Com recorde de Covid, Argentina decreta toque de recolher em Buenos Aires

Com recorde de Covid, Argentina decreta toque de recolher em Buenos Aires

Circulação de 16 milhões de pessoas fica proibida das 20h às 6h na região metropolitana

Diante de uma rápida escalada nos casos de coronavírus, atribuída principalmente à circulação das novas variantes, a Argentina enfrenta uma segunda onda da pandemia com sucessivos recordes, quase 28 mil registros de infecção em 24 horas e um total acumulado de mortos que ultrapassa os 58 mil.

E, nesse cenário, o governo de Alberto Fernández estava emparedado entre a necessidade de tomar medidas mais duras e a rejeição popular decorrente delas.

Na noite desta quarta (14), no entanto, o presidente anunciou, em pronunciamento na TV, toque de recolher das 20h às 6h na região metropolitana de Buenos Aires, onde vivem 16 milhões de pessoas.

A restrição de circulação e o fechamento obrigatório de comércios e restaurantes passam a valer a partir das 0h de sexta-feira (16).

Fernández ainda anunciou que as aulas também deixarão de ser presenciais a partir da próxima semana.

Todas as novas medidas valem, a princípio, até o dia 30 de abril.

"Precisamos inexoravelmente reduzir os encontros sociais, onde as pessoas relaxam e onde é muito mais fácil contrair o vírus", afirmou o presidente, com ares de cansaço no seu 14º dia de isolamento desde que contraiu a Covid-19.

Logo depois do anúncio do presidente, começaram a soar panelaços e buzinaços que duraram mais de 40 minutos nas regiões de Belgrano, Palermo, Recoleta, Chacarita e em outros pontos da capital. "Alberto filho da puta" e "queremos trabalhar", gritavam os manifestantes.

Na região da avenida Santa Fe, carros passavam buzinando. "Não vamos obedecer!", diziam as pessoas.

Grupos também foram protestar diante da Residência dos Olivos, onde Fernández vive com sua família.

O anúncio surpreendeu a oposição, que pede mais flexibilização da economia, e que informou não ter sido avisada da decisão presidencial.

No ano passado, quando a crise sanitária se apresentou, o governo nacional e o da província de Buenos Aires, que são peronistas (assim como Fernández), sentaram-se à mesa com a oposição —cuja principal liderança é Horacio Rodríguez Larreta, chefe de governo da cidade de Buenos Aires.

As três instâncias de governo anunciaram juntas e de modo consensual cada nova fase do enfrentamento da pandemia, mas essa lua-de-mel terminou.

Diferentemente do que acontece no Brasil com a gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), o governo nacional argentino quer impôr medidas duras de quarentena, mas encontra oposição de alguns governadores.

O principal deles é justamente Larreta, pré-candidato à Presidência em 2023, acompanhado dos líderes das demais províncias não-peronistas.

Na mira de todos, estão as eleições legislativas de outubro deste ano, que devem renovar parte do Congresso e sinalizar as tendências para 2023. Os peronistas lutam para manter sua maioria no Parlamento, apesar da alta inflação (35,8% ao ano), da crescente pobreza (42%) e das críticas à administração da pandemia.

A oposição, por sua vez, liderada pelo ex-presidente Mauricio Macri, quer aproveitar a situação de desgaste do peronismo para ganhar espaço.

Em geral, os peronistas se colocam a favor das medidas drásticas contra o vírus, enquanto a oposição considera que a economia não aguenta outro choque como a longa quarentena de 2020 (que foi de março a setembro) e pede mais e mais aberturas.

Nas últimas semanas, a queda-de-braço vinha se refletido nas tímidas restrições negociadas entre eles. Por exemplo, depois da Semana Santa, houve um anúncio de novas medidas. O governo nacional queria um toque de recolher das 21h às 6h.

A oposição pressionou, ao lado de sindicatos dos setores gastronômicos, e conseguiu que não houvesse restrição à circulação e que bares e restaurantes funcionassem até as 23h. Larreta foi além —e interpretou a lei considerando 23h como o horário máximo para alguém entrar num bar ou restaurante, e não para sair.

O resultado é que bares e restaurantes em Buenos Aires estavam lotados quase todas as noites, com frequentadores aproveitando os últimos dias de calor do ano e provocando aglomerações em vários bairros da capital.

Segundo Fernández, as medidas "não foram suficientes, e os casos estão acelerando muito rápido. Temos de fazer algo antes que nosso sistema de saúde não possa mais dar conta".

Larreta já disse que fará um pronunciamento de resposta a Fernández nesta quinta. Embora os líderes regionais tenham autonomia para decidir sobre medidas, o presidente deixou claro que, pelo novo decreto, o governo nacional é quem tem autoridade sobre as restrições em Buenos Aires.

Outra batalha entre as autoridades se dá no transporte público. O governo nacional conseguiu se impôr no que diz respeito à limitação de seu uso por trabalhadores essenciais e docentes. O cumprimento da medida, no entanto, é atributo dos governos locais —para embarcar, é preciso mostrar um código QR em um aplicativo—, e a vigilância não tem sido rígida.

No último fim de semana, o secretário da Saúde da província de Buenos Aires (que não inclui a capital), Daniel Gollán, escreveu em uma rede social: "Assim é muito difícil", comentando imagens de uma praça de alimentação de shopping completamente lotada.

Para o governador Axel Kicillof, o que o país enfrenta não é uma segunda onda, "é um tsunami". Ele é um dos que mais pressionam o presidente por um lockdown de pelo menos 15 dias em todo o território.

O discurso das autoridades da província mais populosa da Argentina havia ganhado apoio de entidades médicas e científicas que enviaram uma carta a Fernández pedindo maiores restrições para tentar conter o avanço da doença, num ambiente de muitos hospitais já em colapso.

Segundo eles, o atendimento nas regiões metropolitanas de Córdoba e Rosário também está próximo da saturação completa.

"É possível dizer que estamos vivendo uma nova pandemia", afirmou a ministra da Saúde, Carla Vizzotti, na manhã desta quarta, em Buenos Aires.

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