Brasil é aliado estratégico da Colômbia, diz vice-presidente colombiana

Brasil é aliado estratégico da Colômbia, diz vice-presidente colombiana

12/08 Marta Lucía Ramírez expressa confiança na democracia brasileira e espera articular com Bolsonaro em temas como a crise venezuelana, meio ambiente, produção de vacinas contra a Covid e recuperação econômica

No atual cenário regional, a Colômbia considera o Brasil um aliado estratégico fundamental. Esse foi o principal recado trazido por Marta Lucía Ramírez, que desde maio exerce os cargos de vice-presidente e ministra das Relações Exteriores, ao governo do presidente Jair Bolsonaro, com quem espera articular posições em temas como a crise venezuelana, meio ambiente, produção de vacinas contra a Covid-19 e recuperação econômica.

Em momentos de tensão entre Poderes no Brasil, a vice colombiana expressou, em entrevista ao GLOBO, sua confiança na democracia brasileira. “Deve haver um exercício responsável do poder, pensando no longo prazo. Confiamos que é isso o que o Brasil vai fazer”, assegurou a número 2 do governo de Iván Duque.

Ramírez, que se reuniu em Brasília com o chanceler Carlos Alberto França e o vice Hamilton Mourão, defendeu um acompanhamento ativo por Brasil e Colômbia da tentativa de negociação entre a oposição venezuelana e Nicolás Maduro, a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e uma posição conjunta dos dois países na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

No cenário doméstico, admitiu que teve que “apagar vários incêndios” desde que assumiu o comando da Chancelaria, incluindo o dano causado à imagem da Colômbia pela repressão à onda de protestos sociais e o suposto envolvimento de colombianos no assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Mose.

A senhora tem falado sobre a situação regional e os riscos do populismo. Nesse contexto, qual é a importância da relação e da parceria com o Brasil, que tem funcionado bem em âmbitos como a Organização de Estados Americanos (OEA), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e na hora de questionar governos como os de Cuba, Nicarágua e Venezuela?

Para a Colômbia, o Brasil sempre foi uma referência muito importante, embora no passado não tenha sido um sócio estratégico e comercial tão grande, entre outras coisas porque o Brasil estava dedicado ao Sul, ao Mercosul, e nós buscando fortalecer nossa relação com o Norte, uma relação da vida toda. Mas este é um momento de grandes desafios, a economia colombiana é a terceira mais importante da América Latina, e temos de buscar fortalecer a economia, dar estabilidade a nossos países. Estamos convencidos de que isso se consegue com democracia e desenvolvimento econômico que gere emprego. Hoje estamos convencidos de que a relação com o Brasil é uma relação estratégica que temos de fortalecer, na busca de uma democracia e uma economia sólidas. No final do dia, a única coisa que importa são nossos cidadãos, e precisamos que os sistemas democrático e econômico sejam confiáveis e estáveis. São coisas que a Colômbia sempre fez e o Brasil hoje está fazendo.

Neste momento, existe em alguns setores da sociedade brasileira preocupação com a democracia. Existe uma tensão forte entre o presidente Bolsonaro e o Judiciário sobre o sistema de votação. O governo colombiano está preocupado com isso?

Por sorte, a Colômbia nunca sofreu golpes militares como os que houve na América Latina nos anos 70 e 80. Para nós, a democracia é um valor supremo. Hoje a democracia não se reflete apenas na eleição e se o sistema é eletrônico ou de voto impresso. O mais importante é ver até que ponto é sólida a independência dos poderes públicos. Quão transparente é a gestão dos órgãos do poder público. Qual é a confiança dos cidadãos nessas instituições do Estado. Confiamos muito na democracia brasileira e de outros países da América Latina, apesar das diferenças ideológicas. Uma diferença ideológica não deve se transformar numa justificativa para atentar contra a democracia. Isso é o que vemos, por exemplo, na Nicarágua. As diferenças ideológicas devem ser expressas no debate político, nas propostas, nos programas, para que os cidadãos escolham livremente. O que jamais podemos aceitar é que por diferenças ideológicas sejam aceitas rupturas democráticas, como na Nicarágua. Quando se quebra a democracia, todos são afetados. Foi o que aconteceu na Venezuela. Hoje temos 1,8 milhão de venezuelanos morando em nosso país, o que implica o custo alto para o Estado. É importante, sempre, preservar o diálogo, e todos em posições de poder ou no setor privado devemos saber que o poder deve ser exercido com responsabilidade, pensando no longo prazo. Confiamos que é isso o que o Brasil vai fazer.

Brasil e Colômbia aderiram recentemente a um comunicado de várias Chancelarias condenando a repressão em Cuba. Países como Argentina, Uruguai e Chile não assinaram o documento.

Qualquer fratura democrática na América Latina afeta todos. Alguns países sempre defendem os valores democráticos. A Colômbia nunca ficará em silêncio sobre riscos para a democracia, sem importar amizades ou proximidades com determinados governos. Devemos manter a coerência de defender os valores democráticos, o modelo de mercado cada vez maior e mais inclusivo. Alguns países, lamentavelmente, têm atitudes dubitativas. No entanto, destaco que, depois desses silêncios, países como Argentina e México convocaram seus embaixadores para consultas, o que mostra uma mudança positiva.

A sensação que se tem é de que, apesar da gravidade, a questão Venezuela perdeu relevância na agenda regional e dos Estados Unidos de Joe Biden. Essa perda de importância preocupa a Colômbia?

A Venezuela teve uma grande janela de oportunidade para acabar com a ditadura em janeiro de 2019, quando [o opositor Juan] Guaidó assumiu como presidente da Assembleia Nacional venezuelana. Naquele momento, deveria ter existido um plano concreto da oposição venezuelana para que eles, internamente, fossem capazes de acabar com a ditadura. Mas se organizaram, se dividiram. A comunidade internacional apoiou a democracia, mas não podemos intervir porque não nos corresponde. Essa janela hoje é menor, mas não se fechou. Deve ser mantida a pressão, o povo venezuelano deve manter uma voz firme contra a ditadura, a tragédia humanitária é uma questão ética e todos devemos exigir que exista democracia na Venezuela. As sanções econômicas servem, sobretudo contra os que formam parte do regime, que não é apenas uma ditadura, também está envolvido em atividades ilegais, com o narcotráfico, com grupos terroristas. Neste momento, a oposição tenta outra vez uma saída negociada. Tenho sentimentos ambíguos, mas o que mais queremos é que essa negociação dê bons resultados e que Maduro deixe de exercer o poder, porque sua Presidência não é legítima

O acordo deve incluir uma eleição geral?

Uma eleição presidencial com um sistema eleitoral confiável, que hoje não existe. Nesses pontos os países que participam dessa negociação têm uma grande responsabilidade. Caso contrário, seriam cúmplices de uma ditadura desumana com seu povo.

Colômbia e Brasil deveriam participar ativamente dessa tentativa de negociação?

Somos atores fundamentais porque somos dos mais afetados. Em nossas fronteiras, vemos uma enorme quantidade de atividades ilegais. A única maneira de combater essas máfias é conversando, por isso temos de trabalhar juntos para cuidar de nossas fronteiras e território. E devemos ser ativos na conclusão de um processo que garanta a democracia e a ruptura com os vínculos com o narcotráfico, mineração ilegal, desmatamento. Podemos ser observadores ativos, não necessariamente nos sentar à mesa de negociação.

Pode haver uma articulação maior entre Brasil e Colômbia na questão da Venezuela?

Respeitamos a posição do Brasil, e nossa posição será sempre não reconhecer o governo de Maduro. Queremos que dê certo, mas temos de aprender com outras experiências. Não deu certo fazer concessões a Maduro, concessões ingênuas. Nesse aspecto, fazemos um chamado à União Europeia (UE), porque uma coisa é querer que as coisas funcionem, outra se prestar a ter uma atitude generosa que a outra parte aproveita com má-fé. O tempo que passou foi a favor de Maduro e não do povo venezuelano.

Como está hoje a relação da Colômbia com os EUA? Ficou estremecida, entre outras questões, pelo apoio de representantes do governo Duque ao ex-presidente Donald Trump e pelos questionamentos do governo americano à repressão a manifestantes no país?

A relação com os EUA não pode se fraturar jamais e não pode fraturar-se por atores políticos que são conjunturais. Temos de ser responsáveis em cuidar dos aspectos fundamentais da relação, que são a confiança nas instituições democráticas, o compromisso com as liberdades, direitos humanos e desenvolvimento econômico. É uma relação de dois Estados, independentemente dos governos do momento. Em alguns momentos é mais estreita, mas sentimos que temos proximidade pessoal e respeito pela administração Biden, independentemente de que também tenha existido com a administração Trump. Nossa relação com a administração Biden é profunda e necessária, construída todos os dias com um olhar de futuro. E temos certeza de que os EUA têm um grande respeito pelo Brasil, pelo que significa esta nação e seu peso no mundo.

E de preferências políticas… poucos dias depois da visita de uma missão de alto nível da Casa Branca ao Brasil, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, divulgou imagens ao lado de Trump em Nova York.

Aqueles com uma posição pública têm de entender a responsabilidade que significa cada ação e cada gesto, que também comunicam. E os gestos devem ir sempre na mesma direção: a de construir uma relação profunda e de confiança com tudo o que simboliza democracia, liberdades, direitos humanos, desenvolvimento econômico e iniciativa privada.

Brasil e Colômbia compartilham, com outros países, a Amazônia. O governo Duque tem interesse em chegar à 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em novembro, na Escócia, com uma posição conjunta com o governo Bolsonaro?

O presidente Duque tem defendido que nosso país assuma compromissos mais rigorosos para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Queremos ouvir a posição do Brasil e ver a possibilidade de estarmos juntos. Não se trata do que nos peça o resto do mundo e sim do que sabemos que devemos fazer por nossos habitantes e por todo o planeta. Temos um pulmão do planeta. Estamos enviando uma mensagem clara e gostaríamos muito de compartilhar essa liderança com o Brasil.

O governo Bolsonaro tem sido muito criticando na comunidade internacional, principalmente pelo desmatamento.

Sempre confio em que temos uma grande responsabilidade e que as ações de hoje são cobradas pela História. Temos de enviar recados claros sobre nosso compromisso com o futuro da humanidade inteira. Tenho certeza de que no governo Bolsonaro existe esse mesmo compromisso.

A Colômbia, que é membro da OCDE, apoia o pedido de incorporação do Brasil?

Quando apoiamos Mathias Cormann para assumir a secretaria-geral da OCDE (em junho passado), e fomos um dos primeiros em lhe dar nosso respaldo, condicionamos esse respaldo a que ele promovesse a entrada de outros países latino-americanos, começando pelo Brasil.

A senhora tem mencionado o interesse da Colômbia na produção de vacinas no Brasil e de trabalhar conjuntamente nessa matéria.

A Colômbia se concentrou em conseguir todas as vacinas aprovadas. Mas temos laboratórios de altíssimo nível, e nosso ministro da Saúde busca que a Colômbia possa, por exemplo, colaborar com o processo de embalagem das vacinas. Queremos trabalhar em aliança com outros países através do setor privado. Já vemos a necessidade de ter uma terceira dose da vacina. Seria ideal que Brasil e Colômbia juntos pudessem gerar um grande aumento na produção de vacinas.

Existe preocupação pelo acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), entre outros motivos, pelo assassinato, desde 2016, de 283 líderes civis, alguns que assinaram o entendimento. Qual é sua resposta a essa situação?

O governo Duque cumpriu tudo o que nos correspondia sobre o acordo. Acontece que foi assinado há cinco anos e, nos dois primeiros anos, o governo do presidente Santos não fez nada por sua implementação. Nosso governo fez o que devia fazer e, em três anos, conseguimos a implementação de muitas das obrigações negociadas e nos sentimos satisfeitos, porque em várias dessas obrigações o nível de cumprimento é de 40%. Esse é um acordo que deve ser implementado ao longo de 15 anos e com esse ritmo somos otimistas. Alguns temas não dependem apenas do governo. Sobre a violência, lamentavelmente é verdade. O que acontece é que as regiões de conflito são as da coca. A coca é que alimenta a existência das FARC e do Exército de Liberação Nacional (ELN) nos últimos 40 anos. Também dos paramilitares, que são igualmente perversos e nocivos para a sociedade. Hoje, integrantes das Farc pretendem continuar com o negócio e, ao mesmo tempo, dizer que fazem parte do processo de paz. Muitos líderes sociais que hoje não querem estar no narcotráfico foram atacados por parte dos que nunca deixaram de ser combatentes e narcotraficantes. Por isso é muito complexo, mas temos de buscar todos os dias como ter mais capacidade de prevenção e contenção de riscos, proteger essas pessoas comprometidas com o acordo. Nosso objetivo é que não tenhamos mais mortos.

O governo Duque foi e continua sendo questionado pela repressão às manifestações sociais.

A mobilização social deve ser entendida e respeitada, em todo o sentido da palavra. Mas, à margem das manifestações sociais, houve grupos criminosos infiltrados com o objetivo de vandalizar e destruir. Queriam afetar politicamente o governo, sendo que no ano que vem temos eleição presidencial. Inclusive senadores promoveram esses grupos minoritários. Mas, nos últimos dias, a procuradoria e a polícia nacional conseguiram demonstrar ao mundo inteiro como muitos dos jovens encapuçados, igual aos coletivos (grupos de choque) venezuelanos, estavam armados. Foram apreendidas mais de cem mil armas. Muitos confessaram que estavam recebendo dinheiro para estar aí. Isso demonstra que a democracia colombiana esteve em perigo. Uma coisa é a expressão popular de descontentamento, legítima e que respeitamos. Outra é a utilização dessa expressão por parte de grupos minoritários violentos e criminais, isso nós não aceitamos e deve ser usada a força pública, sempre respeitando os princípios de proporcionalidade, legitimidade e legalidade. Se ocorrem excessos, os membros da força pública devem responder por eles.

E houve excessos.

Claro, e já temos quatro casos de condenações a policiais.

A senhora também teve de apagar o incêndio do suposto envolvimento de colombianos no assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moise, e do dano que isso causou à imagem do país.

Cada dia que passa, fica mais claro, graças às evidências encontradas, de que pessoas importantes do Haiti estão envolvidas nesse assassinato. Apoiamos as investigações, e a comunidade internacional deve acompanhar. Temos de dar todo o apoio para garantir uma investigação eficiente, que não deixe dúvidas sobre os responsáveis materiais e intelectuais desse magnicídio. Teremos de ver o que os colombianos sabiam sobre o magnicídio, até onde participaram realmente, quantos foram lá ingenuamente e foram utilizados? Por que mataram alguns deles? Que vozes deviam ser silenciadas e por quê? O presidente Duque ofereceu todo o apoio às investigações. Apagamos vários incêndios, e o faço com a convicção de que a Colômbia não é essa nação que outros pretendem identificar sempre com o crime, o narcotráfico. É uma nação de gente honesta e trabalhadora. A nação colombiana é muito superior aos indivíduos que cometem crimes e terrorismo.

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