Commodities ganham mais peso nas exportações

Commodities ganham mais peso nas exportações

Participação da indústria nas exportações cai na última década

A exportação brasileira ficou mais dependente de commodities na última década. A fatia dos produtos da indústria de transformação caiu de 63,3% em 2010 para 55,1% no ano passado. Intensificada pela pandemia, a perda, dizem analistas, revela como o país ficou para trás num período em que a concorrência no comércio internacional aumentou.

Embora o embarque de commodities tenha garantido superávits comerciais e reflita uma vantagem competitiva do país, apontam, a diversificação da pauta e de destinos é o caminho para integrar o país ao comércio internacional nos próximos dez anos. Isso tornaria o Brasil menos sujeito a oscilações de preços de commodities e para possibilitar à indústria tirar proveito sustentável da esperada retomada do comércio mundial.

“O cenário será difícil nos próximos anos”, diz o economista Fernando Ribeiro, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“É preciso recuperar a economia e fazer com que esse crescimento possa ser levado para o setor industrial, para melhora da competitividade, para que as recuperações não sejam circunstanciais, apenas reação momentânea à demanda”, argumenta ele. “É preciso uma decisão de política econômica para ter setor industrial forte. Isso não foi feito e hoje pagamos o preço.” A perda de participação da indústria na exportação na última década não se deu apenas em razão do crescimento em ritmo mais acelerado de produtos não industrializados.

Os dados mostram que, na verdade, o valor embarcado em manufaturados encolheu. De 2010 para 2020, houve perda de valor de exportação em dólares da indústria de transformação, com queda de US$ 129 bilhões para US$ 114 bilhões. Os dados são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Além da perda da indústria, o prejuízo foi maior nos ramos mais intensivos em tecnologia. Os segmentos de alta e média-alta tecnologia, onde estão os ramos automobilístico e de aviação, por exemplo, foram os que mais tiveram perda de participação na exportação da indústria de transformação. Essa fatia diminuiu de 36,5% em 2010 para 27,5% em 2020, ainda segundo dados do Iedi.

“Houve grande perda no ano passado, com os efeitos da pandemia, já que essa fatia era de 31,8% em 2019”, ressalta Rafael Cagnin, economista do Iedi. O ano de 2020, pondera o economista, foi um período excepcional, com restrição de comércio no mundo, com quadro adverso de PIB. “O cenário só não foi pior porque houve recuperação da China.”

Cagnin ressalta, porém, que a deterioração veio antes da pandemia. Houve perda importante também em 2019, quando o comércio foi muito afetado pelo conflito comercial entre Estados Unidos e China e pela crise da economia argentina

Embora por razões diferentes, diz Cagnin, tanto em 2019 quanto em 2020, houve ambiente de menor crescimento do comércio mundial, com todos querendo preservar mercados externos. “Nessa situação quem tem problemas de competitividade como o Brasil fica para trás justamente nas cadeias produtivas mais longas. Por isso os produtos de maior intensidade tecnológica sofrem muito.”

Ribeiro, do Ipea, diz que o problema da exportação de manufaturados está ligado à indústria como um todo, que deixou de ser competitiva em razão dos baixos níveis de investimento no setor. “Em vez de se modernizar e elevar a produtividade, a indústria se manteve protegida da concorrência com tarifas de importação relativamente elevadas, o que não incentivou muito esse tipo de investimento”, diz.

Há fatores estruturais contra os quais “há razão em reclamar”, como a alta carga tributária, reconhece Ribeiro.

“Mas há falta de iniciativa dos empresários em buscar maior proeminência do setor industrial. O momento é difícil, mas o investimento teria que ser feito”, aponta ele. “Caso contrário a indústria fica num equilíbrio ruim, mais preocupada em manter mercado e se proteger dos importados do que se expandir e ficar mais competitiva para exportar mais. Exportar ficou no fim da fila das prioridades do setor.”

A preocupação, diz Ribeiro, não está na participação das commodities na exportação, já que características do Brasil favorecem o importante papel delas. É preciso, porém, acrescenta ele, que os manufaturados voltem a crescer num ritmo razoável, mesmo que não volte a ser o mais importante da pauta.

“Andamos de lado porque não fomos capazes de diversificar mercados, o que é difícil no curto prazo. Teria que ter esforço no médio e longo prazo pensando no setor industrial como um todo. A solução passa por pensar numa política mais moderna, com financiamentos e promoção comercial para tentar recuperar dinamismo do setor.”

O quadro atual mostra a necessidade de uma diversificação maior de mercados consumidores de bens brasileiros, aponta Cagnin. Firmar o maior número possível de acordos comerciais é a forma mais rápida de se fazer isso, diz ele.

“Nosso insucesso em gerenciar a pandemia e problemas de ordem ambiental, tudo isso prejudica a imagem do Brasil e restringe as capacidades de negociação internacional. Especialmente num mundo que cada vez mais as preocupações ambientais se tornam fundamentais dentro das negociações”, diz Cagnin

“Isso se torna preocupação não só nas negociações mas principalmente depois, na ratificação do que foi acertado, que é o caso do acordo entre Mercosul e União Europeia”, afirma ele. “Sem esse movimento de ampliação de frentes de diversificação de mercados via acordos comerciais será muito difícil reverter a trajetória negativa na exportação da indústria”, diz Cagnin.

Um desafio mais profundo ainda, acrescenta ele, é reforçar competências industriais nesses ramos de maior intensidade tecnológica por meio de inovações e criação de novos produtos. Esses ramos têm cadeias produtivas mais longas e tendem a se integrar melhor nas cadeias globais de valor.

Para Ribeiro, há desafios na ampliação de mercados. Ele destaca que a América Latina, principal destino de exportação de industrializados do Brasil, foi uma das regiões do globo que mais sofreu com a crise, com quedas de PIB mais acentuadas que a do Brasil.

“A Argentina caiu 10% e só piorou a situação dos manufaturados”, exemplifica. E o que se espera hoje, diz ele, é que a recuperação dessa região será lenta, o que deve prejudicar ainda mais as exportações.

Por isso, avalia Ribeiro, a melhor perspectiva é buscar exportar mais aos Estados Unidos, onde o Brasil perde espaço para os asiáticos.

O acordo entre Mercosul e União Europeia também poderia ajudar, diz, mas não se sabe em que momento vai começar a funcionar, embora sejam resultados que vêm em prazo maior. “No curto prazo, ou seja, nos próximos três ou quatro anos, podemos torcer por uma recuperação mais rápida da América Latina para que nossas vendas possam se recuperar junto, tentando aproveitar o câmbio mais favorável num contexto de mercado em expansão.”

Há ainda a perspectiva de recuperação nos Estados Unidos, um mercado a ser olhado com bastante atenção, diz ele.

“Precisamos tentar recuperar espaço ali, o que demanda esforços diplomáticos e de promoção comercial.”

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