Com Biden, não dá para Ernesto ficar no Itamaraty

Com Biden, não dá para Ernesto ficar no Itamaraty

Editorial - Só uma diplomacia profissional conseguirá fazer a aproximação necessária com a Casa Branca

O apoio do presidente Jair Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo às barbaridades de Donald Trump — que sofreu impeachment por ter insuflado as hordas violentas que invadiram o Capitólio — cobrará um preço altíssimo na relação entre Brasil e Estados Unidos. Repetir as mentiras de Trump sobre fraudes nas eleições americana e deixar de condenar a tomada de assalto do Congresso em Washington elevam a níveis perigosos as dificuldades que o Brasil terá com o governo do novo presidente Joe Biden, que toma posse amanhã.

Nunca fez tanta falta uma diplomacia profissional no Itamaraty, há dois anos entregue a um diplomata profundamente limitado, cuja qualidade mais notável é ser um seguidor fiel das idiossincrasias ideológicas do chefe. Pois, enquanto as chancelarias de vários países repudiavam a barbárie, Araújo dizia que havia “cidadãos de bem” entre os vândalos. Foi quase um bis do comentário escabroso de Trump sobre o ataque de supremacistas brancos e neonazistas em Charlottesville, na Virgínia. Trump viu gente de bem “de ambos os lados”, depois foi pressionado a se corrigir. Em Brasília, a diatribe de Araújo passou incólume, afinal ele apenas serviu de ventríloquo do presidente.

A Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros (ADB) divulgou nota para registrar que não se confundem com os direitos à liberdade de expressão as “tentativas de subversão da vontade do eleitor, por meio da violência e da destruição do patrimônio público”, ocorridas em Washington. De forma cuidadosa, a ADB falou em nome de diplomatas amordaçados no Itamaraty.

Aposentado, sem risco de quebrar a hierarquia, o embaixador e ex-chanceler Rubens Ricupero entendeu a nota como resultado de um movimento interno de repúdio a Araújo por parte de profissionais que entendem haver prejuízo ao relacionamento com os Estados Unidos caso ele continue no cargo.

A troca de Araújo por alguém de perfil profissional é o indicado para gerenciar um enorme contencioso que apenas espera que Biden assuma. Basta dizer que um dos projetos estratégicos do novo governo é investir pesadamente em energia limpa e renovável. Assunto que se relaciona com o clima e se desdobra em preocupações com a Amazônia sob o governo Bolsonaro, já motivo de rusgas entre o presidente eleito americano e o brasileiro. Os EUA de Biden serão, sem exagero nenhum, o oposto do Brasil de Bolsonaro.

Biden ainda era candidato quando criticou o descaso do Brasil com a Amazônia num debate com Trump. Bolsonaro reagiu com uma bravata ridícula, ameaçando trocar a “saliva” da diplomacia pela “pólvora”. Apostou na vitória de seu inspirador americano. Perdeu — e foi quase o último a reconhecer a vitória de Biden nas urnas.

Agora precisa de uma estratégia para construir um relacionamento minimamente razoável com o segundo maior parceiro comercial do Brasil, sem depender de Trump (de quem jamais conseguiu qualquer tratamento especial). Já não é nada fácil, mas certamente será menos difícil sem os desvarios de Araújo a turvar o ambiente.

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