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Brasil pode ser ´oásis´ para o capitai, diz Alcalay

Brasil pode ser ´oásis´ para o capitai, diz Alcalay

Entrevista Presidente do Bank of America vê dinâmica positiva no país.

Eduardo Alcalay, presidente do Bank of America Merrill Lynch no Brasil, tem motivos para estar otimista. Com forte atividade de mercado de capitais este ano e um cenário de venda de ativos estatais pela frente, pode ser um ano de resultados relevantes para o banco, que vem liderando a assessoria financeira dessas operações. Mas não é só isso.

Para Alcalay, o juro real baixo no Brasil e os juros zero ou negativos no mundo devem mudar totalmente a dinâmica do capital e o Brasil sair privilegiado desse processo. `A poupança local esta órfã do CDI gorducho`, diz Alcalay. `Com vontade política, a agenda de infraestmtura pode finalmente começai` a deslanchar, como aconteceu com a reforma da Previdência e tem acontecido com as privatizações.` A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O desempenho econômico está muito diferente do que o banco tinha projetado?

Eduardo Alcalay: Sim. O crescimento econômico foi a grande decepção [no ano], Quando o mercado vislumbrou o governo Bolsonaro, com agenda forte de reformas e retomada de confiança dos agentes econômicos, falava-se em crescimento de 3% ou acima disso. E isso não veio. As condições externas foram ruins, não só o cenário macro global piorou de lã para cá, como também o macro regional. Não dependemos da Argentina, mas ela responde por um terço das exportações brasileiras. Além disso, tem a questão local, de acomodação do estilo de governar e das relações com a Câmara. Esse conjunto acabou um pouco com aquela lua de mel da eleição. Nosso número hoje é de 0,7% de crescimento do PIB para este ano e cie 1,9% para 2020.

Valor: Então a perspectiva é de melhora?

 Alcalay: O crescimento doméstico é a grande oportunidade que temos e deve ser o foco do governo a partir de agora. O CDI em 6% e caindo para 5% ou menos transforma um país, a maneira como as pessoas poupam e a alimentação do setor produtivo, que começa a lidar com uma taxa de juro real jamais vista. O setor imobiliário começa a mostrar aquecimento das atividades, mais induzido pela demanda de investidores. O endividamento das famílias também começa a aumentar. Mas precisa haver consumo e investimentos.

Valor: Quais investimentos?

Alcalay: A agenda de privatizações por si só não gera crescimento, mas tende a aumentar investimento por parte das empresas que passarão a ser saneadas. Tem outra perspectiva que pouca gente olha. Estávamos outro dia com um governador que precisa privatizar a estatal de energia, que já não investe mais no seu negócio e inibe investimentos privados no Estado. Uma empresa quer abrir uma nova fábrica ou duplicar a existente, mas a estatal de energia não consegue garantir fornecimento com uma nova linha de transmissão ou uma subestação. Além disso, tem a agenda de infiaestrutura, da qual se fala há décadas e que pode finalmente deslanchar.

Valor: Por que deslancharia?

Alcalay: As diferenças são os juros baixos e a vontade política. Também falamos há décadas da reforma da Previdência e de privatizações, mas agora estão acontecendo. Com as finanças arrumadas, o país inspira confiança e atrai poupança externa. Ao mesmo tempo, temos uma poupança interna colossal que vai buscar novos projetos para ter rendimentos melhores.

Valor: Mas os estrangeiros têm demonstrado apetite reduzido.

 Alcalay: Nas ofertas de ações, os estrangeiros estão bastante ativos. Pelo cenário macro global, muitos estão preocupados com a preservação de capital, mas não estão fechados para o país e podem aumentar interesse à medida que o cenário entre Estados Unidos e China e sobre o Brexit fique mais claro e eles comecem a vir com mais força. E pela primeira vez temos a poupança doméstica começando a se movimentar. Temos R$ 9 trilhões de poupança financeira doméstica e dois terços disso empoçado em dívida publica, que até recentemente pagava 14% ao ano. Os brasileiros ficaram viciados e acomodados nesse negócio, e agora essa poupança fica órfã do CDI gorducho.

Valor: Qual a estimativa de migração da poupança doméstica ?

Alcalay: No nosso cálculo, a estimativa era que entre R$ 400 bilhões e R$ 500 bilhões poderiam migrar da renda fixa pai a a renda variável. Em 2008, 20% do dinheiro da indústria local de fundos era alocado em bolsa, com um juro real entre 5% e 7%. Hoje, essa participação é de 10%, no Brasil de juro real de 2,5%. Este ano, o aporte semanal médio tem sido de R$ 1,5 bilhão em fluidos de ações. Tem potencial para voltar a 20% de novo, pensando num cenário de quatro anos. A mesma dinâmica achamos que pode ocorrer com capital estrangeiro. O Brasil já respondeu por 16% do capital externo alocado em emergentes e hoje está em 7%. Se retomar ao mesmo patamar, são outros R$ 500 bilhões. Temos aí um número que o ministro Guedes gosta, de R$ 1 trilhão. O mercado de debêntures também está galopando. Só 8% do crédito corporativo local são detidos por assets, o restante está encarteirado em bancos.

Valor: O banco projeta cenário de recessão global ou americana?

Alcalay: A economia real ainda vai bem nos EUA e os indicadores das empresas são bons em tennos de evolução de receitas e fluxo de caixa. O alerta que está piscando lá é que os índices de confiança do empresariado e dos gestores de compras foram impactados pelo aquecimento da guerra comercial e de alguns dados de exportação. Se houver, acredito que será o que os americanos chamam de `shallow recession`, uma recessão rasa, uma desaceleração calma. A grande novidade é esse mundo de juro zero que nunca se viu nessa dimensão e os agentes tentando entender impactos disso.

Valor: Qual a conseqüência para o Brasil?

Alcalay: Um mercado que pode oferecer crescimento e segurança ao capital como o Brasil pode ser um oásis nesse mundo meio parando. Sem querer ser Poliana ou lunático, de achar que o mundo todo está ruim e isso é bom para gente, mas relativamente falando o Brasil tem posição privilegiada. A Argentina está uma lástima, o México já está tecnicamente em recessão e até o Chile está sofrendo impacto de redução de compras da China. O Brasil é o quarto maior em investimento estrangeiro direto, atrás de Estados Unidos, China e Hong Kong. Foram quase US$ 65 bilhões no ano passado e, até agosto deste ano, US$ 43 bilhões, e isso num país que a gente está falando que não tem crescimento.

Valor: Os ruídos de governo, como as declarações polêmicas, afastam os investidores?

 Alcalay: Esse governo foi eleito democraticamente com uma grande bandeira anti-establishment. É natural que haja, não diria, ruído, mas uma acomodação na maneira de se comunicar e de governar de Bolsonaro. Há discordâncias aqui e ali, mas vamos dar um passo atrás e olhar o macro: tivemos a refonna da Previdência, impopular mas fundamental para a estabilidade do país no longo prazo, em menos de oito meses de governo.

Valor: Então não atrapalha?

Alcalay: Existe um certo nível de apreensão, de alerta ao que isso causa, mas o que os agentes econômicos estão focados, seja local ou internacional, empresários ou investidores, é no resultado. A agenda liberal, de busca de estabilidade sustentável, está avançando e aí o crescimento que é o que todo mundo ainda está procurando terá as condições para aparecer um pouco mais adiante. A refonna da Previdência começa a colocar a questão fiscal no eixo, temos segurança jurídica e institucional e, dado o perfil socioeconômico do país, há atuação na redução das desigualdades sociais, com programas que já existem.

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