Brasil e França tentarão quebrar o gelo em reunião na próxima terça-feira

Brasil e França tentarão quebrar o gelo em reunião na próxima terça-feira

17:52 - Uma videoconferência entre embaixadores deverá promover a retomada do diálogo, suspenso devido aos atritos entre os presidentes Bolsonaro e Macron

BRASÍLIA — Após um ano marcado por uma relação conturbada entre os presidentes Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron, com insultos e bate-bocas que têm como plateia a comunidade internacional, Brasil e França tentarão uma reaproximação, na próxima terça-feira, em uma reunião virtual entre altos funcionários dos dois governos.

A conversa se insere dentro de um mecanismo de consulta bilateral realizado anualmente. Mas, desta vez, a videoconferência ocorrerá sob pressão do empresariado dos dois países, que está preocupado com os efeitos dessa animosidade sobre os investimentos, o intercâmbio comercial e o processo de ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.

A última vez em que o comitê de consulta se reuniu foi em março de 2019, em Brasília. Foi antes da intensificação dos incêndios na Floresta Amazônica, ocorridas mais tarde naquele ano e que foram o estopim para as disputas entre Bolsonaro e Macron. Na época, a política ambiental brasileira já estava na berlinda, devido à expansão do desmatamento. O líder francês chegou a chamar o presidente do Brasil de mentiroso, por ter-lhe prometido ser fiel ao Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, e disse que as queimadas eram um problema internacional.

Em outro momento que ilustra o relacionamento nada amistoso entre os dois líderes, Bolsonaro fez um comentário em uma rede social, aumentando a visibilidade de um post sexista insinuando que o presidente da França tinha inveja do brasileiro por causa de sua mulher, Michelle Bolsonaro. Na publicação, havia fotos comparando a primeira-dama brasileira com a mulher de Macron, Brigitte.

"Não humilha cara. KKKKKK", escreveu Bolsonaro. Macron reagiu chamando o episódio de "triste, triste" e dizendo esperar que os brasileiros tivessem logo um presidente que se comportasse "à altura" do cargo.

Acordo UE-Mercosul

Apesar dos percalços, o Brasil e os demais países que integram o Mercosul (Argentina, Uruguai e Paraguai) conseguiram fechar um acordo de livre comércio com a União Europeia (UE) no fim de 2019. Contudo, o governo da França, que sempre teve restrições a um tratado do gênero, devido ao forte peso dos agricultores no cenário político daquele país, avisou que não iria ratificar o texto.

Só que os industriais franceses argumentam que o volume de investimentos no Brasil, de cerca de US$ 29 bilhões (R$ 159 bilhões), é maior do que a China recebeu da França (US$ 20 bilhões, ou R$ 106 bilhões). Existem 800 empresas francesas em território brasileiro, que geram cerca de 500 mil empregos. Da parte do governo brasileiro, existe a percepção de que é preciso recuperar a economia após a pandemia de Covid-19.

Segundo fontes com conhecimento do assunto ouvidas pelo GLOBO, o governo brasileiro também pretende procurar outros países europeus, além da França, que deram sinais de que não gostariam de aprovar o acordo com o Mercosul, devido à política ambiental brasileira. São exemplos Áustria e Irlanda. Nesses casos, será exercida a chamada diplomacia parlamentar, uma vez que boa parte das restrições ao Brasil partem de congressistas da região.

O mesmo se dá nos Estados Unidos. O encarregado de negócios da embaixada do Brasil em Washington, Nestor Forster, decidiu enviar cartas a veículos de imprensa e parlamentares — de modo geral, democratas — esclarecendo pontos que, segundo ele, são visões equivocadas sobre o Brasil. Além de questões ambientais, Forster sai em defesa do presidente Jair Bolsonaro no que diz respeito aos direitos humanos, com destaque para as políticas e ações direcionadas a comunidades indígenas e quilombolas.

Ainda na próxima semana, o governo brasileiro deve responder a questionamentos de investidores internacionais e fundos de pensão, que enviaram uma carta, há duas semanas, às embaixadas brasileiras pedindo explicações sobre temas relacionados a meio ambiente e grilagem de terras. O assunto foi discutido na última segunda-feira, em Brasília, em reunião coordenada pelo vice-presidente Hamilton Mourão e representantes de diversos órgãos, como o Banco Central e os ministérios da Agricultura, da Economia e do Meio Ambiente.

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