Carros não entram na Argentina

Carros não entram na Argentina

Quase 10 mil carros brasileiros `entopem` portos argentinos Comércio exterior Sem dólares, país vizinho retém entradas ha um mês

Além da queda da demanda no mercado interno, provocada pela pandemia, a indústria automobilística tem outro problema para resolver na Argentina, principal destino de suas exportações. Há praticamente um mês nenhum carro fabricado no Brasil entrou no mercado vizinho. Em torno de 10 mil veículos, a maioria do Brasil, estão parados nos portos argentinos, segundo fontes, à espera de um documento que o governo usa para monitorar a entrada de produtos importados. A demora ocorre em razão da escassez de dólares, que se agrava num momento em que o país está em plena negociação com credores externos.

A autorização à entrada de produtos importados no mercado argentino é feita pelo chamado Simi, sigla de sistema integral de monitoramento de importações. O Simi foi criado no governo de Maurício Macri, em2016,para substituir outro mais rígido, a Djai (declaração jurada de autorização à importação), que, durante a gestão de Cristina Kirchner transformou-se no pesadelo dos importadores. Na época, um já excessivo controle governamental dificultava ainda mais a entrada de produtos estrangeiros cada vez que as reservas caiam uma situação bastante freqüente no país vizinho.

Inicialmente, o novo monitoramento acabou com as dificuldades, poisa liberação das importações era quase automática. Mas agora, diante das dificuldades enfrentadas pelo país que voltou a entrar em `default` ao interromper o pagamento de parcelas da dívida externa, o sistema transformou-se num controle mais rígido, que dificulta a liberação de dólares pelo Banco Central da Argentina, para importadores.

`Voltamos a algo parecido ao que era antes (no tempo das Djais)`, afirma Pablo Lavigne, diretor da região da América Latina da Abeceb, uma das maiores consultorias de Buenos Aires. Lavigne foi um dos criadores do Simi enquanto ocupava o cargo de subsecretário de Comércio Exterior do governo Macri.

Segundo ele, o problema envolve outros produtos, como calçados e itens da indústria têxtil. São produtos para os quais o governo não fornece licença automática porentender que há similares nacionais. Isso envolve, segundo o consultor, 15%das importações argentinas.

No caso dos veículos, porém, afirma Lavigne, o tipo de modelo exportado pelo Brasil não é o mesmo fabricado na Argentina. A indústria automobilística trabalha há anos com um sistema de complementaridade. Modelos compactos são produzidos no Brasil e os médios e picapes, na Argentina. Praticamente todas as grandes marcas têm fábricas nos dois lados da fronteira e há 29 anos utilizam um acordo bilateral específico do setor para intercâmbio de veículos sem Imposto de Importação.

Os carros que estão parados em quatro portos argentinos, segundo fontes da indústria, foram produzidos antes de as montadoras suspenderem a produção em razão da pandemia. Os contratos de exportação e importação com o país vizinho costumam ser fechados com quatro meses de antecedência.

A urgência da indústria para que os veículos sejam liberados é porque o mercado argentino não está tão paralisado quanto o brasileiro. A alta e a escassez do dólar voltaram a estimular um antigo costume do consumidor argentino: comprar automóveis como forma de se proteger da alta inflação e cia desvalorização do peso.

O dólar está cotado em torno de 70 pesos no câmbio oficial e passa de 120 pesos no paralelo. `Comprar produtos importados é uma forma de a pessoa se dolarizar`, afirma Lavigne. Nas reun iòes com as empresas, o governo tem pedido paciência, segundo fontes da indústria. Garante a esse e outros setores que depois do desfecho das negociações com os credores tudo voltará ao normal. `Digamos que podemos trabalhar com 50% de chance de isso realmente acon tecer e 50% de não ser soluc tonado`, a firm a Lavigne.

Fonte de uma empresa no Brasil diz que o setor está extremamente preocupado porque, além dos veículos o intercâmbio envolve peças. Há, ainda, a preocupação de ogoverno argentino insistir que a liberação dos veículos nãoé urgente,já que a Argentina tem sua própria indústria. `Masé preciso entender a dinâmica de um modelo sustentável no setor, de complementaridade de produtos`, diz outra fonte de empresa na Argentina. Segundo essa fon te, já há falta de carros básicos naquele mercado.

O costume de comprar carros por quem economiza em dólares e não perde di nheiro mesmo em crises fez com que o estrago da pandemia no mercado argentino não fosse tão grande. As montadoras esperavam vendas em torno de 16 mil a 18 mil veículos em maio. Mas o total chegou a 22 mil. Para Lavigne, a situação pode provocar impacto no comércio bilateral. Mais da metade dos veículos exportados pelo Brasil vai para o mercado argent ino.Já o mercado brasileiro absorve 70% dos veículos exportados pela Argentina.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) não se pronunciou. Mas o assunto tende a ser um dos temas na entrevista coletiva que a entidade concederá hoje.

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