Brasil precisa de uma agenda contemporânea de inovação

Brasil precisa de uma agenda contemporânea de inovação

OCDE estima que ela responde por ao menos 50% do crescimento de seus membros.

0 ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações anunciou antes da sua posse a meta de chegar a 3% do PIB aplicados em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A intenção é boa e merece aplauso. Porém, mesmo que a meta fosse alcançável, ela em si não resolve as questões mais prementes a enfrentar para construir uma economia baseada em inovação. Os investimentos em P&D no Brasil são majoritariamente feitos pelo setor público e concentrados nos inputs dos processos de inovação. No geral, não logramos transformar conhecimento em valor econômico.

Para mudar essa realidade, é preciso compreender a dinâmica da (não) inovação no Brasil. Destaco cinco pontos. Primeiro, o ambiente econômico historicamente não favoreceu o surgimento de uma economia inovadora. Altas taxas de juros, flutuações macroeconômicas, ambiente concorrencial não maduro e baixa produtividade criaram oportunidades que não passam por inovação é menos arriscado ganhar dinheiro com renda fixa e consolidação empresarial.

Em uma economia pouco globalizada, as empresas desenvolveram competências para mercados menos competitivos. Segundo, há barreiras para criar e crescer empresas inovadoras. O sistema tributário é complexo, a integração entre esferas e agências de governo é deficiente. Há riscos na interpretação da legislação e, na prática, os empreendedores não conseguem isolar seu patrimônio pessoal dos negócios.

O financiamento é restrito e as opções de saída para investimentos são limitadas nosso PIB representa 10% do americano, mas o mercado de ações apenas 3,6%. O mercado interno não é sofisticado ou grande o suficiente para dar escala a empresas altamente inovadoras. Terceiro, o investimento público é feito majoritariamente em pesquisa nas universidades.

O apoio público à inovação se dá através de instrumentos antigos, pouco efetivos, com baixa participação privada. Ofertar crédito subsidiado pode ser resposta à escassez e ao custo elevado do capital no mercado privado, mas quanto à promoção da inovação se trata apenas de enxugar gelo. As principais agências de inovação no mundo investem principalmente através de `grants`, competições, joint-ventures com a indústria etc.

Quarto, a relação distante entre indústria e pesquisa não é ´cultural´. Resulta de barreiras juridico-institucionais, da organização da universidade pública e suas carreiras, e da falta de interfaces público-privadas efetivas. Apesar dos avanços do Marco Jurídico da Inovação aprovado em 2016 (Lei 13.243/2016), há limites para a circulação de pessoas, capital, conhecimento e outros recursos entre os setores público e privado que não existem nos países avançados.

Em uma economia pouco globalizada, empresas criaram competências para mercados menos competitivos Quinto, os investimentos públicos em C&T são pulverizados, têm pouco impacto e não são orientados para problemas nos EUA, por exemplo, o grosso dos recursos para P&D estão nos orçamentos de defesa, saúde, energia, transportes.

Como mostra estudo do IPEA de 2016, nossa infraestrutura tecnológica é pulverizada, tem baixa escala e é pouco utilizada pelas empresas faltam processos de negócios e estruturas de atendimento. Não temos projetos estruturantes, e os incentivos para investimentos privados são anacrônicos e pouco efetivos.

O desafio é grande e o problema, sistêmico, vai muito além de ciência e tecnologia (C&T). Torna-se aincla mais aguclo em um contexto no qual muitos países, incluindo os líderes (EUA, Alemanha, Japão, China, Coréia cio Sul etc), lançam estratégias de inovação e estratégias industriais com foco em alta tecnologia.

Há farto material e estudos a respeito. Porém, é importante notar que o Brasil realizou avanços notáveis em C&T. Formou recursos humanos, construiu um sistema de pós-gracluação, investiu em infraestruturas cie ponta como o Sirius, atingiu o 15- lugar na produção de artigos científicos no munclo e 1,3% do PIB aplicado em P&D estima-se que tenha caído para 1% na crise fiscal.

Embora aquém dos mais de 4% observados nos líderes e das médias mundial (cerca de 2%) e cia OCDE (2,3% em 2016), investimos mais em P&D proporcionalmente ao PIB que Argentina, Chile, Colômbia e México. Agora, para ir adiante e construir uma economia baseada em inovação, é preciso reconhecer e enfrentar a natureza sistêmica cio problema. Investimento em pesquisa é essencial.

Só que inovação é primeiro um problema cie negócios, economia e instituições. Nesse contexto, a agenda deveria contemplar quatro tarefas principais: Aprimorar o ambiente econômico e competitivo; Reorganizar e modernizar a atuação do setor público; Modernizar o ambiente jurídico-institucional e Construir instrumentos contemporâneos de promoção da inovação.

O sucesso da agenda de inovação e a competitividade futura da economia dependerão da conexão com o exterior. Hoje, o comércio exterior representa parcos 24% do PIB e apenas 0,3% da população é cie imigrantes, contra a média mundial de 3,5% e 15% nos EUA. Nossas empresas, universidades e sociedade são pouco internacionalizadas.

A exposição ao exterior cria oportunidades, demanda sofisticação empresarial e qualifica as ações locais. No mundo, as estratégias de inovação são coordenadas desde o centro do poder, nos gabinetes de primeiro ministros e presidentes.

A compreensão de que a agenda envolve inúmeras áreas do governo impõe a necessidade de se obter níveis coordenação intragovernamental e com a sociedade raramente obtidos por aqui. Hoje, a melhor experiência que temos é capitaneada pelo setor privado, através da Mobilização Empresarial pela Inovação, da CNI. Razões para apostar em inovação não faltam.

A OCDE estima que ela responde por pelo menos 50% do crescimento de seus membros. No Brasil, aincla em 2005, o IPEA revelou que as empresas que inovam geram mais e melhores empregos, são mais produtivas, faturam, exportam e crescem mais.

Aumentar o gasto em P&D é certamente importante, mas está longe de ser suficiente. A agenda deve ser sistêmica para ser contemporânea. Roberto Alvarez é doutor em engenharia de produção e diretor executivo da Global Federation of Competitiveness Councils (Washington, EUA), organização presente em 35 países.

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