BRASIL SO NIO SERÁ INFLUENTE SE INO QUISER´

ENTREVISTA / Benoni Belli / diplomata

BRASIL SO NIO SERÁ INFLUENTE SE INO QUISER´

Para organizador de coletânea de ensaios escritos por planejadores de política externa, unilateralismo dos mais fortes não tem sido eficaz

Distanciados das atividades diárias e de curto prazo do Itamaraty para olhar tendências e antecipar riscos, os diplomatas brasileiros Benoni Belli e Filipe Nasser decidiram organizar uma coletânea inédita de ensaios escritos por planejadores de política externa de 19 países, incluindo eles próprios, do Brasil, além de China, Estados Unidos, Turquia, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Argentina, entre outros. O resultado foi um livro de quase 400 páginas, com o título `The Road Ahead. The 21st Century World Order in the Eyes of Policy Planners` (O caminho à frente: a ordem mundial no século XXI na visão dos planejadores de políticas), lançado apenas em inglês. `O multilateralismo está em crise justamente no momento em que mais precisamos dele`, afirma Benoni Belli, em entrevista ao GLOBO.

 Qual foi a principal razão que o levou a organizar esse livro?

Ainda não havia disponível uma coletânea de ensaios de planejadores de política externa, que são funcionários encarregados de olhar tendências e antecipar riscos. Atravessamos um momento de transição no mundo, e por isso há muitas dúvidas sobre o que nos reserva o futuro. Estávamos em busca de respostas, mas terminamos com mais perguntas.

Em qual a direção o livro aponta?

Há sinais preocupantes, com o aumento das tensões entre grandes potências e um descompromisso com regras multilaterais por parte de atores influentes. Esse diagnóstico coincide com a constatação de que os problemas da atualidade como migrações, meio ambiente, crimes transnacionais, comércio, entre outros demandam soluções negociadas. O paradoxo é que o multilateralismo está em crise justamente no momento em que mais precisamos dele.

 E qual seria a solução?

O mundo hoje é crescentemente multipolar. Para alguns, isso leva a uma reação das potências estabelecidas, que veriam novos polos de poder como ameaça. Para outros, a culpa pela instabilidade seria de alguns desses emergentes, que teriam posturas agressivas. A maioria dos autores do livro, porém, defende a diplomacia como forma de encontrar soluções comuns e cooperativas.

 E como é possível gerar o entendimento em meio a tantos desencontros?

Os países emergentes, como o Brasil, querem lugar à mesa de negociações, mas certas potências se apegam a seus privilégios. Há também um sentimento em algumas sociedades de que a globalização é responsável pelas dificuldades. A incapacidade dos sistemas de representação de dar respostas construtivas a esse sentimento gerou frustrações, que levam ao protecionismo e à xenofobia. A solução passaria por reformas nas instituições para dar mais peso aos emergentes, além de compromisso renovado com o multilateralismo.

 Há certa melancolia no seu artigo. Por que esse sentimento?

Não diria melancolia, mas realismo. Não douramos a pílula. Se nada for feito para mudar a trajetória de elevação da temperatura do planeta, por exemplo, o Brasil sofrerá prejuízos sérios à agricultura. O crescimento a qualquer custo tende a matar a galinha dos ovos de ouro. Essa lógica vale também para outros temas que afetam o bem-estar, a saúde e a segurança da população. Fiéis à tradição diplomática brasileira, fazemos uma ode ao multilateralismo como forma de moldar o futuro. Queremos a multipolaridade regida pelo multilateralismo.

Como angariar apoio da população edos líderes que querem ver resultados rápidos?

Devemos ressaltar as vantagens de uma ordem internacional baseada em regras. As instituições criadas no pós-guerra nunca foram perfeitas, mas evitaram uma guerra mundial. A OMC (Organização Mundial do Comércio), apesar dos defeitos, injetou mais previsibilidade nas relações comerciais. Os padrões de direitos humanos, mesmo desrespeitados em muitos quadrantes, ajudam a proteger os vulneráveis. A oposição a essa ordem corrói os parâmetros para a convivência regrada e impede soluções duradouras.

 Por que os países emergentes perderam espaço ultimamente?

Tanto a tensão entre grandes potências quanto a reação antiglobalização estreitaram o campo da ação multilateral, espaço preferido por esses países. Mas o unilateralismo dos mais fortes não tem sido eficaz. Quando vemos a ameaça de uma guerra comercial, o espaço da racionalidade se reduz para todos e o risco de caos aumenta. Nenhuma solução para desafios globais prescinde da participação dos emergentes, como demonstrou a resposta à crise financeira de 2008.

 Como o Brasil se encontra no atual cenário?

O Brasil é o maior país da América Latina em população, território e PIB. Só não seremos influentes se não quisermos. Apesar das dificuldades internas, o Brasil é um país incontornável na maioria dos temas internacionais.

 Poderia dar exemplo de tema em que o Brasil é incontornável? A integração regional não está comprometida com a crise na Venezuela?

 Seria inconcebível decisão internacional sobre mudança do clima sem o Brasil. No ano passado, lideramos a adoção de um tratado pioneiro de proibição de armas nucleares. Não se pode falar em governança da Internet sem ouvir o que temos a dizer. Apesar da ainda reduzida participação brasileira no comércio global, o Brasil é central nas discussões na OMC. Mesmo com a crise na Venezuela, a integração regional não parou. O Mercosul foi redinamizado, tanto na sua agenda interna quanto na agenda de negociações externas.

 Quais os principais desafios internacionais do presidente que assumirá em Io de janeiro de 2019?

Você tocou no principal na região: a crise na Venezuela. O protecionismo de alguns aconselha seguir apostando na diversificação de mercados. Acompetição econômica tende a se tornar mais acirrada, o que torna mais urgente atrair investimentos para modernizar nossa infraestrutura e aumentar a competitividade. As mudanças tecnológicas terão impacto na formação da mão de obra, segurança cibernética, proteção de dados, inteligência artificial. Temas ambientais e de recursos hídricos passam a ocupar lugar central na agenda. As tensões geopolíticas podem afetar rotas marítimas e desorganizar cadeias produtivas, com impacto sobre nossos interesses.

 

 

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