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Brasil e Argentina fazem aceno ao pragmatismo

Brasil e Argentina fazem aceno ao pragmatismo

Longa conversa entre chanceleres aponta para canal de diálogo e resulta em visita de Solá a Brasília em janeiro; comércio bilateral em queda é a grande preocupação dos dois governos

Em um dos últimos atos da política externa da América do Sul em 2019 e que deve provocar efeitos sensíveis no ano que vem, os chanceleres do Brasil, Ernesto Araújo, e da Argentina, Felipe Solá, conversaram por videoconferência por mais de uma hora na terça-feira, no que parece ser mais um sinal de aproximação entre os dois governos que possuem profundas diferenças políticas.

Em nota, a Chancelaria argentina afirmou que os dois estabeleceram uma `linha comum` para a elaboração de políticas conjuntas, concordando em incluir o setor privado em negociações futuras, conversar sobre mudanças no Mercosul, como a Tarifa Única Comum, e sobre a implementação do acordo com a União Européia. Araújo ainda convidou o argentino para uma visita a Brasília, a ser realizada em 31 de janeiro.

Mais lacônico, o Itamaraty afirmou ao GLOBO, por email, que `os chanceleres do Brasil e da Argentina conversaram por videoconferência sobre os múltiplos temas da agenda bilateral`, e que `a data da visita do chanceler da Argentina ao Brasil, prevista para o final de janeiro de 2020, será confirmada oportunamente`.

Eu vejo essa conversa como um sinal, entre outros que apareceram, de que há uma percepção na cúpula dos governos do Brasil e da Argentina de que erraram a mão no conflito dos últimos meses afirma o professor de Relações Internacionais Maurício Santoro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 Desde que a candidatura do peronista Alberto Fernández se mostrou capaz de vencer, o presidente Jair Bolsonaro começou a criticá-lo e a defender a reeleição de Maurício Macri. Ele chegou a sinalizar que poderia `isolar o país` na América do Sul e apoiar a saída da Argentina do Mercosul.

VONTADE POLÍTICA

O peronista apostou também no antagonismo a Bolsonaro, especialmente ao demonstrar apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fernández chegou a visitá-lo em Curitiba e assinou um manifesto pedindo sua libertação. Após a vitória, mencionou Lula em seu discurso.

Os episódios seguintes tiveram um enredo um pouco diferente. Os comentários foram amenizados, e a palavra `pragmatismo` passou a ser mencionada.

-O que estamos vendo nas últimas semanas é um esforço, por parte de Bolsonaro e por parte de Fernández, de corrigir esses problemas e chegar a um certo entendimento. Algo que favorece essa iniciativa é que existe uma dependência mútua entre Brasil e Argentina diz Maurício Santoro.

De acordo com os dados do Ministério da Economia, as trocas comerciais entre Brasil e Argentina somaram US$ 18,652 bilhões de janeiro até novembro de 2019, com uma queda acentuada nas exportações (-36,61%), reflexo da recessão no país vizinho. O déficit comercial chega a US$ 641 milhões.

Um outro sinal de que há vontade política para um entendimento ocorreu antes da posse de Fernández. Bolsonaro titubeou ao definir o nome de seu representante ou mesmo se iria mandar alguém. Ao fim, se decidiu pela presença do vice-presidente Hamilton Mourão. Mas esse não foi o único sinal no evento.

Se olharmos os preparativos paraa possedo Fernández, o governo no final mandou um representante de alto nível, que foi o vice-presidente Mourão, Lula não participou da cerimônia de posse como tinha sido dito de início. Tem uma frase interessante do próprio Solá, em que ele diz que o dia da posse não é um dia de amigos, é um dia de governos pontua Maurício Santoro.

O professor da UERJ considera, porém, que existe um fator de risco: o de Bolsonaro e Fernández adotarem políticas para agradar suas bases.

-Esse risco existe, não é pequeno, todo o discurso do Bolsonaro é um discurso de uma espécie de guerreiro não apenas contra a esquerda no Brasil, mas também contra a esquerda na América Latina. O Brasil virou uma espécie de espantalho para a esquerda da região, é fácil adotar um discurso rígido contra o Brasil. Vai ser uma tentação para Fernández, especialmente se ele se vir diante de um cenário de declínio acentuado da economia e precisar usar a política externa para mobilização da base do peronismo.

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