Brasil e China são alvos da agenda ambiental de Biden

Brasil e China são alvos da agenda ambiental de Biden

O plano energético e climático do democrata Joe Biden é detalhado e ambicioso

Se eleito, o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos Joe Biden promete recolocar o país no Acordo de Paris no primeiro dia de seu governo. Outro compromisso climático será um confronto com a China sobre as emissões de gases-estufa tanto domésticas quanto aquelas que os EUA acusam o país de Xi Jinping de exportar ao financiar usinas a carvão em países em desenvolvimento.

No primeiro debate presidencial, Biden citou o Brasil. Disse que “começaria imediatamente a organizar o hemisfério e o mundo para prover US$ 20 bilhões para a Amazônia, para o Brasil não queimar mais a Amazônia. Ofereceu ajuda, mas também ameaçou o país com “consequências relevantes”.

O conflito com a China é dos únicos pontos convergentes entre a proposta política do democrata e a do republicano Donald Trump. Mas os motivos são diferentes.

No plano de clima de Biden está escrito que seu governo “buscará medidas fortes para brecar outros países de burlarem compromissos climáticos”. O texto segue: “À medida que os EUA tomam medidas para fazer com que os poluidores domésticos arquem com o custo de sua emissão, o governo Biden não permitirá que outras nações, incluindo a China, quebrem as regras do sistema tornando-se um destino econômico para poluidores, minando nossos esforços climáticos e explorando os trabalhadores e os negócios americanos”.

O democrata ameaça impor tarifas de ajuste de carbono ou quotas de produtos que têm alta emissão de gases-estufa em seu processo de produção “de países que não cumpram suas obrigações climáticas e ambientais”. Biden mira a China, mas pode atingir outros destinatários, como o Brasil. “Isso garantirá que os trabalhadores americanos e seus empregadores não fiquem em desvantagem competitiva e, ao mesmo tempo, incentivará outras nações a elevar suas ambições climáticas.”

É a mesma trilha da União Europeia, que vem estruturando sua taxa de carbono desde 2019.

“Cada pedaço de legislação climática dos EUA desde 2009 inclui uma taxa de carbono”, disse ao Valor Andrew Light, professor da George Mason University. “Muitos congressistas irão querer isso também”, segue Light, que foi do time do secretário de Estado John Kerry no governo Barack Obama.

Biden promete condicionar futuros acordos comerciais aos compromissos e desempenho dos parceiros com suas metas climáticas.

Quer impedir a China de subsidiar as exportações de carvão e terceirizar suas emissões. O plano do democrata lembra que a China é “de longe” o maior emissor de carbono do mundo “e por meio da “enorme Iniciativa do Cinturão e da Rota [BRI, na sigla em inglês], Pequim financia anualmente na Ásia e além, bilhões de dólares em projetos de energia baseados em combustíveis fósseis sujos”.

Se eleito, Biden promete mobilizar um grupo de países para forçar a China a ter altos padrões ambientais na BRI. “Não podemos mais separar as políticas comerciais das nossas metas climáticas”, diz o plano do democrata.

Os EUA respondem por 15% das emissões globais, e a China é o maior emissor. “Mesmo que todos os outros países tenham metas ambiciosas para conter o aquecimento a 1,5ºC, não se consegue sem a China”, diz Elan Strait, que fez parte da equipe da Casa Branca na gestão Obama.

“Embora a briga com a China seja pelas emissões do carvão, e há razão neste ponto, não há como negar que é uma disputa conveniente para os EUA neste momento”, diz um analista que prefere manter o anonimato.

A intenção de Biden, descrita no plano, seria promover uma reunião bilateral com Xi Jinping nos moldes da de 2014 com Obama, que pavimentou o Acordo de Paris. “Não vejo clima agora para esta cúpula”, diz Light. “Biden não tem mencionado isso na campanha”.

O programa ambiental de Biden é detalhado. A transformação da economia americana para zero carbono em 2050 é descrita setorialmente, diz Strait. “Nenhum outro candidato apresentou um plano climático como este”.

Para Strait, antes de mais nada, Biden precisará reorganizar as políticas climáticas em casa. “O primeiro ponto será colocar os EUA no caminho da descarbonização e recuperar a economia das perdas da covid-19. A boa notícia é que, no caso de Biden, estas coisas estão relacionadas”. Mas ele observa que para ter sucesso, o democrata terá que ter o apoio do congresso.

“É provável que ele tenha maioria na Câmara, mas o Senado é uma dúvida. Mesmo assim, há senadores republicanos que entendem a ameaça da crise climática e buscam soluções com os democratas”, diz o analista.

Entre os planos de Biden há também estabelecer limites ambiciosos para emissões de metano e determinar que as compras estatais sejam transportadas em veículos movidos a energias limpas. Outra medida será promover biocombustíveis de última geração e exigir que empresas públicas tornem transparentes os riscos climáticos em suas operações e na cadeia de suprimentos
A lista de promessas socioambientais segue. O democrata promete implementar novos limites para emissões de carros e agir contra empresas de combustíveis fósseis que poluem o ar e a água perto das comunidades vulneráveis.

Em relação à biodiversidade, a intenção é proteger 30% dos ecossistemas terrestres em 2030, assim como os aquáticos.

A ideia é propor uma moratória à exploração de petróleo no Ártico e até ter “uma rede mais integrada de energia do México, passando pela América Central e chegando à Colômbia, alimentada com cada vez mais energias limpas.”

O candidato democrata fará da mudança do clima uma prioridade central e de segurança nacional. “É um multiplicador de ameaças e amplia os riscos geopolíticos”. Irá encomendar uma National Intelligence Estimate (NIE) - um diagnóstico de inteligência - para estimar os impactos da mudança do clima na segurança econômica nacional levando em consideraçã a escassez de água, o aumento de riscos de conflitos e as implicações de migrações em larga escala.

Quer, também investir na resiliência climática das bases militares no país e no exterior. Eventos extremos causaram perdas de US$ 8 bilhões na infraestrutura militar americana em 2019.

O plano de Biden estima que 10 milhões de empregos podem ser criados no país na resposta à mudança do clima e indica que já há três milhões de pessoas empregadas na nova economia. Promete fazer “o maior investimento na história” em inovação e tecnologias de zero carbono para o futuro.

“Infelizmente, a administração Trump está deixando os EUA para trás na corrida pelas energias limpas”, diz o plano. Em 2017, a China investiu US$ 3 em energias renováveis e os EUA, US$ 1. Biden quer recuperar o tempo perdido e liderar as pesquisas, investimentos e exportações em energias limpas.

Neste momento, contudo, o democrata toma cuidado com suas promessas. Ele está no espectro mais conservador do partido, e a cautela ficou evidente no primeiro debate presidencial. Trump acusou o adversário de apoiar o “radical Green New Deal” que custaria “US$ 100 trilhões”. Biden reagiu rápido: “O Green New Deal não é o meu plano”, disse. O democrata tenta descolar seu plano do Green New Deal apresentado em 2019 pela congressista Alexandria Ocasio-Cortez. A proposta de Ocasio era descarbonizar a economia americana em 10 anos.

A proposta é considerada ambicioso demais por Biden. Um dos pontos de convergência é no foco às comunidades mais vulneráveis, frequentemente habitadas pela população negra. Biden pretende gastar ali 40% do dinheiro reservado à energia limpa.

O eixo central do plano de Biden é zerar as emissões americanas até 2050 com 100% de energias renováveis na matriz. No esforço, gastaria US$ 1,7 trilhão nos próximos 10 anos. Buscaria alavancar recursos privados e investimentos locais e alcançar US$ 5 trilhões.A verba pública, diz Biden, seria paga revertendo os cortes de impostos de Trump a empresas, reduzindo incentivos a paraísos fiscais, evitando a evasão e terminando com os subsídios aos combustíveis fósseis.

A postura cautelosa abre contradições entre seu programa ambiental e o que vem dizendo na campanha. Durante um encontro político há uma semana, Biden garantiu que, se eleito, não irá banir o gás de xisto. Mas no mesmo evento elogiou seu plano de promover energias limpas - que pretende eliminar o gás natural da matriz energética americana em 15 anos, reportou a Bloomberg.

Combustíveis fósseis são parte da economia global e centrais na economia americana, mas têm que ser banidos o quanto antes no combate à emergência climática. Ocorre que a Pensilvânia é o estado americano que mais produz gás de xisto e lá a batalha eleitoral não está ganha.

A curto prazo Biden pode até apoiar o mercado de gás. Mas a longo prazo, o preço cada vez mais competitivo de energias renováveis e os investimentos gigantes no armazenamento em baterias pode asfixiá-lo. “A descarbonização da economia não é um debate. É uma sentença de morte para os combustíveis fósseis”, disse Kevin Book, diretor da ClearView Energy Partners a Bloomber

Por outro lado, a plataforma ambiental de Trump é nebulosa. O republicano dizia que a mudança do clima era um engano e que “o conceito do aquecimento global foi criado por e para os chineses, de modo a tornar a indústria dos EUA não-competitiva”. Em Davos, em janeiro, disse que é preciso “rejeitar os profetas da desgraça”.

No dia pós-eleição, 4 de novembro, Trump deve formalizar a saída dos EUA do Acordo de Paris.

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino