Com eleição de americano para o BID, Brasil consolida alinhamento com EUA e renuncia à liderança regional

Com eleição de americano para o BID, Brasil consolida alinhamento com EUA e renuncia à liderança regional

11/09 - 18:10 - Sem adversários, o cubano-americano Claver-Carone deve ser eleito neste fim de semana

RIO — A provável eleição do americano Mauricio Claver-Carone como novo presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) este fim de semana, encerrando 60 anos de um acordo tácito que preservava o cargo para um latino-americano, terá duas consequências importantes para o Brasil: a consolidação de seu alinhamento automático com os Estados Unidos de Donald Trump e, em contrapartida, a renúncia a qualquer tipo de liderança em espaços de governança regional.

Analistas ouvidos pelo GLOBO coincidiram em afirmar que o BID poderia estar prestes a eleger um presidente latino-americano se o governo Jair Bolsonaro tivesse apresentado um candidato à altura do posto. Para entender a dimensão da importância que tem para o BID e para a região a escolha de um americano como presidente é preciso voltar a seus inícios, em 1958. O banco nasceu por forte impulso do então presidente Juscelino Kubitschek, como parte do chamado movimento panamericano que buscava construir para a América Latina uma espécie de Plano Marshall. Um mecanismo de desenvolvimento regional, com o qual os EUA, principal acionista do BID, concordaram com o claro objetivo de ampliar sua influência continental em momentos que, por exemplo, muitos previam o que depois seria a Revolução Cubana e seu impacto na região.

— O acordo de fundação no BID se deu nesse ambiente de Guerra Fria. O Brasil usou de maneira inteligente sua relação com os EUA e foi uma vitória para a região. Ficou acertado que a sede seria em Washington e o presidente sempre latino-americano — afirmou Claudio Puty, ex-secretário Internacional do Ministério do Planejamento e professor da Universidade Federal do Pará.

Puty, que foi representante do Brasil no BID no governo Dilma Rousseff, acredita que a eleição de Claver-Carone, único candidato registrado para a eleição deste sábado, confirma que o Brasil “não fez seu trabalho. Desmontamos todas as instituições de articulação regional”. Para o professor, o enfraquecimento da posição brasileira é anterior a Bolsonaro, já que os governos do PT tampouco apresentaram um candidato brasileiro para ocupar a presidência.

— Com Bolsonaro chegamos ao fundo do poço — lamentou Coty.

A Argentina de Alberto Fernández tentou liderar uma campanha a favor do adiamento da eleição e estabelecimento de nova data. Num primeiro momento, contou com o respaldo de países como México, Chile e Costa Rica. Para conseguir a prorrogação formal era necessário o respaldo de mais de 50% do capital votante, meta impossível de alcançar. Outra opção era não dar quórum e para isso são necessários mais de 25% do capital votante, percentual que tampouco foi alcançado. Brasil e Argentina têm o maior percentual da região, superados apenas pelos EUA. Se a cruzada inicial de argentinos (11,354%), mexicanos (7,299%) e chilenos (3,19%) tivesse contado com o respaldo em massa dos europeus, o grupo teria outros 10,9%, e somado um total de 32,759%. Mas, como revelou o chanceler argentino, Felipe Solá, a resposta europeia nunca chegou.

Finalmente, a Argentina não apresentou seu candidato, Gustavo Beliz, ex-funcionário do BID e atual secretário de Assuntos Estratégicos, e seu governo, junto com outros como Chile, vão participar da assembleia e optar pela abstenção. Em nota oficial, a Casa Rosada expressou “a inconveniência para a América Latina e o Caribe de vulnerar uma tradição de governança regional”. A jogada dos argentinos, agora, é que o nível de abstenção seja elevado e, de alguma maneira, possa ser interpretado como falta de legitimidade do candidato americano.

O Mercosul unido teria conseguido impedir a eleição de Claver-Carone, integrante da linha-dura do governo Trump e que esteve à frente do programa América Cresce, lançado para atrair investimentos do setor privado destinados a impulsionar o desenvolvimento na região. Iniciativa desenhada para se contrapor à cada vez mais expressiva presença de investimentos da China no continente. Um dos temores que existe entre funcionários e autoridades do BID é justamente que a instituição se transforme numa ferramenta de política externa do governo Trump em sua guerra contra a China.

— O BID é muito importante como âmbito onde são definidas regras de investimentos para toda a região. Pode ajudar os americanos na disputa com os chineses — opinou Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP).

Para ele, a vitória do cubano-americano Claver-Carone “será, também, uma vitória de Bolsonaro, porque hoje a identidade da política externa brasileira é com países ocidentais e cristãos, governos conservadores que lutam contra o que eles chamam de globalismo”.

— Este grupo de governos quer reformar instituições como o BID e fazê-las à sua imagem e semelhança. Para o Brasil de hoje, a América Latina é vista como problema e não mais como solução — assegurou Sá Guimarães.

O candidato apresentado inicialmente pelo Brasil foi o banqueiro e empresário Rodrigo Xavier, próximo do ministro Paulo Guedes. Seu nome não foi bem recebido no BID, onde comenta-se que Xavier tem pouco conhecimento sobre América Latina e sequer fala bem espanhol. As especulações dos últimos dias indicam que Xavier poderia ficar com a vice-presidência executiva da instituição, posto considerado número 2, embora sem grande influência interna.

Na opinião da economista Lia Valls, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mais do que uma vitória do governo americano a eleição de Claver-Carone será um revés para os latino-americanos. Se bem é verdade que faltou respaldo dos países europeus, também confirmou-se a submissão do México aos desejos dos EUA, em momentos em que muitos acreditam que não pode ser descartada uma eventual reeleição de Trump em novembro.

— A região, seja pela razão que for, abriu mão de um espaço — apontou Lia.

Para ela, “a atitude do Brasil segue os rumos da atual política externa do governo, que já sinalizou que uma eventual liderança regional deixou de ser tema da agenda”.

— Para o governo Bolsonaro, é mais importante manter boas relações com os EUA — concluiu a economista.

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