Também tem os efeitos na indústria, diz Pastore, que ficou mais competitiva nas exportações e no fornecimento de insumos para produtos fabricados dentro do Brasil. “Aumentaram as exportações de manufaturados. Não foi como as commodities, mas teve um aumento.”

Pastore foi um dos primeiros a projetar forte aumento das exportações e do superávit comercial, e foi recebido com certo ceticismo por parte do mercado. De lá para cá, os analistas econômicos estão se ajustando a essa nova realidade. A projeção mediana para as exportações em 2021, coletada pelo Banco Central, subiu de US$ 225 bilhões para US$ 244 bilhões desde o começo do ano. Há estimativas tão altas quanto US$ 270 bilhões.

Esse efeito se espalha pela economia. Os preços das commodities são muito importantes para o PIB brasileiro: se as cotações sobem num trimestre, a atividade econômica responde já no trimestre seguinte e continua reverberando por algum tempo, antes de se dissipar completamente.

É um enorme ganho de renda para a economia brasileira”, resume Honorato. A equipe do Bradesco fez um estudo que ilustra um pouco desse impacto: o aumento do emprego formal nas localidades que produzem produtos para exportação é o dobro das demais regiões do país.

Os efeitos são significativos também nos investimentos. O ex-diretor do Banco Central Tony Volpon, estrategista chefe da Wealth High Governance (WHG), afirma que desde o fim do superciclo de commodities, iniciado em 2002 e que começou a esvaziar em 2011, as empresas pararam de investir.

“O investimento nesse setor é procíclico, segue muito os preços das commodities”, afirma Volpon. “O investimento caiu muito quando os preços baixaram e, desde então, não tinha havido uma reversão importante que pudesse puxá-los. Agora, parece que vai ocorrer.”

“A alta dos preços de commodities é um evento de cauda para a economia brasileira”, disse o diretor de política monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernandes, em evento virtual na sexta-feira. De um lado, lembrou, acelera a inflação, já que a fragilidade fiscal, dentre outros fatores, quebrou a relação histórica que levava a apreciação cambial nos ciclos de commodities.

Mas, de outro lado, favorece investimentos no aumento da capacidade produtiva do país, a balança comercial e também o fluxo de capitais estrangeiros ao Brasil. “A bolsa é recheada de empresas produtoras de commodities. Temos o efeito nos investimentos diretos, o fluxo de investimentos em portfólio cresceu [ultimamente]”, completou.

A grande discussão é se a alta das commodities vai se sustentar por muito tempo. Pastore diz que é difícil precisar quando vai acabar. Mas os fundamentos econômicos indicam que a fase de bonança terá um fim, sem repetir o superciclo do governo Lula.

Naquela época, duas forças principais estavam por trás da alta dos preços. Primeiro, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), que fez com que o crescimento do país passasse da faixa de 7% a 8% para o patamares como 10% e 12%. Outro fator foi o longo período de política monetária expansionista nos Estados Unidos, que levou ao enfraquecimento do dólar ante outras moedas.

Hoje, o quadro é diferente. A China apresentou recentemente o seu plano quinquenal, com foco no consumo interno e qualidade de vida. “Não há nada que indique que a China vai crescer de novo àquelas taxas de quando estava voltada paras as exportações”, diz Pastore. Embora não haja uma meta explícita de crescimento do país asiático, as indicações são de uma expansão na faixa de 5% ou 5,5%.

Pastore também antecipa que o Fed vai retirar, em algum momento, os estímulos monetários. O pacote contracíclico de Biden, de US$ 1,9 trilhão, representa grosso modo 10% do PIB americano. Biden anunciou outros planos trilionários para infraestrutura e área social. Embora sejam financiados por alta de impostos e tocados ao longo de anos, terão efeitos na economia, já que o multiplicador do gasto público é o maior do que da receita.

“A economia americana vai caminhar para o pleno emprego”, diz Pastore. “Não estou dizendo que vai ser agora, amanhã, mas o Fed vai subir o juro. É a forma de um banco central reagir quando tem um risco de inflação.”

Carlos Viana acredita que a inflação vai inspirar mais atenção dos mercados. O índice de preços divulgado recentemente, que registra avanço do núcleo de inflação de 0,9% em abril, salta aos olhos, apesar de todas as ressalvas de que foi influenciado pela alta de preços de carros usados e de hotéis, que tiveram recuperação de demanda com a vacinação.

Volpon considera que existe uma força mais perene por trás da alta das commodities: a migração das economias para um modelo mais sustentável, com menos emissões de carbono. “São vários planos de infraestrutura ao redor do mundo, como o de Biden, que vão demandar metais e outras matérias-primas.”

Uma eventual ação do Fed pode representar uma oscilação nessa ciclo de valorização das commodities, opina ele, mas em seguida as forças mais duradouras voltariam a atuar para sustentar os preços. “Estamos diante de um novo superciclo”, aposta.

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