Colapso do consumo freia a economia da Argentina

Colapso do consumo freia a economia da Argentina

A economia argentina praticamente parou. Dados oficiais divulgados recentemente mostram um cenário de colapso do consumo, refletido na queda da produção interna e na forte contração das importações. Nos próximos trimestres, reajustes salariais podem trazer leve melhora, mas que mal será sentida pelos argentinos, segundo economistas.

Os últimos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) mostram que em março o consumo nos supermercados caiu 14,5% em comparação com o mesmo mês do ano passado, enquanto as compras em shoppings diminuíram 16,6%. As vendas de eletrodomésticos e outros itens para a casa também diminuíram. No primeiro trimestre do ano, o número de televisores vendidos caiu 39,9%, o de geladeiras, 30,8%, e o de computadores, 58,3%, na variação anual.

No setor automotivo, as vendas às concessionárias diminuíram 60,9% em abril, na variação anual. Foram 28.469 unidades vendidas no quarto mês do ano, ante 72.748 em abril de 2018. Para contornar a crise, as concessionárias oferecem descontos de 25% em carros novos. No mercado imobiliário, as vendas de imóveis em Buenos Aires caíram 53,9% em abril, na comparação com o mesmo mês de 2018.

Para Arturo Stabile, da Nova Federação de Comércio e Indústria da cidade de Buenos Aires (Fecoba), o plano econômico do governo orientado para reduzir a inflação e com uma política monetária contracionista acabou debilitando mais o consumo. `Hoje temos menor poder de compra e consumo em queda, em nome de menor inflação. Por outro lado, o crédito desapareceu, acentuando ainda mais a queda do consumo`, diz.

Stabile acrescenta ainda que, com o reajuste de tarifas de serviços públicos, as famílias estão deixando de consumir para arcar com o aumento desses gastos fixos. `Com contas mais caras para pagar, sobra menos para consumir.` As cifras eram esperadas frente a um quadro de recessão da economia, diz Vicente Lourenzo, da Confederação Argentina da Média Empresa (Came). `Com o nível da crise atual, inclusive, algumas quedas estão abaixo do previsto.

No setor varejista, a queda real foi de 45% Esperávamos mais de 50%`, diz. Lourenzo vê a Argentina em um quadro de estagflação e afirma que a situação não mudará muito daqui até o fim do ano. `A perspectiva não é de melhora, apenas de freio da queda do consumo. Com menos poder de compra e 9,1% de desemprego, as pessoas estão descrentes de que a situação vai melhorar`, diz.

O colapso do consumo está causando uma forte contração da produção interna e das importações. Em março, segundo o Indec, o estimador mensal de atividade econômica caiu 6,8%, na comparação com o mesmo mês de 2018. A Argentina vem importando menos desde agosto. Em abril, as importações contraíram-se 31,6%. No acumulado do ano, 28,9%, o que está prejudicando o Brasil.

O ritmo acelerado de queda das importações, diz Lourenzo, indica que tanto a produção quanto o mercado consumidor doméstico estão parados. `O setor produtivo tem 55% de capacidade ociosa, e o consumo interno está destruído.` Parte da queda do consumo é explicada pela inflação, que disparou depois das crises cambiais do ano passado.

Apesar de o dado de inflação mensal ter desacelerado, de 4,7% em março para 3,4% em abril, na variação em 12 meses, subiu de 54,7% para 55,8% Os reajustes salariais de 35%, em média, contribuíram pouco para compensar a perda de poder de compra, o que explica a forte desaceleração do consumo, diz Martin Tetaz, da Universidade de La Plata.

Tetaz argumenta que outro item que tem pesado para a redução do consumo é o alto nível de incerteza política. `Frente a tanta oscilação cambial e a incertezas em relação à eleição presidencial de outubro, os argentinos estão correndo para o dólar.

Um total de US$ 1,5 bilhão foi comprado por pessoas físicas no último mês. Isso significa 65 bilhões de pesos que deixam de ir para o consumo`, afirma. Nos próximos meses, o que pode dar algum alívio para os argentinos são os reajustes de salários, de aposentadorias deste ano e a antecipação de metade do 13-em junho, afirma Fernando Díaz, do banco Citi. `O consumo começará a se estabilizar e a se recuperar gradualmente mês a mês.

Mas na variação anual ainda haverá queda`, diz. Muitos dos reajustes salariais, ainda em negociação, devem ficar entre 25% e 30% e serão implementados em duas ou mais cotas. `Se focarmos nos salários reais, no poder de compra do argentino médio, nossa previsão é que o salário real começará a se crescer apenas no quarto trimestre`, diz Carlos de Souza, da consultoria Oxford Economics, ao estimar crescimento médio de 0,5% do consumo deste trimestre até o fim do ano. `Os argentinos terão poder de compra minimamente maior, mas essa melhora não será sentida.

Por outro lado, com a política monetária mais restritiva, haverá menos crédito, o que fará com que a recuperação do consumo e da atividade seja mais lenta`, conclui.

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