Comércio do Brasil com EUA é o que mais sofre com a pandemia

Comércio do Brasil com EUA é o que mais sofre com a pandemia

Vendas aos americanos recuaram 27,8% em 2020, mais de quatro vezes a queda geral dos embarques brasileiros para o mundo

A pandemia atingiu as relações comerciais do Brasil com os Estados Unidos mais do que com
qualquer outro parceiro. A combinação de uma pauta de exportações e importações marcada por
produtos manufaturados e petróleo e seus derivados deixou a relação entre os países
especialmente vulnerável ao choque da covid-19 nas economias e no comércio global.

Em 2020, as vendas aos americanos diminuíram US$ 8,3 bilhões, na comparação com o ano
anterior, enquanto as importações brasileiras dos EUA tiveram queda de US$ 6 bilhões. Os dados
são do “Monitor do Comércio Brasil-EUA”, da Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil).

“A dimensão das quedas é muito dura. No comparativo com outros países, em números
absolutos, foram as maiores”, diz Abrão Árabe Neto, vice-presidente executivo da entidade. Na
variação pela média diária de trocas, uma métrica ainda mais precisa, segundo ele, os EUA
lideram as quedas em exportações (perdas de US$ 32,1 milhões por dia útil) e importações
(retração de US$ 22,9 milhões).

Em termos relativos, os números também impressionam. As vendas aos americanos recuaram
27,8% em 2020, mais de quatro vezes a queda geral dos embarques brasileiros para o mundo, o
que levou os EUA a perderem três pontos percentuais no total de exportações brasileiras. Já as
importações oriundas dos EUA encolheram 19,8%, quase o dobro das compras totais do Brasil no
ano passado. O desempenho só não foi pior que o das importações da Argentina (-25,6%) e do
México (-24,2%), países com os quais o Brasil mantém forte comércio no setor automotivo.

Com isso, o valor das trocas (soma de exportações e importações) entre Brasil e EUA caiu 23,8% em 2020, para US$ 45,6 bilhões, o menor nível desde a crise de 2009, quando foram registrados US$ 35,6 bilhões. O fluxo bilateral com os americanos no ano passado foi menos da metade dos US$ 101,7 bilhões em trocas com os chineses, aponta a Amcham. O país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil, com 28,4% de participação, seguido pelos EUA, com 12,4%.

A queda sentida por aqui também é observada pela ótica americana - a diferença é que, para
eles, o Brasil é apenas o 17º parceiro comercial. Segundo dados oficiais dos EUA até novembro
de 2020, a queda nas trocas com o Brasil (22,6%) só ficou atrás das perdas com a França
(26,9%), entre os principais parceiros.
Segundo Árabe Neto, o Brasil não tem no comércio com outros países uma combinação tão forte
de produtos industrializados/de alto valor agregado e petróleo/derivados, dois segmentos que
sofreram muito na pandemia. No fluxo Brasil-EUA, a indústria de transformação responde por
86% das exportações e 91,5% das importações. Em cada lado da comercialização de petróleo
(óleos brutos e combustíveis), as perdas foram de cerca de US$ 3 bilhões em 2020, observa o
executivo.

Para 2021, a perspectiva da Amcham é de recuperação gradual das trocas entre os dois países.
O avanço da vacinação nos EUA e a retomada da atividade por lá podem impulsionar as
exportações brasileiras, enquanto um real relativamente mais apreciado e a volta da economia
aqui ajudariam as importações. “Não vai acontecer imediatamente em janeiro, mas ao longo do
ano devemos observar a recomposição do comércio para patamares próximos de 2019, 2018”,
diz o membro da Amcham, acrescentando que já houve desaceleração das quedas no quarto
trimestre do ano passado.

O plano de recuperação para a economia americana do recém-empossado presidente Joe Biden
também pode impulsionar o comércio global e, assim, as trocas com o Brasil. Além disso, Biden
deve trazer “um pouco mais de previsibilidade” para a disputa comercial com a China, diz Árabe
Neto. O Brasil precisa se preparar, no entanto, para as discussões ambientais, que, segundo o
executivo, estarão no topo das prioridades dos EUA e serão temas transversais a todos os
assuntos, inclusive comércio e investimentos. “Minha avaliação é que, em um primeiro momento,
haverá diálogo e espaço para se buscar convergências.

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