Cerco aos investimentos EUA-China

Cerco aos investimentos EUA-China

Lei mudará a maneira pela qual empresas fazem negócios em outros países.

A segurança nacional se tornou o principal fator a reger os investimentos externos nos EUA. Isso é resultado de um projeto de lei recentemente aprovado pelo Congresso americano. Embora o órgão multiagências Comitê de Investimento Externo nos Estados Unidos (CFIUS, nas iniciais em inglês), tenha reavaliado as implicações de segurança nacional do ingresso de investimentos externos desde a década de 1980, ele tendeu a dar preferência aos benefícios em detrimento dos riscos potenciais.

Mas a nova Lei Federal de Modernização da Análise de Risco do Investimento Externo (Firrma), que é impulsionada por temores dos EUA diante de uma China ascendente e que teve apoio dos dois partidos americanos, marca uma mudança. A lei fortalece o papel do Departamento de Defesa e da comunidade de inteligência na tomada de decisões sobre quem deveria, ou não, ser autorizado a investir nos EUA. Ela também dificultará em muito a injeção de dinheiro das companhias americanas no país asiático. O resultado serão alterações significativas na maneira pela qual as empresas captam capital e fazem negócios transfronteiras.

Independentemente das quantias em dólar envolvidas, essas mudanças estão entre as mais significativas dos últimos 40 anos, pois marcam uma nova atitude da parte do governo dos EUA para com os negócios americanos.

À parte os slogans de marketing, desde pelo menos a década de 1980 não havia qualquer pressuposto de que as empresas americanas tinham de operar de acordo com os interesses nacionais. Produtos, capital e trabalho podiam se movimentar para onde quisessem essa é a definição de globalização. A maioria das pessoas achava que, quando as companhias americanas vão bem, os americanos prosperam. Mas, como demonstraram as várias décadas passadas de estagnação salarial, a sorte das empresas e dos consumidores americanos está hoje, fundamentalmente, desvinculada.

A desigualdade de riqueza, por si só, não foi suficiente para convencer os políticos de qualquer dos dois partidos americanos a repensar as regras. Mas a China é suficiente. Embora as tarifas sejam ideia fixa pessoal do presidente Donald Trump, o temor de perder uma guerra econômica e cultural (e, talvez, uma guerra de verdade, em algum momento) com a China é uma preocupação amplamente compartilhada nos EUA, independentemente dos círculos que se frequentem.

Racional ou não, essa angústia coloca as empresas em situação cada vez mais difícil.

Nas minhas consultas, as autoridades do governo Trump me disseram, sem meias palavras, que as empresas americanas tinham vendido a alma e o IP para garantir presença na China, diz Michael Allen, membro do Conselho de Segurança Nacional do governo George W. Bush que atualmente assessora clientes corporativos em questões de segurança. Eles falam em termos de romper a dependência [entre os dois países] e [dizem que] vai doer agora, mas mais tarde vocês vão nos agradecer.

Muitas pessoas tanto da direita quanto da esquerda progressista sustentaram essa linha de pensamento por anos. Mas o fato de que esses pontos de vista estarem agora sendo abertamente discutidos e de que se tomem providências de acordo com eles é um repúdio notável à ideia de que os EUA e a China estejam inextricavelmente interligados.

Há muitos motivos pelos quais essa nova ótica pode estar equivocada: a dificuldade de desfazer décadas de laços de comércio e de investimentos entre os dois países; os efeitos, para o mercado, de uma tentativa nesse sentido; uma mudança de opinião do presidente; ou alguma solução de compromisso fundamental da parte dos chineses (os dois últimos são duvidosos). Mas suspeito que essa tendência tenha tudo para se manter, e que resultará nas seguintes mudanças:

As mensagens corporativas sobre fusões e aquisições transfronteiras vão mudar. Vamos ouvir menos conversa sobre transformar fronteiras e reunir pessoas e mais sobre negócios estratégicos destinados a fortalecer o crescimento dos EUA. Os executivos-chefes vão passar mais tempo em Washington, não apenas no Tesouro como na Casa Branca e no Pentágono. Ofensivas de sedução antes de fechar fusões e aquisições serão fundamentais.

Fornecedores governamentais de equipamentos bélicos e grandes grupos industriais já estão na mira política. Os de tecnologia e de finanças serão os próximos. Os afluxos de investimentos chineses aos EUA já despencaram do recorde de US$ 46 bilhões em 2016 para meros US$ 2,1 bilhões no primeiro semestre deste ano de acordo com a Rhodium. Agora os investimentos que saem dos EUA também sofrerão duras críticas. Houve enorme fluxo de dinheiro tanto do Vale do Silício quanto de Wall Street para a China nos últimos anos, em áreas como inteligência artificial (IA), 5G e computação quântica.

Consideremos o caso da SenseTime, uma empresa de IA em Pequim com software de reconhecimento facial usado em imagens da Televisão Central da China e sistemas de pagamento digitais. Recebeu financiamento de Qualcomm, Silver Lake, Tiger Global Management e Fidelity. Mas a política desses investimentos ficará muito mais difícil, especialmente enquanto houver a percepção de que os investidores americanos estão financiando ou compartilhando (via joint-ventures ou transferência tecnológica forçada) inovações, ideias e dados que possam ser usados pelo Estado de vigilância chinês. Pode-se imaginar todo tipo de empresas tecnológicas, da Cisco até Google, Amazon e Facebook, sofrendo esse grau de pressão.

Não é incomum, quando o assunto são investimentos externos, haver mudanças a cada vez em que há um grande participante novo no cenário mundial. A grande atualização anterior da lei do CFIUS ocorreu na década de 1980, em resposta à ascensão do Japão. Mas o Firrma é diferente. É bem possível que ele marque o fim de uma era na qual os negócios eram assim.

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