Brasil entrou numa crise diplomática com a China, mas a China não ficou sabendo

Brasil entrou numa crise diplomática com a China, mas a China não ficou sabendo

13:21 - Se há uma crise diplomática entre Brasil e China por conta do atraso no envio de insumos chineses para a produção de vacinas contra a Covid-19, faltou avisar à China. Por mais incomodado que o governo chinês tenha ficado com as bravatas anti-China do presidente Jair Bolsonaro e do filho 03, o deputado Eduardo Bolsonaro, não há sinais de que Pequim tenha decidido punir o Brasil justamente com o confisco de vacinas. Pesaram no atraso dois fatores: a labiríntica burocracia chinesa e, possivelmente, o aumento da demanda doméstica na China por vacinas, devido ao surto iniciado no país na virada do ano.

Vamos por partes. Primeiro, a situação da Fundação Oswaldo Cruz, que será responsável pela fabricação da vacina Oxford/AstraZeneca com insumos da farmacêutica chinesa WuXi. A embaixada do Brasil está há mais de um mês tentando liberar o envio do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), mas a WuXi alegava que a questão estava sendo decidida por um grupo interministerial do Conselho de Estado, o Executivo chinês. Recentemente, a embaixada foi informada de que o governo bateu o martelo e não será necessário emitir uma licença especial de exportação para os insumos.

Mas como na China as decisões governamentais não são publicados num diário oficial, houve atraso na chegada da informação à WuXi. Nesta quarta-feira a embaixada comunicou diretamente ao presidente da farmacêutica de que a emissão da licença só depende da empresa, e ele prometeu que faria o pedido imediatamente.

A questão é que entre o pedido e a autorização dá para contar com uma espera de duas a três semanas, no mínimo. Há ainda o risco de um atraso extra porque o processo irá até a véspera do Ano Novo Chinês, o principal feriado no país, que começa no dia 12 de fevereiro. Levando isso em conta, a Fiocruz antecipou que só deve entregar as primeiras doses da vacina no início de março, enquanto a previsão inicial era que isso ocorresse no dia 8 de fevereiro.

Já em relação à Sinovac, fabricante da vacina que começou a ser oferecida no Brasil no último domingo, também houve um atraso na burocracia para liberar a exportação do insumo usado na produção das vacinas pelo Instituto Butantan. Os lotes do material, que a empresa chama de “doses semiprontas”, devem chegar ao Brasil no fim deste mês e no início de fevereiro segundo quem tem acompanhado o processo de perto, que garante que o atraso não se deu por falta de insumos.

Esses carregamentos totalizam 11 mil litros de insumos, o suficiente para a produção de aproximadamente 20 milhões de doses.

As declarações inconsequentes contra a China do governo Bolsonaro certamente não ajudam. Mas a crise diplomática que se configurou em Brasília, motivando o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, a buscar a ajuda do embaixador chinês no Brasil, não é visível de Pequim. Se o governo chinês quisesse usar as vacinas para marcar posição contra o Brasil, seria de se esperar que houvesse alguma menção na entrevista coletiva do Ministério do Exterior desta quarta-feira. Entretanto, o foco claramente era outro. A porta-voz Hua Chunying dedicou quase toda a entrevista de cerca de uma hora a uma despedida ácida do governo Donald Trump, com ataques especialmente duros a Mike Pompeo, “o pior secretário de Estado americano da história”.

Haveria espaço para espetar o Brasil quando perguntei a ela sobre o atraso de insumos, mas a resposta foi tão moderada quanto nas vezes em que Bolsonaro fez pouco da vacina chinesa ou quando Eduardo Bolsonaro acusou a China de praticar espionagem por meio de suas empresas de tecnologia. Hua destacou a parceria “sem sobressaltos" entre a Sinovac e o Instituto Butantan e disse que a China “continuará a manter a comunicação com o Brasil". Ela admitiu, porém, que há uma limitação na quantidade de vacinas produzidas no país e que isso tem impacto nas exportações. É aí que mora o perigo: se a China perceber que a pandemia começou a sair do controle, espera-se que irá acelerar a vacinação doméstica e isso poderá levar a uma redução nas doses disponíveis para outros países.

No começo do ano, em meio a um novo surto de Covid-19 que fez o número de casos diários no país superar a centena pela primeira vez desde maio, Pequim anunciou que pretende vacinar 50 milhões de pessoas até o Ano Novo Chinês. A preocupação com uma segunda onda durante o feriado levou a medidas mais rígidas de controle, como a exigência de testes negativos de Covid-19 para todos os viajantes, não importa a origem ou o destino. Em Pequim, o governo ordenou o fechamento de jardins de infância a partir desta quinta e das escolas do ensino fundamental a partir de sexta.

— Estamos acelerando a produção para atender às demandas e contribuir para aumentar a acessibilidade das vacinas chinesas em vários outros países — disse Hua.

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