China mais urbana e rica deve favorecer o crescimento no Brasil

China mais urbana e rica deve favorecer o crescimento no Brasil

Conjuntura Demandas da nova classe média chinesa favorecem ainda mais produtos que país já exporta

O Brasil pode ser um dos principais beneficiados pelo crescimento de uma `nova China`, mais urbana e rica, na avaliação de economistas que acompanham de perto o comércio internacional. `É um mercado que não apenas está crescendo, mas demandando produtos que podemos oferecer com grande vantagem comparativa. Isso tende a se intensificar`, diz o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Marcello Estevão. Para ele, que esteve no encontro do G-20 entre 30 de novembro e 1- de dezembro, em Buenos Aires, a China passa por uma etapa normal de desaceleração.

`Não vejo crise brutal na economia chinesa. Junto com a índia, são quase 3 bilhões de pessoas entrando para a classe média, com a atividade crescendo 6%, 7% ao ano nos dois países. Não à toa a China é o nosso principal parceiro comercial.` Presidente do `think tank` Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Pio Borges destaca que em aproximadamente duas décadas 80% da população chinesa deve estar morando em centros urbanos. Em 2012, o número de pessoas vivendo em cidades superou a população rural pela primeira vez na história.

`Uma cidade pequena nessa China urbana tem de 500 mil a 1 milhão de habitantes. É outro tipo de dimensão`, diz Livio Ribeiro, pesquisador-sênior da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). A demanda da nova classe média chinesa tem como destaque a proteína animal, setor em que o Brasil é `muito produtivo`, lembra Estevão. `Nossa carne é de muito boa qualidade, muito bem recebida lá fora`, diz. Ribeiro destaca que empresas brasileiras produtoras de alimentos perceberam `há algum tempo` o crescimento da demanda chinesa por proteína animal e têm se posicionado para ocupar esse nicho. Outros países com alta produtividade no setor, como Argentina, Austrália e Nova Zelândia, também são apontados pelos economistas como os principais beneficiados pelas mudanças do gigante asiático.

A cesta de produtos que o Brasil pode oferecer, no entanto, não se limita a isso. `As importações de minério de ferro não vão minguar. A China ainda vai continuar precisando construir estradas, ampliar a infraestrutura`, afirma o economista do Ibre/FGV. `Mas haverá outros vetores muito relevantes nesse país que começa a ficar mais ligado ao consumo e aos serviços.` Nessa pauta de exportação entram cosméticos e equipamentos de transporte e saúde. `O Brasil tem, por exemplo, uma tecnologia de incubadoras hospitalares muito boa, por causa dos índices de nascimento prematuro`, afirma.

Nos cálculos de Ribeiro, em 2002 os chineses compravam 5% de tudo o que o Brasil exportava, número que saltou para 23% no ano passado. Mas o avanço do Brasil sobre o país asiático foi muito mais modesto: os produtos nacionais correspondiam a 0,7% das importações chinesas em 2002, contra 2,7% em 2017. `É uma relação demasiadamente assimétrica`, diz. Além disso, a pauta de comércio entre os dois países permanece, pelo menos por enquanto, `muito concentrada`. No ano passado, três produtos respondiam por 80% de tudo o que a China comprava do Brasil: soja (53%), minério de ferro (23%) e petróleo bruto (6%).

Pio Borges destaca justamente as exportações de petróleo como outro vetor que pode beneficiar o Brasil. Os chineses importam diariamente 8 milhões de barris de todas as partes do mundo. `A China já é o maior cliente da Petrobras`, diz ele, que também foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para Pio Borges, é factível que no médio prazo a produção diária brasileira supere os atuais 2,6 milhões de barris para algo em torno de 6 milhões. Para que o Brasil diversifique essa pauta, Ribeiro sugere uma política ativa nessa direção. Ele aponta como diretriz um documento divulgado pelo governo australiano em 2012 (`Australia in the Asian century`, ou `A Austrália no século asiático`). Em mais de 300 páginas, o texto sugere mudanças estruturais, como a realização de uma reforma tributária, e outras mais específicas, como a aproximação diplomática com a China e o desenvolvimento de líderes empresariais com conhecimento da região, para que a Austrália se beneficie da nova fase da economia chinesa.

Estevão, por sua vez, afirma que a Fazenda vem buscando não se aproximar só dos Estados Unidos e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas aprofundar ainda mais os já fortes laços com o Brics grupo de emergentes que inclui Brasil, Rússia, índia, China e África do Sul. Nesse sentido, o discurso hostil ao gigante asiático proferido pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e parte de sua equipe durante a campanha é visto com menos preocupação. Para os economistas, as oportunidades comerciais falarão mais alto do que a retórica inflamada. `É muito mais fácil ser maniqueísta, dizer que isso é bom e isso é mim. Mas a verdade é que tudo é cinza`, afirma Estevão.

`Eu entendo o argumento de que não podemos vender tudo para os chineses. Mas qual a brilhante idéia na direção contrária? Não sei. Nós não estamos em uma posição confortável para recusar capital, de onde quer que ele saia`, diz Ribeiro.

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