Bolsonaro participará de uma convergência antibolivariana?

OPINIAO

Bolsonaro participará de uma convergência antibolivariana?

O próximo presidente do Brasil quer `desideologizar` a política externa. Isso implica abandonar as grandes causas do PT, como o apoio à Alba {ou ao que resta da aliança bolivariana) e á Unasul (União das Nações Sul-Americanas}.

O próximo presidente do Brasil quer `desideologizar` a política externa. Isso implica abandonar as grandes causas do PT, como o apoio à Alba {ou ao que resta da aliança bolivariana) e á Unasul (União das Nações Sul-Americanas}. Parais so ele querre configurar o Mercosul e rever suas áli anças regionais. Onde antes se olhava para os governos populistas e para a esquerda, agora se olhará em outra direção. Uma incógnita que ainda não foi esclarecida nesta mudança radical é o papel que o Brasil e o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), vão exercer na América Latina.

Bolsonaro indicou que o presidente chileno, Sehastián Pinera, será um interlocutor privilegiado. O colombiano Iván Duque pode ser outro. Mas os dois países fazem parte da Aliança do Pacífico, bloco comercial criticado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT)e seus assessores internacionais. Mais problemática será a relação com o argentino Maurício Macri e com o paraguaio Mario Abdo, condicionada pelo futuro do Mercosul. Como a maioria dospaíses sul-americanos, o Brasil sofre os efeitos da crise humanitária na Venezuela e seus quase 4 milhões de emigrantes, muitos dos quais huscam refúgio e trabalho nos países vizinhos. Vem daí que um dos temas articuladores de uma possível convergência con servadora será a resposta regional ao governo de Nicolás Maduro, tachado de ditatori ai pelo Grupo de Lima e pelo seeretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro.

O próximo dia 10 de janeiro será crucial por marcar o ini cio do próximo mandato na Venezuela,depois das eleições irregulares de maio passado. Alguns presidentes latinoamericanos anunciaram que náo reconhecerão um novo governo de Maduro e estudarão novas medidasconforme a evolução dos acontecimentos. Neste ponto será importante a atitude do presidente mexicano, López Obra dor. Recentemente o assessor de Segurança Nacional dos EUA, |ohn Bolton, descreveu Cuba, Venezuela e Nicarágua como` troica da tirania` e disse que vai estudar possíveis ações conjuntos com outros países do hemisfério. Foi precisamente esse um dos motivos de sua reunião com Bolsonaro no Rio de Janeiro.

Não será difícil para os governadores conservadores da região coordenar políticas tanto dentro como fora do Grupo de Lima, inclusive com os EUA. O problema é até onde vão querer chegar, cientes de que a p auta das relações regionais não se resume à crise venezuelana. Inclui a convergência entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, além das outras questões comerciais, a energia (náo apenas as fontes renováveis), a mudança climática, a corrupção e a relação com os EUA, China e a União Européia. Será mais fácil para BoLsonaro promover esse processo do que para seus colegas. Com aexceção dePinera, que se mostrou disposto a acompanhar o Brasil, enxerg ando-o mais como uma oportunidade que como um risco.

Os outros presidentes terão dificuldade maior, dada a forte rejeição que o novo presidente brasileiro gera na opinião pública do continente. A Cúpula Conservadora de Fozdo Iguaçu é apenas um caminho, se bem que, devido às ausências governamentais, ela será marcada mais pela retóri ca que por suas opções reais. A preocupação maior dos governos latino-americanos com o que ocorre na região é boa notícia, independentemente da cor política de quem a promove. Mas, para que isso prospere, énecessário q ue a convergência se dê a partir de consensos amplos em que os interesses nacionais pesem mais que a ideologia. lávímoscomo fracassaram redondamente os experimentos promovidos pelo projeto cubano venezuelano. A direita também deveria aprender a lição.

Carlos Malamud / Historiador argentino, é analista sênior para América Latina do Real Instituto Elcano

Tradução de Clara Allain

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