Chanceler paraguaio vem ao Brasil pedir vacinas e apoio a Abdo Benítez

Chanceler paraguaio vem ao Brasil pedir vacinas e apoio a Abdo Benítez

16/03 Presidente é aliado de Bolsonaro; país quer imunizante e remédios, mas deve sair de mãos vazias

O chanceler do Paraguai, Euclides Acevedo, reúne-se nesta quarta-feira (17) com seu par brasileiro, Ernesto Araújo, em busca de apoio político para o presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, e de doações de vacinas e medicamentos contra a Covid-19.

Acevedo deve ser recebido pelo presidente Jair Bolsonaro, aliado de Abdo Benítez, e o Brasil pode fazer um gesto de suporte ao governo paraguaio, abalado por protestos populares contra o fracasso no combate à pandemia e na vacinação.

O Brasil pode anunciar o início das negociações do Anexo C do Tratado de Itaipu, que determinará as condições de comercialização e preços da energia da usina a partir de 2023 —o anúncio é um pleito paraguaio e trata de ponto nevrálgico para os dois países, que quase levou à queda de Abdo Benítez em 2019.

No front sanitário, a visita deve ser menos frutífera. Apesar de ter pedido em janeiro ao Brasil uma doação de 10 mil doses de vacina e de solicitar também medicamentos para atender pacientes em estado grave, o chanceler paraguaio deve sair de mãos vazias.

O Brasil gostaria de ajudar o país vizinho e, de quebra, exercer soft power junto aos aliados de direita no continente.

No entanto, o entendimento é que uma doação no momento em que o Brasil registra mais de 2.000 mortes diárias e vacinou apenas 6,3% (primeira dose) seria politicamente insustentável. O Brasil registrou 11,6 milhões de casos de Covid e 282 mil mortos.

O Chile, que já conseguiu vacinar 25% de sua população, doou 20 mil doses de Coronavac para o Paraguai e 20 mil para o Equador. A China e a Rússia vêm usando a diplomacia da vacina para ampliar sua influência na região.

O Paraguai, que tem população de 7 milhões, teve 181 mil casos e 3.517 mortes por Covid. Mas a vacinação é um fracasso absoluto e, ao lado da superlotação de hospitais e da falta de medicamentos, levou o povo às ruas e a oposição a pedir afastamento do presidente.

Até dia 13 de março, apenas 0,1% da população paraguaia tinha sido vacinada. O governo paraguaio, que foi elogiado no início da pandemia por manter isolamento social e registrar um número relativamente baixo de casos e mortes, degringolou a partir de janeiro, com aumento dos casos e chegada da variante brasileira.

Segundo o embaixador Pedro Miguel Costa e Silva, secretário de Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas, estará na pauta o desafio mais imediato e urgente da pandemia. “O Brasil tem buscado ajudar o Paraguai na medida do possível. Esperamos poder prestar mais cooperação assim que estejam dadas as condições. Já contribuímos com respiradores e testes”, diz Costa e Silva. O Brasil já doou 50 respiradores e 50 mil testes de Covid e vai enviar mais 35 mil ao país vizinho.

Os paraguaios, no entanto, estão desesperados. “Temos dinheiro, mas não sabemos onde comprar as vacinas. Parece que se escondem de nós”, disse o chanceler Acevedo na terça-feira (16).

“Estamos explorando opções de lugares para obtenção de vacinas, não apenas doações. Se for necessário comprar, comparemos.”

O Paraguai também pede ao Brasil doação de medicamentos necessários para intubação de pacientes graves com Covid, como atracúrio e midazolam, que estão em falta no Paraguai. Porém, também no Brasil esses medicamentos começam a faltar, e os preços explodiram.

Durante reunião do Prosul nesta terça, Abdo Benítez reclamou da demora no envio das vacinas do mecanismo Covax e pediu ajuda aos países da região. Segundo ele, o Paraguai comprou —e pagou por— 4 milhões de doses de vacinas pelo mecanismo Covax, em outubro de 2020, mas, até agora, nenhuma chegou.

A agenda positiva do encontro deve vir de uma declaração de apoio de Bolsonaro a Abdo Benítez e do anúncio sobre Itaipu.

Em 2019, o assunto quase levou a um pedido de impeachment do presidente paraguaio. Veio à tona que os dois países haviam fechado um acordo estabelecendo um cronograma para a compra de energia gerada pela hidrelétrica binacional Itaipu até 2022. O acordo elevaria os custos para a empresa estatal de eletricidade do Paraguai em mais de US$ 200 milhões, o que, na visão do governo brasileiro, corrigiria uma distorção.

Mas a oposição acusou Abdo Benítez de traição à pátria por assinar um acordo que supostamente favorecia o Brasil, firmado de forma secreta, e a população foi às ruas.

Em agosto, o país cancelou o acordo, sem resistência do Brasil. Na época, o Itamaraty defendeu o presidente do Paraguai e citou sua “excelente relação pessoal” com Bolsonaro. O governo brasileiro cedeu e, em dezembro daquele ano, assinou um acordo que vale até 2022 em codições favoráveis aos paraguaios.

Em 2023, o Anexo C do Tratado de Itaipu, que trata da comercialização de energia e preços, será revisado pelos dois países porque a dívida da usina estará totalmente quitada. O Paraguai quer um anúncio sobre a revisão como forma de ter agenda positiva. Na renegociação, uma das possibilidades, defendida pelo Paraguai, é abrir a comercialização da energia de Itaipu, para que possa ser vendida a outros países. Os paraguaios afirmam que o Brasil paga pouco pela energia que compra deles.

Outros tópicos do encontro entre os chanceleres serão as pontes que as nações estão construindo sobre os rios Paraguai e Paraná e o projeto de conectividade em banda larga entre os dois países, além do combate ao crime organizado e a situação da Venezuela.

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